por Carlos Barros
“Pescador de histórias”
As
peixeiras de Esposende!
A roda do tempo, sempre em
andamento ritmado, nem sempre constante, estacionou momentaneamente, nas décadas
de sessenta e setenta, revivendo as peixeiras de Esposende, essas mulheres heroínas que trabalhavam estoicamente, vendendo o peixe
nas suas gamelas, pelas portas, com os “pregões” a serem disparados das
suas gargantas ressequidas, em todas as
direções.
As coloridas rodilhas gastas pelo tempo, são testemunhas
disso mesmo…
Algumas delas, autênticas
maratonistas, percorriam quilómetros
infindos, até Gandra, Palmeira, Perelhal, Curvos, Forjães, Barcelos até à
“longínqua cidade de Braga.
Peixeiras como a Angelina
Eiras, Antónia da Rodilha, A. Doninha, Silvana, Maria Pelada, Tina da Solha,
Isabel Caveira, Maria da Batata, Inocência, Antónia e Dina da Galga, Inocência,
Amélia Pichela, Maria Olívia, Tia Dores, Graça da Pequenina e tantas outras ,
“amigas do asfalto e das calçadas” do nosso concelho de Esposende, lutavam pela
vida amealhando uns “tostões” para alimentar as suas numerosas famílias.
No seu lesto caminhar, as
peixeiras proferiam os “pregões”, cantarolavam “canções romantizadas”, algumas delas tocadas pelo Conjunto Musical,
chamado “Chanandola”, constituído pelo Mário Faísca, Quico do Rites, José Praia,
que dominava a viola, e este trio musical, como curiosidade, chegava a atuar em Circos-Torralvo, Mariano…-
e nas Festas do da Vila. As canções preferidas e cantadas por este “famoso” conjunto Musical, eram as
do Roberto Carlos.
Elas vendiam fanecas,
cações (canejas), sardinhas, cavalas, sardas, chicharros, peixes-rosas,
tainhas, solhas, sáveis, safios e um
pano húmido encharcado com a água do rio
ou do mar, cobria o pescado para o refrescar porque nos dias de verão, o
sol era impiedoso.
As peixeiras de Esposende, mulheres de
coragem, abnegadas trabalhadoras , viradas para a vida porque tinham de ganhar sustento
para os seus filhos , trabalhavam em
“terra, rio e mar”, consoante as necessidades de momento, chegavam mesmo, a ajudar
os seus “homes” na varga e os barcos, no final da faina, tinham o seu “ancoradouro” no cais da
vargueira ou cais partido, como era designado entre os pescadores.
Com os seus calcanhares
“gretados”- calcanhar rachado-de tanto andar, poupava-se o escasso calçado que
existia, meros chinelos, socas geralmente
andavam com os pés “ao léu”. As
resistentes peixeiras,“ajoujadas” pelo peso do peixe, fisicamente não
fraquejavam e, enquanto houvesse peixe
na gamela, não paravam…
Passo uma breve citação, do escritor Raul
Brandão, nascido na Freguesia da Foz do Douro, filho de humildes pescadores,
que, no seu livro “Os Pescadores”(1867), visionava a nossa vila da seguinte
maneira:
“Logo adiante é o areal
africano da feia Esposende, terra da beira-mar, de onde não consigo ver o mar,
terra de tristes pescadores”.
Esposende de outrora,” não era privilégio da
natureza” mas tinham os seus encantos, com as suas gentes, onde a pesca
constituía uma das actividades económicas
mais importantes para a sobrevivência
dos pescadores. Esposende, era sim, o
“Privilégio da Natureza”, mas no
trabalho dos pescadores e peixeiras, mulheres valentes, laboriosas e a sua beleza era traída pela dureza da vida que
levavam : Raul Brandão dizia que a mulher poveira: “…a bem dizer , é um homem”. Feia e
rude, pernas como trancas…Mas são mães extremosas e grandes parideiras de
filhos para o mar…”
As mulheres de Esposende,
eram bonitas e lutadoras, pernas desenhadas pelo deus “Eólo” e pintadas pelo
deus Marte e, acima de tudo, eram mães
dedicadas aos filhos e exímias a fabricar a “prole”…Para mim, eram as “Vénus do
Cávado”…
O pescador ia para o mar,
único campo de lavra, arriscando a vida
e a mulher, ficava sozinha em casa, numa noite que não tinha fim e a
“criançada” dormia numa cama, de colchão de colmo ou folhelho e com as
travesseiras” cheias de “moínha”…A cama, era, por vezes, o habitat de seres
vivos saltitantes com o corpo humano a servir de hospedeiro…
Na sua mente, invade o
negrume da ansiedade, com a tragédia a bater à porta, anunciava o vento forte
que se arremessava contra a velha porta de pinho, com “voz de chiadeira”, desgastada pelo bicho da madeira.
O mar espevitado, um mar
cão que se fazia ouvir, num lancinante “urro” pela vila anunciava um mau augúrio. As mulheres
rezavam, apelando à Nossa Senhora de
Fátima ou Senhor dos Aflitos. Os trovões ecoavam no manto escuro da noite e os
relâmpagos dilaceravam as nuvens negras, carregadas de chuva.
Um inesperado vendaval,
cheirando a tufão, abanava as vidraças das janelas e a mulher sofria, e tinha o anseio do dia,
para esperar pelas catraias no cais norte, onde o Salva-Vidas estava de
prevenção constante com o senhor Abílio e a tia Esmeralda despertados e atentos
às más condições do tempo e do mar.
As peixeiras de Esposende finalmente, com o
tempo mais “domesticado” pelos deuses, iam para o cais e as catraias apareciam
na barra, com os corajosos e intrépidos pescadores,
a remarem em direção à calmaria do rio Cávado, sempre solícito a recebê-los.
Quando chegavam, o peixe
era “arrematado” pelo tio Sampaio, Tio João Careca e pelo tio Libânio e as
peixeiras disputavam o melhor preço, barafustando, ameaçando, gesticulando,
empurrando, gritando e , esporadicamente, puxando pelas roupas e cabelos, em
momentos mais acesos… Parecia a Bolsa de Londres na disputa das Acões-peixe-…No
final , todas ficavam amigas e cada uma
dirigia-se para os seus vários recantos da vila ou das aldeias , para vender os
peixes. A lota desse tempo, era uma autêntica” peixarada”…Até os irões e as caranguejas que dormitavam debaixo das
pedras, fugiam daquele alarido
ensurdecedor!
A criançada, ficava no
“jardim de infância” que era a ribeira, jogando futebol ou nadando, no tempo quente, nas escadinhas,
atacando os tremoços da Amália e da Tia Ana…
No inverno, os
pescadores tinham nas tabernas,-Bicheza,
António do Sul, Lininha Patela, Barrigana, Lucas, Abílio Coutinho, Nazaré,
Zezinha da Labrista …- o seu centro de
convívio, passando tardes e manhãs , a
beberem as suas tigelas ou malgas de vinho e as mulheres, de ancas largas e
peitos sólidos, iam buscar os homens à taberna, algumas delas já idosas e
deformadas pela vida, mas sempre enérgicas nos seus olhares, e rumavam de
regresso a casa, pouco acolhedora onde o frio marcava presença constante .
As mulheres, peixeiras de
Esposende, sofriam como muitas do nosso País , e as da Nazaré, citando Raul Brandão, confessavam: “o estupor da vida
que eu levo, sempre molhada até aos ossos!...Juro pela rosa divina (o sol) que
é verdade o que digo! Por causa destes homes! pelos sete filhos que criei aos
meus peitos, dia e noite naquela
estrada!às vezes a
minha vontade era
deitar-me no chão e nunca mais me erguer…Assim Deus me livre daquele leão
sagrado ( o mar) …Morrer?diz vossemecê que é melhor morrer? Não! viver pelos
netos, pelos homes e trabalhar até ao fim dos meus dias”. Dizia o escritor:
-“Valem mais que o homem,
sacrificam-se mais que o homem…”
Era este o sentir da
mulher Nazarena (Muitos pescadores de Esposende migraram para a Nazaré, com as
suas traineiras e motoras, e o seu mar foi sustento, durante anos, longe das suas famílias e ainda hoje, continuam a passar umas curtas férias, com a
saudade de outros tempos).
Este texto, é apenas um
testemunho para homenagear as peixeiras de Esposende e as suas famílias num
tempo, em que era difícil sobreviver onde nos seus lares, o pão não
abundava, sonhava-se com a televisão,
rádio ou telefone, recursos de luxo que não estava ao alcance destas humildes
famílias.
O Monumento ao Homem do
Mar em Esposende, esculpido com artística mestria pelos Irmãos Bom Pastor, é um genuíno símbolo do trabalho das mulheres e dos homens,
peixeiras e pescadores, imbuídos num trabalho de osmose, na luta pela sobrevivência, numa lutar
incessante com o belicoso Mar e o manso rio….Constitui também,
simbolicamente, o esforço das populações que do mar tiraram sustento e daqueles
que construíram embarcações necessárias à faina marítima.
O “Mar é Mar” é “ir e voltar” e , neste
centenário do nascimento da poetisa Sophia de Mello Breyner, que escreveu um
bonito poema sobre o Mar, porque não dedicar-lhe este texto!
Ela também escreveu e
semeou : “Poemas sobre Mulheres à beira-mar” e “Homens à beira-mar”.
Esposende, 6 de
novembro de 2019
(CMLB)