CANTINHO DOS LOBOS DO MAR
por Carlos Barros
A estacada….
Foi tradição em
Esposende, durante longos anos, a utilização da estacada – inúmeras estacas de
pinho, espetadas na areia do rio – leito - em forma de bico, chamado fojo - abrangendo
parcialmente as duas margens do rio
Cávado. A rede era presa nas referidas estacas e iam para o fundo, com apoio
dos garruchos-cordas presas às estacas-.
Os paus – estacas - eram
compradas ou surripiadas pelos pescadores nas bouças e eram espetadas com o
auxílio de um maço de madeira. A estacada funcionava em “sociedade” entre os
pescadores de Esposende e de Fão, em dias alternados e a rede só podia ser
instalada ao nascer do sol e ao pôr-do-sol, tinha de ser retirada, visando a
preservação da espécie – ciclóstumes - .
Os pescadores de Fão - António Borda, Tone
Lírio, Arménio, Ascánio…, com os seus barquinhos , colocavam-se perto do “vértice”-fojo- da estacada e com os
seus bicheiros apanhavam as lampreias que se aglomeravam em grande número e os
pescadores de Esposende, - Cândido Curico, tio David Loureiro, Santos, João
Careca, Zé “Bêbado”, Álvaro e João Fá, Serafim,
Guedes…- procediam da mesma
maneira. No dia dezoito de Dezembro era
o início da safra da lampreia e terminava a quinze de Abril e nesse período,
pescavam-se milhares de lampreias que se vendiam, à unidade ou ao quilo, na época-1960… por vinte escudos, ou cinquenta escudos conforme a
quantidade.
Nos rigores do inverno,
com as enxurradas, as redes eram arrastadas e perdiam-se no rio ou no mar,
causando prejuízos aos pescadores. No período da estacada era proibido aos
pescadores, apanharem lampreias na barra ou no rio, com as fisgas, e tantos os
pescadores de Fão, como os de Esposende, mantinha vigilância na barra para
impedir que alguém transgredisse, violando, deste modo, o acordo entre os
pescadores das duas vilas do nosso concelho. Naturalmente, às escondidas, caçavam-se
lampreias porque era muito difícil manter um controlo e vigilância absoluta e, pela
“calada da noite”, as lampreias eram fisgadas e só paravam em casa dos
transgressores….
O Santos, um jovem
pescador astuto, foi para a barra pela tardinha, acompanhado de uns amigos
também pescadores e resolveram apanhar umas lampreias, “à socapa”
e organizaram um plano de actuação para não serem vistos. Com um
bicheiro escondido, lá foram eles para a
Foz do nosso rio Cávado, num dia de nevoeiro e não se encontrava ninguém na
praia, pensavam eles!….
No dia anterior, o Milo,
mais conhecido, pelo Rosas, tinha apanhado duas lampreias no cais da barra mas,
por sorte, não tinha sido descoberto!
Num curto período de
tempo, estes aventureiros, apanharam quatro lampreias, muito “taludas” e todos
ficaram radiantes até que apareceu uma surpresa! O Tio Guedes que andava na
vigilância, no meio do nevoeiro cerrado, viu aqueles “meliantes” com as
lampreias e ordenou-lhes que fossem lançadas ao rio, perante o desespero do Santos que pedia
ao Senhor dos Aflitos para que o tio Guedes mudasse de ideias!...
Caluda, meus vadios, lampreias ao rio e já,
senão à “molho” pela certa, ameaçou o Tio Guedes…
As lampreias já
condenadas, “viram” uma luz ao fundo do túnel já que o Tio Guedes parecia ser o
patrono delas…
Muito desanimado, o Santos
teve que lançar as lampreias ao rio e, uma vez libertadas, continuaram a sua “caminhada”
provavelmente, a caminho da estacada mas aqui sim, poderiam ser apanhadas
porque a tradição assim o permitia…
O Santos olhou para o
Álvaro ”Mudo” e para o seu irmão Serafim e disse-lhes:
Ficamos com o dia estragado
por causa deste tio Guedes que tem a mania que manda…
Mas quem não arrisca,
não petisca, dizia o Santos para os seus amigos, pois amanhã, vamos tentar
outra vez, mas só quando o tio Guedes estiver a dormir a sua soneca lá em casa…
“Pescador de histórias”
CANTINHO DOS LOBOS DO MAR.
CANTINHO DOS LOBOS DO MAR
por Carlos Barros
“Tiro aos vidros”
Esposende despertou pela manhã, com os sinos da Matriz a dar as sete horas
matinais.
Já em pleno julho, as crianças fora da
escola, gozavam as suas férias tão
desejadas para se deleitarem na ribeira com os seus varais, a sua relva
despenteada e os juncos abanando como que acenando à miudagem para os levarem
até às pocinhas do rio para se encherem
de lagostas para o repasto matinal.
Na rua Conde de Agrolongo, o Quim
Tripas-Joaquim Eiras Gonçalves- já afinava a afunga e enchia os bolsos de godos,
apanhados nos areais da praia ou nos montes de areia das casas em construção.
A Rua 31 de Janeiro, o João Papinhas-João
Adriano- fugia pela porta fora, à socapa
da mãe porque tinha combinado um encontro com o Quim Tripas, no matadouro para
estudarem mais uma das suas aventuras:
tiro aos vidros…
Os dois comparsas, observaram as janelas do
matadouro, sempre atentos ao Zé da Vila que guardava as instalações, e
começaram os preparativos, recheando os bolsos de godos e reforçaram a pelica das afungas, feitas, com
paciência por estes dois rapazinhos irreverentes, com as borrachas de “cambras
de ar” dadas pelo senhor António Fandino que apreciava muito estes dois “trutas
irreverentes”.
Ao passarem pela tardinha, na Rua Direita, pela
garagem do Fandino, estes dois aventureiros iam em corrida acelerada, olhando
para trás…
Rapazes, o que é que
vocês vão fazer com as afungas,
gritou o senhor António?
Já sei que vão para a
vadiagem seus malandros, concluiu o Fandino para o João e o Quim Tripas que corriam
como galgos, atrás das lebres…
Pela tardinha, os nossos heróis aproximaram-se
do muro do matadouro, tomando posição de disparo e o desafio era fazer um
buraquinho redondo, sem partir o vidro.
As primeiras
“afungadas” do Quim Tripas partiram logo dois vidros que se estilhaçaram no
chão.
O João Papinhas não quis ficar atrás e com
dois disparos, mais dois vidros partidos, perante o delírio do Quim Tripas que
abanava a cabeça de contentamento...
Os melros cantavam
nas árvores do campo do serralheiro, anunciando a noite que se aproximava
vertiginosamente, com o sol a dizer o “último adeus” nos limites da restinga, o
grande braço de areia que aconchega as
águas do nosso rio Cávado e do gigante Oceano Atlântico.
Seguiram-se mais disparos e passados
minutos, as janelas tinham quase todos os vidros partidos e os dois “mariolas”,
regressaram ao Largo dos Peixinhos, com a missão cumprida, para lavar as mãos no lago e descansarem um
pouco nos bancos ripados avermelhados
do jardim.
No dia seguinte, o Zé da Vila deparou-se com o
desastre no matadouro e começou as suas investigações para apanhar os
“criminosos”, falando com a vizinhança da central.
O Virgílio, “O parafuso” que estava nas redondezas do matadouro tinha
assistido às fisgadas do Quim e do João e denunciou-os à GNR e os autores da
proeza e o denunciante foram chamados ao posto, no dia seguinte, para prestarem
declarações.
O cabo da GNR olhou para o trio e perguntou
quem é que tinha partido os vidros do matadouro sob gestos ameaçador do agente Oliveira.
O Virgílio respondeu de imediato que tinha
sido os seus dois amigos e estes confessaram o crime mas, a “coisa” não ficou
por ali…
O João Papinhas disse
ao GNR que o Virgílio também tinha partido os vidros, e o Quim Tripas confirmou
a denúncia e logo aí o “caldo ficou entornado…”!
Meus amigos, para não apanharem umas
vergastadas, os vossos pais irão pagar os estragos e vão ser informados disto.
O Virgílio ao sair do posto, sacudiu os calções de ganga cheios de serrim, perante
o olhar ameaçador do João Papinhas e do Quim Tripas, e saiu furioso em direção
a casa, dando a conhecer ao pai do acontecimento.
O Virgílio, de recompensa, ainda levou umas
“lostras” do pai que não acreditou na inocência do filho e de castigo foi para
a carpintaria ajudar o pai e o Carlos Gaspar que estava fazer umas cadeiras de cozinha.
O Quim Tripas, olhou para o João Papinhas e
disse-lhe:
Por ele nos ter denunciado, o “Parafuso” pagou as “favas ao dono” e isto
não vai ficar por aqui…
Os
vidros foram colocados e pagos, com sacrifício, pela mãe do Papinhas,
Amélia contudo a mãe do Quim Tripas não tinha ”posses” para pagar as
despesas e, como castigo, o Tripas passou
alguns dias a engraxar os “ plainitos” dos GNRs .O pai do Virgílio colocou os vidros todos nas
janelas, do matadouro que ficou com
melhor apresentação embora, não por muito tempo porque estes
aventureiros mais cedo ou mais tarde, iriam fazer novos tiros ao alvo…
O Quim Tripas, no dia seguinte, partiu para
novas aventuras e deslocou-se para a junqueira para apanhar cobras de água para
as vender na Farmácia Monteiro por cinco
croas cada uma, e logo a pronto pagamento…
Com os agradecimentos
da Bertinha e do senhor Monteiro, sempre simpáticos e solidários, ao Quim
Tripas, pela caçada dos ofídios, estes foram colocados em frascos para
“experiências” e como “mesinhas”, contra o reumatismo e outras maleitas
físicas..
O Quim Tripas deu algum desse dinheirinho à
sua mãe e irmãs para reforço dos almoços e jantares já que os tempos eram de
“míngua”…
Com uns trocos, o Quim Tripas, sempre
descalço, foi à Havaneza comer uma sande e um galão, sendo servido, pelo sempre
desconfiado senhor Franquelim designado pela rapaziada da ribeira por
“calcinhas”…
O Quim Tripas teve um lanche de “rico” e
depois do repasto, pegou numa cobra que tinha numa caixa de fósforos e soltou-a
e alguns clientes começaram a fugir do café, derrubando algumas cadeiras e desviando as pesadas mesas da Havaneza,
perante o desespero do senhor Franquelim que
se refugiou dentro do balcão.
O senhor Zé Praia, com os seus graduados
óculos, que estava a jogar às Damas com o senhor Carvalho, relojoeiro, nem se
mexeu do lugar, tal era a concentração ao jogo.
O Quim Tripas pegou na cobra que serpenteava
pelo chão do café, meteu-a na caixa de amorfos “Quinas” e saiu em grande
correria pela porta fora porque temia que uma vassoura voasse em sua direção!
Estava
consumada mais uma das aventuras do Quim
Tripas, menino traquina, simpático, aventureiro, irreverente, ágil como um
leopardo, corajoso como um felino, e que conseguia sobreviver nesses tempos muito difíceis. Em Esposende,
proliferavam famílias muito carenciadas, onde a “fome” batia à maioria das
famílias esposendenses.
Muitas crianças só usavam sapatos aos
domingos e nos resto da semana, andavam descalços calcorreando ruas poeirentas
e empedradas e caminhos de terra batida.
O nosso Quim Tripas tinha o “seu Mundo de
Aventuras”, fazendo relembrar os livrinhos
que se vendiam na Primorosa e que tinham esse mesmo nome: MUNDO DE
AVENTURAS.
O seu preço era de dois escudos mas, a
criançada limitava-se a olhar para eles, colocados naquela montra da Primorosa
mas, os dois escudos eram melhor empregues
na compra de uma sêmea na Padaria beirão e de um naco de marmelada
comprada na Nazaré e no António do Sul
ou mesmo um pirolito ou laranjada “Canada Dry” que se vendiam na Lucas.
O Quim Tripas era mesmo assim, um menino,
agora distinto e respeitável homem, irreverente e sagaz, um lutador pela
aventura e que o “Pescador
de histórias” se orgulha em
recordar.
Uma
viagem atribulada…
A motora Filomena Antonieta,
foi a primeira motora que veio para Esposende, no ano de mil novecentos e
sessenta e dois, com uma tripulação de pescadores muito trabalhadores,
divertidos e “vinhaça” que se aproximasse deles, era “vinho evaporado”, num
abrir e fechar de olhos…
O João Careca era o mestre da
Filomena Antonieta, pescador experimentado e muito sereno, sendo a tripulação
constituída pelos esposendenses, Quico da Inocência, irmão do João Careca, Morrossol,
com a sua gravata garrida e elástica, o Tone Pirata, Anselmo Saganito, A.
Guimarães, Alfredo Muchacho, e o grande “ilusionista” Milo, também alcunhado de
“Rosas”, antigo guarda-redes do Leixões.
A Filomena Antonieta,
com os seus treze metros de comprimento era palco de muito trabalho e de
diversões com o Alfredo Muchacho, sempre a comandar as “tropas” com o seu
excelente espírito de humor e de oportunas malandrices.
Era habitual, durante o ano, separar “meia parte” do pescado da
motora, para custear as despesas para alguns passeios a Lisboa-Mafra-Nazaré…- e
a outros locais ,(volta ao Minho…) para que a “companha” se
distraísse um pouco, fazendo descansar o corpo e espírito, “corroído”
pelas longas e cansativas saídas para o mar.
No dia vinte e dois de
outubro, de mil novecentos e sessenta e sete, o João Careca organizou um
passeio a Lisboa, com passagem por Mafra e Nazaré. Após umas passeatas pelos
cafés/tascas no campo das cebolas , foram todos pernoitar à Pensão Varandas ,
curtir um pouco das “copaças” com uns tremoços e amendoins, de sabor bolorento,
a acompanhar…
O Morrossol, sempre aperaltado, tinha pedido, ao João Careca, no primeiro
dia na capital, se o autorizava a ir ter com uma tia e prima na baixa lisboeta
e o mestre, começou a esfregar a boina desconfiado mas, lá lhe deu autorização
desde que, no outro dia, estivesse junto à Pensão Varandas para a viagem de
regresso.
O Tone Pirata acenava para o senhor João para não o deixá ir porque nunca
mais regressaria, lembrando-se das “partidas”-aventuras- anteriores do
Morrossol.
O Tio Alfredo, com ar
tristonho, sentado num muro, junto à Pensão, desabafou:
- Adeus amigo Morrossol, nunca mais
te vejo!...Vai “alma perdida”….
No dia seguinte, quando os “turistas” iam partir de Lisboa, lá estava o
Morrossol, com dois grandes embrulhos, com frascos de perfumes e
roupa branquinha, mesmo a seu gosto …
O Tio
Alfredo, não resistiu, abeirou-se do seu amigo e começou a vasculhar os sacos,
procurando alguma garrafinha de tinto ou uma cerveja perdida mas,
infelizmente, nada disso existia, perante o desespero do Tone Pirata e do Tio
Aníbal Mó que tinham a garganta seca!
Já
em viagem de regresso, a velha e ferrugenta carrinha do Aníbal Mó, sócio da Motora
Maria Antonieta, que transportava estes pescadores de Esposende, numa curva
teve um pequeno despiste e avariou-se e gerou-se algum pânico entre
os “turistas”.
O
Milo foi projectado pela porta fora e caiu desamparado, com uma lata de óleo,
rasgando as calças, caindo num valado, cheio de urtigas. Esteve a
coçar-se durante muito tempo, com comichão, com o Tio Alfredo Muchacho a
rir-se perdidamente. O Milo, assustado, estava vermelho de tanto se
esfregar.
O Morrossol, dentro da carrinha, gritou:
- Irmãos estamos perdidos, vamos a
pé para Esposende por causa desta carripana maldita!
Todos
saíram da carrinha, e o Anselmo, com o susto que apanhou, cada vez
gaguejava mais, apesar do apoio do Tone Pirata que só pedia para pararem na
próxima tasca para beber uns valentes “ganázios”- malguinhas- de
vinho.
O Alfredo Muchacho, sempre na borga, pôs-se
ao volante, sem saber conduzir e destravou a carripana que começou a deslizar e
só parou junto a um muro, coberto de musgo e trepadeiras, que
amorteceu o choque.
Entretanto, a porta da
carrinha, que estava segura com cordas e arames, soltou-se e foi projectada,
deslizando sobre um extenso relvado, junto a um barracão de tijolo que se
encontrava abandonado apenas, dois gatos vadios saltavam entre ervas
verdejantes e dois tijolos abandonados...
O Milo que não bebia bebidas alcoólicas e
gritava a “sete foles”:
-Quero um pirolito, estou com uma
secura!
Entretanto a carrinha, com O Aníbal
Mó ao volante, já bem entornado, começou a trabalhar e logo a companha
enfiou-se dentro da viatura a caminho da Nazaré .
O Morrossol, de sapato branco,
gravata de elástico e casaco de xadrez, desviava-se do Alfredo Muchacho porque
este estava sempre a puxar pela gravata, esticando-a e largando-a, aleijando o
“caroço” ao infortunado Morrossol.
O Quico desesperado, olhava para o irmão João Careca e perguntava-lhe o que
iria fazer a estes “bebedolas” e, com a sua calma, o mestre olhou para ele e
disse-lhe:
- Vamos já para Esposende, e vamos
deixá-los na ribeira porque estou farto de aturar esta cambada, lamentava o
João Careca.
A carrinha em velocidade de cruzeiro, chegou a Esposende pela já madrugada, e parou
na ribeira, junto ao posto da Alfândega, com a intenção de os deixar lá, mas,
todos estavam despertos e saíram da viatura, cambaleando, em direcção às suas
casas onde as mulheres os esperavam com o caldo de farinha à mesa e uma
postinha de raia ou bacalhau frito.
Foi um passeio atribulado
mas, muito animado apesar das peripécias que tinham acontecido num passeio que
jamais poderia ser calmo porque o Tio Alfredo Muchacho, agitava aqueles jovens
e alegres pescadores que, apesar das brincadeiras, palhaçadas e maroteiras,
eram sempre amigos e bastante unidos na amizade e no trabalho.
“Pescador de histórias”
“O Toninho pedinchão”
O Toninho
“Anão” (António José Barros Neto) percorria, numa fase inicial, Esposende
lés-a-lés, passando a “pente fino”, todos os cafés das redondezas como a Havaneza,
Nélia e Primorosa e alguns tascos onde apareciam os “lavradores ricos” das
aldeias. O Toninho sempre na sua missão de peditório, ia pedindo a esmolinha da
ordem, com uma “carinha de meter dó” para melhor convencer os incautos.
O Toninho metia-se
nas camionetas da “Viúva”- Auto da Viação do Minho, Ldª- ou do Linhares-
Caetano Cascão Linhares- e pedia dinheiro aos passageiros ou dirigia-se para os
locais mais “lucrativos”, onde era pouco conhecido, como em Viana do Castelo e
Barcelos, aqui às quintas-feiras, dias de feira. Chegou-se a aventurar-se em
incursões a Braga mas, esta cidade era muito confusa para o nosso amigo
Toninho, como uma vez me confessou.
Um dia, ele
estava na mercearia/armazém e tasca do Abílio Coutinho, bebendo uma malguinha
muito à pressa, não vá o Carlinhos aparecer, que sempre lhe negava o vinho, e
meteu-se à socapa, dentro da Camioneta da “Viúva” que acabara de chegar para
entregar as encomendas no Coutinho, que era o local de recepção das mesmas. O
Lourenço com as suas “lunetas” já carcomidas pelo tempo, era o principal
distribuidor dessas encomendas: Farmácias Monteiro e Gomes…
Durante a
viagem para Viana do Castelo, o Toninho, que era muito pequenino, meteu-se
debaixo de um banco e permaneceu escondido durante toda o percurso, sob a cumplicidade
de alguns passageiros que o protegeram, já que o conheciam bem, doutras
“aventuras peditórias”.
A camioneta mal
chegou a Viana do Castelo, o Toninho saiu “disparado” do banco e foi em
direcção à marginal da cidade para percorrer os cafés no seu “afã” de
pedincha, visitando as “capelas do Loureiro”- tascas- que lhe iam
aparecendo pela frente.
No campo da feira,
entrou numa taberna e, com os bolsos recheados, mandou vir umas iscas de
bacalhau frito, dois trigos e a habitual tigela de vinho tinto carrascão, que
lhe soube pela vida. Naturalmente, não foi apenas uma tigela de vinho, outras
se lhe seguiram…
O Toninho dirigiu-se
pacatamente e a deambular, para o escritório das camionetas da “Viúva” e, com
tanto azar, perdeu-a e não havia mais nenhum autocarro para Esposende, perante
o desespero do Toninho que esbracejava e protestava contra tudo e contra
todos….
Bem, só tenho
uma solução, murmurava o nosso amigo para os seus “botões”!... O Toninho foi para
o cais de Viana para arranjar boleia numa motora de Esposende e, por mero
acaso, o Tio David estava a chegar do mar, com a sua Cláudia Cristina, motora
de quatro cilindros com um potente motor dinamarquês “Buick”, com a matrícula “ES 86 C”. O senhor David, olhou para o
paredão e disse para os seus tripulantes:
-Olha quem
está ali, é o Toninho Anão! Já deve estar “com os copos”….
Toninho, o que
queres, perguntou o mestre David, ao nosso “artista”, perante os olhares do
Milinho e do Tone Fifas.
Quero boleia
para Esposende senhor David, pediu o Toninho choramingando…
O mestre olhou
para a tripulação e meditou, numa rápida
reflexão.
É uma grande
responsabilidade levar o Toninho naquele estado e se cai ao mar, estamos
perdidos, confessou o senhor David para os seus tripulantes ….O Alfredo
Morrossol levantou o braço e disse:
Eu não quero
problemas porque o Anão não é de confiar….
O Tião
Saganito, o Agostinho e o Milo acenaram para o senhor David para deixar entrar
o Toninho para a motora.
Vamos
arriscar, disse o Milo, ameaçando o Toninho com uns “caroques”….
Toninho, entra
mas vais amarrado ao alador para não caires ao mar porque a mar está “alto” e
não quero arriscar, disse o mestre David
ao Toninho que cambaleava no convés, amarrado à casa do leme…
Ó Milo, guarda-me
estas moedas porque tenho o bolso roto, pediu o Toninho ao seu amigo! O mestre
David que estava junto a uma caixa de lagostas e lavagantes, olhou de lado para
o Toninho e disse-lhe:
Seu malandro,
nem em mim confias precisavas é que te pusesse ao mar!
Passadas umas
horas, depois de descarregado o peixe para a lota, a motora partiu com toda a
sua tripulação para Esposende e durante a viagem o Toninho dormiu
profundamente, nem a agitação forte das ondas, o acordava.
A motora Claúdia
Cristina “aportou” junto ao Salva-vidas, onde estavam os irmãos Miquelinos a
conversar sobre o jogo Norte-Sul em que os Sulistas , tinha vencido por quatro
bolas a uma em que o árbitro “Touca Branca” fez uma arbitragem polémica, como foi sempre do seu timbre….
O Toninho foi
desapertado das cordas do alador pelo Alfredo Morrossol e levado ao colo pelo
Tone Fifas, para o cais e o Milo entregou-lhe todo o dinheiro do peditório do
dia.
Quando menos
se fazia esperar, o Toninho começou a injuriar o senhor David e toda a
tripulação, afirmando que lhe tinham roubado o dinheiro, numa gritaria que
ecoou ao longo da Ribeira até à Alfandega Marítima de Esposende, onde se
encontravam o senhor Torres e o Lima, duas autoridades marítimas, -guardas- a conversarem à porta da Delegação, sobre os negócios da Teresa do Castelo que nesse dia, tinha
comprado muitos quilos de lavagantes e lagostas que foram pesados na loja do
Abílio Coutinho pelo Carlinhos que recebeu, como oferta, um pequeno lavagante,
que mais tarde, foi cozido pela Tia Alice
na máquina a petróleo e comido à mesa pelo Carlinhos e o “cheiro” ficou
para os tios…. O tamanho do marisco não dava para mais!
A Teresa do
Castelo, com o seu poderoso porte atlético, e com as suas pulseiras e cordões
de oiro a ornamentar os seus pulsos e pescoço, agradeceu à tia Alice e ao
Carlinhos pela pesagem e na sua carrinha, com o marido a conduzir, foi em direcção
a Viana do Castelo para deixar o marisco aos seus clientes.
No cais
pairava a confusão com a gritaria do Toninho que não parava de protestar, chegando
mesmo a pegar em “pilado” que estava num monte, junto ao paredão, atirando-o
para dentro da motora.
Seu vadio, seu
corrécio, para a próxima vez, anda-me pedir boleia que vais ver, ameaçou o
mestre David ao Toninho que foi
abandonando a ribeira, fazendo-lhe caretas provocadoras.
O Toninho
regressou, com sacrifício, à sua modesta residência, no bairro das Casas de S.
Vicente de Paulo e mal entrou em casa, pelo quintal, em passada “sorrateira”, guardou
o dinheiro debaixo do colchão de colmo, num dos quartos de dormir “colectivos” e
“caiu como um tordo”, ficando a dormir “até às tantas”…..
No dia
seguinte, o Toninho “Anão” já estava em forma e pelas onze da manhã, entrou na
Nélia e começou a pedir cinco croas ao Dr. Francisco Marques que estava a
engraxar os sapatos no senhor Guimarães, e a outros clientes de Barcelos e de
Braga mas, teve que acelerar porque o senhor João Tamanqueiro, empregado de
mesa, tinha-o detectado e a única
solução era a fuga para poupar as orelhas….
O Oliveira e o
Benjamim “Come croas”, empregados da Nélia, estavam a servir noutra zona do
café e não ameaçavam perigo para o Toninho. O Adriano, filho do senhor Adelino
das camionetes do Linhares, no Snack-Bar, chamou pelo Toninho, deu-lhe dois rissóis
de camarão e de bacalhau do dia anterior, na condição do Toninho sair dalí,
porque parecia mal pedir…
Com os rissóis
na mão o Toninho desapareceu e foi “atacar” na Havaneza mas, o Jerónimo não lhe
deu hipóteses e só lhe restou “imigrar” para uma nova viagem, agora para
Barcelos, sempre clandestinamente, sem pagar bilhete porque o Toninho tinha
sempre dinheiro, mas quando era preciso pagar algo, ele “nunca tinha dinheiro”.
Precisamente
no dia doze de maio de mil novecentos e oitenta e cinco, numa tarde trágica, o
nosso amigo caiu de uma “marquise”, no Bairro de Sucupira e “deixou-nos” para
sempre um acontecimento que entristeceu todos os esposendenses e a família em
particular. Todos nós reconhecemos que o Toninho fazia muita falta aos
Esposendenses porque era uma pessoa especial e “castiça” e pessoalmente, nunca aquele rapazinho, foi
mal educado para o “BÓIAS”, e eu que tive muitos e muitos contactos com este
amiguinho no café, no armazém-mercearia-tasco do meu Tio Abílio Curvão ou mesmo
em plena via pública!
Uma coisa é
certa: nunca lhe servi uma malga de vinho ao Toninho, apesar de me pedir muitas
vezes! Fui sempre seu defensor pelas boas causas e cheguei mesmo a dar-lhe
algumas explicações, quando estava na Escola Primária, tentando que ele regressasse
aos estudos mas, perdi e fui derrotado pela teimosia do Toninho porque a Escola
para ele, não era vida…
Carlos Barros
“A secura do Geno…”
O Manuel António Sousa Cruz,
mais conhecido pelo Taxi, batizado pelo ilustre Zé Feliz, nas suas vivências na
ribeira, no “estádio da Faustina” foi um jogador especial, tendo jogado no ESC, Marinhas, Vila Chã , Fão
e no Norte-Sul . A sua velocidade
ultrapassava a da bola, chegando mesmo, a desaparecer do campo, num jogo com o
Ronfe porque ficou “mergulhado” numa valeta, sendo pescado pelos calções pelos
colegas, depois do jogo ter sido interrompido pelo árbitro, que ficou espantado
pelo desaparecimento inesperado do craque Taxi.
Atualmente o nosso amigo Nelinho
pertence ao “Danças e Cantares das Marinhas”, tendo-se deslocado, em digressão
artística, cinco vezes à França e a vários pontos do País, chegando a atuar com
o seu grupo de Folclore, no Algarve.
Para além de jogador de futebol,
o Taxi foi pescador, com cédula Marítima, passada pelo tenente Tavares e pelo
Arlindo da Delegação Marítima de Esposende, tendo feito uma prova e mergulho e
natação, sendo aprovado sem entrar no rio, apenas molhando a cabeça, tendo
convencido as autoridades marítimas da época. O Taxi era um estratega peculiar
e na ribeira, nos jogos de futebol Norte-Sul, onde se jogava a cinco croas, o
nosso “mestre” armava confusão e ficava com o dinheiro ou escondia-o no capão
da bola de futebol do Zé Pancas.
O Taxi, como no futebol, era “ave” de
arribação e, como pescador, passou por
várias motoras: Cruzeiro do Norte-João Paquete-, Torrão-Berta Bicheza-, Mar
obedece a Jesus –Quico da Inocência- e 1º de Abril – Zé Bebado-,”Senhora do
Triunfo- Marco Filipe-motora Nova do Zé
Bêbado-, Pérola de Esposende- “Rabo do Chico”-, Senhora da Saúde-Manuel Reis-,
Pai Tirano-Tio Armando- e Galo Negro-Tone Galo-.
O Taxi esteve, como pescador, em
Sagres, Sines. S. M. Porto, Arrifana, Vila Nova de Mil Fontes, Viana do Castelo
e, naturalmente, em Esposende, conhecendo meio mundo e fez rir muita gente, com
o seu “singular sotaque”.
O Geno fez parte da tripulação do
Taxi e, numa bela tarde, com o sol a apertar, pelas quinze e trinta da tarde, a
secura invadiu os tripulantes da motora e não havia cerveja ou garrafões a
bordo da embarcação porque rapidamente desapareciam com tantos discípulos do
Baco, deus do vinho, existentes na motora.
Atita,
ainda te lembras quando andavas na motora do Zé Bêbado e, ao alar os “tróis”,
com um grande congro preso, pegaste no bicheiro e fisgaste a madeira da borda
da motora, perguntou o Taxi ?
Lembro-me, lembro-me bem, tu
precisavas era de uns valentes cachaços nesse lombo ameaçou o Atita que não
gostou nada da conversa.
Entretando na motora, ouviu-se
uma voz, de aflição:
Estou com a garganta seca, gritava, com rouquidão,
o Geno para os seus amigos, pedindo vinhaça…
O Taxi, tinha uma garrafa de
cerveja cristal, no porão e foi buscá-la para
matar a secura ao velho e amigo Geno que continuava a pedir
copaça.
Geno, meu irmão, tenho aqui uma
garrafa de cerveja que o meu irmão Pexixola me deu, disse o Taxi todo
solidário.
O Geno mal pegou na garrafa de
cerveja, meteu-a à boca e começou a gritar:
- Eu morro, eu morro, estou a arder por dentro, socorro,
socorro!...
O Taxi pensava que era falta de
oxigénio e pegou no extintor e despejou-o na cara do infortunado Geno, para
agravar ainda mais, a situação do “desgraçado”…
O Geno, então é que começou a
aumentar, em refrão, a gritaria, numa explosão de aflição.
O mestre da motora ao ouvir a
gritaria, saiu da cabine, escorregou nos langanhos das raia no convés, contudo conseguiu segurar-se e
deparou-se com o Geno quase desmaiado, espumando-se
pelos cantos da boca.
Taxi, o que deste a beber ao
Geno, perguntou o mestre da motora ao Taxi.
Dei “ceveja” comprada no tasco do tio Feliz, que
o meu irmão Pexixola me deu, e pus “ogénio” na boca dele, respondeu convictamente
e nervosamente o Taxi.
Desgraçado, vou-te matar tu deste ao homem
petróleo que estava na garrafa, no porão que era para pôr nas lanternas…
O quê, dei “pitólio” ao Geno, questionou
o Taxi tremendo por alguma bordoada que cairia no “lombo”…
O mestre da motora atracou a motora ao
cais e o Geno, fervendo a “muitos graus” e trasando a petróleo, e com a cara
toda branca da espuma do extintor, foi
transportado pelos colegas para o hospital de Viana do Castelo onde ficou internado
durante algumas horas, tendo alta no dia seguinte.
O Taxi andou fugido por umas horas da
tripulação da motora mas, depressa regressou porque tinha uma saída para o mar,
onde iriam largar redes ao camarão e a calma regressou ao barco que continuava
a cheirar a petróleo e, graças a uma nortada de sudeste que se levantou, o
cheiro foi varrido e a “ecologia” pairou na motora.
“Os irões da junqueira”
O Paulo Fá, ainda
criança, com os seus nove anos, comandou uma equipa de “marmanjos” para apanharem
irões, perto do matadouro e da junqueira. Estavam grossos, confessou ele aos
seus amigos.
Era preciso dinheiro
para comprar sêmea, “trigos”, e umas croas para se jogar futebol na ribeira a dinheiro e
um saco de irões, vendidos às peixeiras era oportunidade a não desperdiçar.
Pegaram em “varapaus”
e lá foi a criançada, comandada pelo Paulo do Fá para o rio e começaram, a
apanhar irões e, passado pouco tempo, a saca estava cheia, com as enguias a rabiarem
dentro da sacola.
O “maralhal”, todo
entusiasmado, lá foi vender as “enguias” a casa da tia Inocência.
Todos contentes, estas crianças que tinham
fugido à escola, nessa bela tarde de Verão, bateram à porta da peixeira, todos
sorridentes pela boa “safra” piscatória.
Entrem meninos, disse a tia Inocência, ponham
aqui os irões no chão-soalho carunchoso- para serem contados que eu dou-vos
cinco croas, uma pequena “fortuna “ para essa época, ano de mil novecentos e sessenta
e um.
Os irões foram
lançados sobre o soalho, para serem contabilizados mas, começaram o “bufar” e a peixeira gritou,
saltando aflita:
-Desgraçados, vocês apanharam mas foram cobras, respondeu a
mulher assustada.
Entretanto, a casa encheu-se de cobras por
todo o lado e até subiram para a cama do quarto do Zé, filho da peixeira.
Estava o caos semeado naquela modesta casa e
a rapaziada começou a fugir pela porta fora e só pararam na ribeira, deixando o
saco dos irões para trás.
A tia Inocência, com ajuda dos filhos,
conseguiu, com paus e uma vassoura, expulsar e matar a maioria das cobras outras
porém, conseguiram fugir para o quintal do “Zé Tolo”,( filho do Albano Laca) e
do Abílio Coutinho, para o meio do seu
tomatal.
O Paulo Fá olhou para o Manel e Tonó e
desabafou:
- Tão cedo não quero ir aos irões porque aqueles bufavam como
cobras!...
História contada
pelo Paulo do Fá, no dia 21 de janeiro
de 2013-01-21
junto à lota-Sul- de
Esposende, na presença do José Manuel e esposa Adelaide, Manel Nibra e
Ainho.
Carlos Barros
21/1/2013
Os dois esfomeados...
A motora “Mar obedece a Jesus”, com a sua tripulação- Rogério, Tone Passarinho, Agostinho, Tone Paquete, “Arrebita” e Quico - o mestre da motora- encontrava-se em Sagres, no ano de mil novecentos e oitenta e seis, na sua faina piscatória.
Uns jovens ingleses, dois rapazes e uma rapariga, encontravam-se a passear numa avenida, quando reconheceram os pescadores de Esposende, sempre barulhentos, que tinham ido beber umas “taças” na taberna, e abeiraram-se deles:
- Amigos, gostávamos de ir ao mar, podemos ir?
-O Tinocas prontificou-se a pedir ao Quico, que estava ao seu lado, se poderia levar os banhistas , que estavam numa colónia de férias , ao mar.
-O Quico, sempre disponível, acedeu ao seu pedido, combinando com os jovens estrangeiros, a hora da partida, para o dia seguinte.
A motora partiu pelas cinco horas da manhã, com os jovens no convés, descontraídos junto à casa do leme, onde o Quico, com a sua experiência e saber, tripulava a motora em direcção ao mar, para alar as redes. Os tripulantes conversavam com o “Arrebita” que dava recomendações aos jovens para não enjoarem. Percorridas umas milhas, o trio inglês já estavam com ar de enjoados mas, sempre sorridentes.
Chegados ao local, em pleno mar, os pescadores começaram a alar as redes, com o Pezinho mais a observar que a trabalhar…Após umas horas de “alanço” a motora encheu-se de tamboris, lagostas, peixes-galos, salmonetes , sargos, douradas e de outras variedades de peixes.
Meu Deus, tanto tamboril, gritava o Agostinho para o Tone Paquete, que era o cozinheiro no mar, enquanto que o Agostinho, era mestre de “culinária” mas, em terra.
O Tone Paquete olhou para o Quico, mestre sempre atento às agruras do mar, decidiu que o almoço seria arroz de tamboril para toda a “companha” e o Arrebita e o Tone Passarinho, esfregaram logo as mãos de contentes porque era o prato favorito deles.… O Tone pegou em três grandes tamboris, levou-os para a improvisada cozinha no convés, preparou-os e fez uma “arrozada” de tamboril cujo cheiro se espalhou pela motora, perante a alegria dos pescadores, já que a “barriga batia horas”…
O Rogério Chana, olhou para o Paquete e disse-lhe:
Tone, estes “estranjas” vão comer connosco?
Claro que sim, respondeu prontamente o Tone, que mexia o arroz que ia dançando ao ritmo das ondulações do mar.
Os ingleses foram servidos com o saboroso prato e começaram a comer, deliciando-se com o saboroso arroz.
Tone, eles vão comer mais arroz? Olha que eu e o Pezinho ainda não comemos, alertou o Rogério!...
Não faz mal que eles não comem mais mas, é melhor perguntares outra vez, respondeu o Tone Paquete.
Ò juventude “tanque iu” (Thank you) querem mais um prato perguntou o Chana!
Yes, more, more… !
Tone, “Yes” é sim , em português?
Seu “morcão” não sabes que é, respondeu o Tone ao Rogério…
Os jovens comeram mais uma pratada de arroz de tamboril, perante o desespero do Pezinho e do Chana que estavam a ver o “fundo da panela”….
E agora o que vamos comer Tone, pois estes “desgraçados” comeram-nos o arroz todo?
O Arrebita com a barriga cheia, já dormia na proa, ressonando ! Até as gaivotas, que estavam a comer tripas de tamboril, se assustaram…
O Tone Paquete, com a panela vazia, atirou-a pelo convés que deslizou até à proa, quase atingindo o Arrebita que continuava a dormir profundamente.
O Quico perante tanta confusão e desespero dos “esfomeados” olhou, da casa do leme, para os dois amigos que continuavam a resmungar e disse-lhes:
Pezinho e Rogério, em terra vamos comer ao restaurante porque os ingleses pagam…
O Tone Passarinho, o Agostinho, o “Arrebita” olharam uns para os outros e nem queriam acreditar! Vão para o restaurante encher o “bandulho” e nós aqui, lastimaram todos eles!...
O Quico apressadamente, saiu da motora “Mar obedece a Jesus” olhou para a tripulação e disse-lhe:
“Gude vai” - Good bye- amigos, acenou o Quico com o seu boné e fiquem a fazer a digestão do tamboril…
“Pescador de histórias”
“ O Trio” na cela…
Alguns jovens, com os seus quinze aninhos de idade, numa friorenta tarde de dezembro de mil novecentos e sessenta e oito, época natalícia, filhos legítimos da ribeira,- Toninho “Zurique”, Santos, Candinho e João Muchacho- estavam a jogar futebol, no caminho que separava as casas do Bairro de S. Vicente de Paulo, em plena rua de S. João.
No calor do jogo, o Ribeirinho acidentalmente, mandou uma bolada ao neto do Li e, depois de muito alvoroço, o Li -Alfredo Barros Lima, pescador mestre da motora Daniel José-apresentou queixa no posto da GNR de Esposende, tendo o processo seguido para o Tribunal já que o Li, teimosamente, não perdoou ao Ribeirinho, que se tinha “desfeito em mil desculpas”.
Os três amigos, afirmaram, no Tribunal de Esposende, que não tinham visto nada, contudo o “Caravelha”, como testemunha, tinha dito em tribunal que eles tinham visto tudo e que estavam a mentir…
Já dentro do tribunal, o Candinho começou a espreitar por uma “frincha” da porta da sala de audiências e, por mero azar, foi visto pelo “Garcia velho” que ficou possesso e furioso, e de dedo em riste, virou-se para o Candinho disse-lhe, num tom de voz ameaçador:
Ó seu vadio, vais para o xadrez e não vai demorar muito tempo…
O Candinho, descalço, tremia “como varas verdes” pois, possuía “cadastro” uma vez que , já tinha sido preso, por ser apanhado, a pescar à lampreia, num dia da estacada e, como castigo, foi condenado a “serviço comunitário” sendo obrigado a limpar o rio Cávado onde se amontoava o entucho das cheias. Claro que, o Candinho, não aceitou o castigo e foi parar à cadeia tendo afirmado que estava melhor preso que a trabalhar para o “tenente”…
O Adão, escrivão do tribunal, ia registando, na sua velha máquina de escrever “Olímpia”, todos os pormenores da ocorrência, organi-zando o processo para o veredicto final.
Depois da audição final, a mandato do juíz, os três ribeirenses fo-ram conduzidos, pelo sr. António carcereiro, para a prisão, por te-rem mentido.
Estiveram presos durante dois dias e duas noites e na friorenta cela, o Muchacho começou a chorar, dizendo que não queria morrer!
O Santos, passava o tempo a cantar o fado para se distrair e a Laura do Roto, que tinha uma loja perto da cadeia, foi fazer queixa ao carcereiro, senhor António, pai do Manel Maria da Ritinha Padeira porque não conseguia dormir com tanta barulheira. O trio foi avisado pelo senhor António mas, a irreverência era “fogo que não se apagava” com facilidade…
O Santos, continuou a cantar o fado mais baixinho e parecia um pintassilgo a cantar e a “dobrar”, ajudado pelo Muchacho! Este amigo desesperado, certo dia, pegou numa vassoura e queria “matar” o carcereiro porém, o Santos tirou-a das mãos para não agravar a situação penal... O João Muchacho ia resmungando para as paredes da cela e passava o dia a dormir, curtindo as mágoas…
O Candinho que se encontrava deitado no colchão “pulguento” da cela propôs aos amigos, para que no dia trinta e um fossem pôr o “Ano Velho Fora” pois, tinha uma carrela, uma japona do pai e um “sueste” do tio Geno.
O Santos olhou de soslaio para o amigo e respondeu-lhe pronta-mente:
O que quero é sair desta “cela velha” e o meu pai, quando chegar a casa, vai-me mas é “chegar a roupa ao pelo” e lá se vai o “Ano Velho Fora”…
O Pai do Santos, senhor Delfino, junto à lareira de casa, estava à espera do seu filho, para ir ao mar na Motora, e começou a ficar preocupado com a sua longa ausência. A senhora Maria Fifas, mãe do Santos, sentada num carunchoso banco, rezava pela sorte do filhinho que já lhe tinha pregado muitas partidas e precisava dele para apanhar isca porque tinha uns banhistas, seus clientes, que vinham aos sábados buscar as suas doses de isca para pescarem no cais “bilhano” onde as “pintas” estavam a “monte”...
Passadas umas horas, veio a saber pela “Maranhona” que o seu filho Santos estava preso.
Foi, de imediato, falar com o carcereiro que lhe disse que o filho realmente estava preso e tinha levado dois dias de prisão assim como o Candinho Gaivota e o João Muchacho. O Toninho “Zuri-que” tinha sido multado e escapara à prisão, por sorte dele!...
Entretando, o Alfredo Muchacho, pai do João, ao saber da notícia pelo “Caravelha” deslocou-se à prisão e foi falar com o carcereiro que lhe disse :
- Posso libertar o João, tio Alfredo, umas horas antes …
Não preciso de favores, respondeu de imediato o Alfredo Mucha-cho, pois esse vadio vai cumprir os dois dias e “mais nada”…
Pela noitinha, os três “artistas” foram soltos e, envergonhados, correram pela ribeira, e só pararam na Nélia para beberem uns suminhos a “meias” mas, o que eles queriam era ver a Branquinha de Vila Cova, a esbelta criada do Manel da Nélia…
Neste período natalício, a Nélia tinha as mesas e os balcões cheios de bolos de rei e muitas outras guloseimas: uvas passas, nozes, pinhões, figos de mel, frutas cristalizadas, chocolates…
Estes três “mosqueteiros” ficaram felizes por terem visto a Bran-quinha, com o seu avental folheado e a sua touca rendilhada, mas, perante os olhares ameaçadores do Manel da Nélia, que já os conhecia como “engatatões”, pagaram a despesa e foram para as suas casas porque tinham de ir para o mar, às cinco horas da manhã e o sono atormentava-os…
"Cantinho dos lobos do Mar"
NOTA:
Isto aconteceu em 1967/68 (?)
História contada, no dia 17 de Setembro de 2014 pelo Santos Coutinho, Candido V.Boas e João Muchacho, junto à lota e Esposende pelas 11 horas da manhã.
CMLB
por Carlos Barros
Os porcos rabichos
Estávamos numa sexta-feira, numa manhã cinzenta, nos inícios dos anos sessenta, com o nevoeiro a embaciar a bela paisagem do nosso Cávado, onde os barcos e as motoras desapareciam misteriosamente, dos nossos horizontes visuais, tal era o denso nevoeiro que se fazia sentir.
As gaivotas pairavam no ar, pronunciando bom repasto esperando pelas tripas-entranhas- lavadas pelas mulheres do matadouro, junto aos “terrões” do rio..
O portão do matadouro foi aberto pelo, funcionário camarário, Zé da Vila, muito cedinho e apenas o Valdemar estava encostado ao muro, com uma corpulenta vaca que olhava impavidamente para aquele sinistro local, mal ela sabia o destino que iria ter… O senhor Miranda- “Pastor”-, na companhia do Zé Fidó, estava a chegar com uma toura e um boi muito cornudo com uma longa barbela.
Pelas oito horas da manhã, começou a entrar o gado para o abate e uma carrinha Bedford de caixa aberta, transportava alguns porcos mal cheirosos e muito ruidosos, grunhindo, quase que adivinhando o seu fim…. O Calisto de Curvos estava a chegar com a sua bicicleta, fazendo grande “chiadeira”, com um cesto atrás, para transporte das encomendas e alguma carne.
O Zé Fidó chegava a ir a pé, a Viana do Castelo, Marinhas, Palmeira de Faro, Alvarães, Curvos, Vila Cova e outras freguesias transportando gado para o matadouro, percorrendo dezenas de quilómetros, durante muitas horas, para chegar às oito horas em ponto ao Matadouro Municipal de Esposende.
Com o matadouro em “rebuliço”, durante a manhã, o gado foi sendo paulatinamente abatido pelas “choupas” do Jaime da Faustina, Álvaro Filomeno e filho, pelo Zé do Talho (Teresinhas), sangrado e de imediato esquartejado, com o Valdemar a desfazer as vacas para o Talho Catora e algumas ovelhas que, com o seu ar “angelical”, foram sendo abatidas, numa ténue luta pela vida…
Os veterinários dr. Gonçalves de Vila do Conde e, mais tarde, o dr. Moreira de Barcelos faziam a inspecção sanitária aos animais abatidos, os quais levavam um longo carimbo, em toda a carne, como garante do controlo sanitário do gado. O senhor Marquês era um dos responsáveis sanitários do matadouro e estava sempre vigilante embora, fizesse “vista grossa” a algumas situações…
O Carlinhos da Jandira estava quase sempre presente às sextas-feiras ou segundas-feiras, e sob a cumplicidade e apoio do Zé da Vila, entrava no matadouro para segurar nas pernas dos bovinos, facilitando o trabalho do Valdemar e do Jaime ou mesmo do Zé Fidó, já que o seu desejo era receber a bexiga do animal para, depois de seca, ser utilizada de “cambra de ar” nas bolas de capão do Zé Pancas que possuía várias já que era o “rei dos papeizinhos-cromos- e das senhas da bola que era a garantia da bola de couro.
Os porcos, presos num longo e negro banco, eram mortos depois do gado, queimados com colmo, esfregados com pedras pomes e lavados com água quente e sabão rosa e posteriormente desfeitos pelos talhantes: Zé Fidó, Jaime…
Aos longos dos anos, as mulheres - Ângela do Corcunda, Quinhas da Vindeirinha (mãe do Quim Tripas), R. Mujica, Maria Picá- mulher do Russo-, Laura Ministra, Carma Ceareiro, Celina do Cocho) lavavam as tripas, -para as chouriças, “solas”,…- no rio que depois eram cozidas em panelões na cozinha do matadouro com o sangue dos animais e levavam um pequeno “quinhão” para casa…
João Louceiro com a sua carroça, auxiliado pelo Zé da Vila, Marquês e Artur Pessegueiro, recolhia e distribuía a carne do Matadouro pelos talhos de Esposende, poupando combustível uma vez que a égua estava sempre em boa forma física. Não precisavam da “Galp” apenas de uns fardos e palha e água para pôr a “viatura” a rolar…
A Páscoa, o mês de Agosto e o Carnaval, eram os períodos de maior actividade do matadouro onde o consumo da carne era maior.
O Quim Tripas sempre rondou o Matadouro para as suas aventuras e muitas pessoas estranhavam a presença deste ousado esposendense por estas paragens e a afunga-fisga- andava sempre ao pescoço, com os bolsos cheios de godos , as “balas” desse tempo…
Durante muito tempo, os porcos mortos e já preparados apareciam sem rabo e o sangue desaparecia dos alguidares e este mistério permaneceu durante muito tempo.
Interrogava-se o Álvaro do Talho:
- Como é possível os meus porcos aparecerem no meu Talho sem rabo?
O Jaime e o sr. Alfredo queixavam-se do mesmo mantendo-se preocupados já que muitos clientes compravam este saboroso apêndice, todas as semanas.
O Valdemar, gaguejando, disse ao Catora que desconfiava do Quim Tripas que não largava o matadouro…
Vou ver se saio mais cedo daqui, para levar o meu Matateu (tourinho domesticado e amansado pelo Valdemar) ao pasto no campo do Pirolau, avisava o Valdemar acelerando o seu trabalho.
O Zé Manel Catora afirmava que o Quim Tripas só vinha ao matadouro para nadar e dar uns mergulhos no “carreiro do rio” e para apanhar umas solhas ao pé, para levar para casa.
O Zé da Vila que estava a ouvir a conversa, junto ao Carlinhos, com o Tone Duarte na espreita, olhou para o sr. Álvaro do Talho e numa resposta rápida, avançou com uma idéia:
Na próxima vez, vou fazer uma emboscada e apanho o vadio que corta os rabos dos chicos…
Por volta das treze horas da tarde, o Zé da Vila, estava escondido por detrás da porta do matadouro, lado poente e com o gado todo abatido esperou, esperou até que….
Rastejando, pelo poente, apareceu o Quim Tripas, de calções de ganga, já muito “roçados” com uma faca enferrujada e pouco afiada, na mão, aproximou-se do banco onde estava o porco e cortou o rabo, que ainda fumegava, pela “raíz” e lançou-se em grande correria só parando na junqueira… O Zé da Vila, presenciando, esta situação e impotente em acompanhar a vertiginosa correria do Quim Tripas, entrou no matadouro, onde os seus amigos marchantes estavam a “mudar de roupa” e a lavarem as mãos e desabafou:
- Já sei quem é o “gandulo” que tem cortado os rabos aos nossos porcos!...
Quem é, quem é, perguntaram em uníssono, os talhantes presentes….
É o Quim Tripas que nos tem “roubado” os rabos e até deixou cair um copo plástico que era para levar o sangue para beber mas, não teve tempo!
Meu Deus, só poderia ser o Quim Tripas, mas é melhor fazer isto que partir os vidros todos do nosso matadouro como já tinha feito há uns tempos, concluiu o Zé do Alfredo perante o olhar impávido do senhor Jaime e do Júlio que tinham chegado ao matadouro naquele momento.
O cão “faine” (“fine”, em inglês) um “boxer” obediente e bem domesticado pelo dono, estava impávido, junto ao seu dono, senhor Jaime, com uma faca segura nos dentes para a entregar. O “faine” fazia muitos recados e era dotado de muito expediente e fugia da “vadiagem”….
O Quim Tripas cozinhava os rabos e, muitas vezes, comia-os crus e a acompanhar, bebia um copo de sangue que lhe sabia pela vida… Mas não era o único que bebia ou comia sangue –cozido- já que muitas crianças da ribeira também o faziam porque “fazia bem” à saúde… Era uma “receita” da época” onde a medicina apresentava muitas insuficiências e não estava evoluída como nos tempos de hoje.
Naturalmente, que o Quim Tripas não regressou, tantas vezes, ao matadouro, para o assalto aos rabos dos chicos mas, longe em longe, perante a distracção dos talhantes, os porcos ficavam novamente, sem rabos e eles diziam:
O Quim Tripas passou por aqui, mas já estamos habituados, afirmavam, conformados, os talhantes perante estas incursões do incorrigível Quim Tripas. Era uma criança ousada, destemida, aventureira, esperta e pugnava apenas, pela sobrevivência através de diversos expedientes e, nesses tempos, os estômagos de muitas crianças, “davam“ horas a todo o momento porque o alimento não abundava nos seus lares.
O Matadouro de Esposende, mais tarde, acabou, por encerrar, nos meados dos anos sessenta e o Quim Tripas adiou as suas traquinices contudo, outras aventuras apareceram que agitaram e despertaram o mundo das “crianças da nossa ribeira” que sempre viveram alegres, livres, felizes e confiantes na sobrevivência.
Esposende 6 agosto de 2014
"Cantinho dos lobos do Mar”
CANTINHO DOS LOBOS DO MAR
por Carlos Barros
“Tiro aos vidros”
“Tiro aos vidros”
Esposende despertou pela manhã, com os sinos da Matriz a dar as sete horas
matinais.
Já em pleno julho, as crianças fora da
escola, gozavam as suas férias tão
desejadas para se deleitarem na ribeira com os seus varais, a sua relva
despenteada e os juncos abanando como que acenando à miudagem para os levarem
até às pocinhas do rio para se encherem
de lagostas para o repasto matinal.
Na rua Conde de Agrolongo, o Quim
Tripas-Joaquim Eiras Gonçalves- já afinava a afunga e enchia os bolsos de godos,
apanhados nos areais da praia ou nos montes de areia das casas em construção.
A Rua 31 de Janeiro, o João Papinhas-João
Adriano- fugia pela porta fora, à socapa
da mãe porque tinha combinado um encontro com o Quim Tripas, no matadouro para
estudarem mais uma das suas aventuras:
tiro aos vidros…
Os dois comparsas, observaram as janelas do
matadouro, sempre atentos ao Zé da Vila que guardava as instalações, e
começaram os preparativos, recheando os bolsos de godos e reforçaram a pelica das afungas, feitas, com
paciência por estes dois rapazinhos irreverentes, com as borrachas de “cambras
de ar” dadas pelo senhor António Fandino que apreciava muito estes dois “trutas
irreverentes”.
Ao passarem pela tardinha, na Rua Direita, pela
garagem do Fandino, estes dois aventureiros iam em corrida acelerada, olhando
para trás…
Rapazes, o que é que
vocês vão fazer com as afungas,
gritou o senhor António?
Já sei que vão para a
vadiagem seus malandros, concluiu o Fandino para o João e o Quim Tripas que corriam
como galgos, atrás das lebres…
Pela tardinha, os nossos heróis aproximaram-se
do muro do matadouro, tomando posição de disparo e o desafio era fazer um
buraquinho redondo, sem partir o vidro.
As primeiras
“afungadas” do Quim Tripas partiram logo dois vidros que se estilhaçaram no
chão.
O João Papinhas não quis ficar atrás e com
dois disparos, mais dois vidros partidos, perante o delírio do Quim Tripas que
abanava a cabeça de contentamento...
Os melros cantavam
nas árvores do campo do serralheiro, anunciando a noite que se aproximava
vertiginosamente, com o sol a dizer o “último adeus” nos limites da restinga, o
grande braço de areia que aconchega as
águas do nosso rio Cávado e do gigante Oceano Atlântico.
Seguiram-se mais disparos e passados
minutos, as janelas tinham quase todos os vidros partidos e os dois “mariolas”,
regressaram ao Largo dos Peixinhos, com a missão cumprida, para lavar as mãos no lago e descansarem um
pouco nos bancos ripados avermelhados
do jardim.
No dia seguinte, o Zé da Vila deparou-se com o
desastre no matadouro e começou as suas investigações para apanhar os
“criminosos”, falando com a vizinhança da central.
O Virgílio, “O parafuso” que estava nas redondezas do matadouro tinha
assistido às fisgadas do Quim e do João e denunciou-os à GNR e os autores da
proeza e o denunciante foram chamados ao posto, no dia seguinte, para prestarem
declarações.
O cabo da GNR olhou para o trio e perguntou
quem é que tinha partido os vidros do matadouro sob gestos ameaçador do agente Oliveira.
O Virgílio respondeu de imediato que tinha
sido os seus dois amigos e estes confessaram o crime mas, a “coisa” não ficou
por ali…
O João Papinhas disse
ao GNR que o Virgílio também tinha partido os vidros, e o Quim Tripas confirmou
a denúncia e logo aí o “caldo ficou entornado…”!
Meus amigos, para não apanharem umas
vergastadas, os vossos pais irão pagar os estragos e vão ser informados disto.
O Virgílio ao sair do posto, sacudiu os calções de ganga cheios de serrim, perante
o olhar ameaçador do João Papinhas e do Quim Tripas, e saiu furioso em direção
a casa, dando a conhecer ao pai do acontecimento.
O Virgílio, de recompensa, ainda levou umas
“lostras” do pai que não acreditou na inocência do filho e de castigo foi para
a carpintaria ajudar o pai e o Carlos Gaspar que estava fazer umas cadeiras de cozinha.
O Quim Tripas, olhou para o João Papinhas e
disse-lhe:
Por ele nos ter denunciado, o “Parafuso” pagou as “favas ao dono” e isto
não vai ficar por aqui…
Os
vidros foram colocados e pagos, com sacrifício, pela mãe do Papinhas,
Amélia contudo a mãe do Quim Tripas não tinha ”posses” para pagar as
despesas e, como castigo, o Tripas passou
alguns dias a engraxar os “ plainitos” dos GNRs .O pai do Virgílio colocou os vidros todos nas
janelas, do matadouro que ficou com
melhor apresentação embora, não por muito tempo porque estes
aventureiros mais cedo ou mais tarde, iriam fazer novos tiros ao alvo…
O Quim Tripas, no dia seguinte, partiu para
novas aventuras e deslocou-se para a junqueira para apanhar cobras de água para
as vender na Farmácia Monteiro por cinco
croas cada uma, e logo a pronto pagamento…
Com os agradecimentos
da Bertinha e do senhor Monteiro, sempre simpáticos e solidários, ao Quim
Tripas, pela caçada dos ofídios, estes foram colocados em frascos para
“experiências” e como “mesinhas”, contra o reumatismo e outras maleitas
físicas..
O Quim Tripas deu algum desse dinheirinho à
sua mãe e irmãs para reforço dos almoços e jantares já que os tempos eram de
“míngua”…
Com uns trocos, o Quim Tripas, sempre
descalço, foi à Havaneza comer uma sande e um galão, sendo servido, pelo sempre
desconfiado senhor Franquelim designado pela rapaziada da ribeira por
“calcinhas”…
O Quim Tripas teve um lanche de “rico” e
depois do repasto, pegou numa cobra que tinha numa caixa de fósforos e soltou-a
e alguns clientes começaram a fugir do café, derrubando algumas cadeiras e desviando as pesadas mesas da Havaneza,
perante o desespero do senhor Franquelim que
se refugiou dentro do balcão.
O senhor Zé Praia, com os seus graduados
óculos, que estava a jogar às Damas com o senhor Carvalho, relojoeiro, nem se
mexeu do lugar, tal era a concentração ao jogo.
O Quim Tripas pegou na cobra que serpenteava
pelo chão do café, meteu-a na caixa de amorfos “Quinas” e saiu em grande
correria pela porta fora porque temia que uma vassoura voasse em sua direção!
Estava
consumada mais uma das aventuras do Quim
Tripas, menino traquina, simpático, aventureiro, irreverente, ágil como um
leopardo, corajoso como um felino, e que conseguia sobreviver nesses tempos muito difíceis. Em Esposende,
proliferavam famílias muito carenciadas, onde a “fome” batia à maioria das
famílias esposendenses.
Muitas crianças só usavam sapatos aos
domingos e nos resto da semana, andavam descalços calcorreando ruas poeirentas
e empedradas e caminhos de terra batida.
O nosso Quim Tripas tinha o “seu Mundo de
Aventuras”, fazendo relembrar os livrinhos
que se vendiam na Primorosa e que tinham esse mesmo nome: MUNDO DE
AVENTURAS.
O seu preço era de dois escudos mas, a
criançada limitava-se a olhar para eles, colocados naquela montra da Primorosa
mas, os dois escudos eram melhor empregues
na compra de uma sêmea na Padaria beirão e de um naco de marmelada
comprada na Nazaré e no António do Sul
ou mesmo um pirolito ou laranjada “Canada Dry” que se vendiam na Lucas.
O Quim Tripas era mesmo assim, um menino,
agora distinto e respeitável homem, irreverente e sagaz, um lutador pela
aventura e que o “Pescador
de histórias” se orgulha em
recordar.
Uma
viagem atribulada…
A motora Filomena Antonieta,
foi a primeira motora que veio para Esposende, no ano de mil novecentos e
sessenta e dois, com uma tripulação de pescadores muito trabalhadores,
divertidos e “vinhaça” que se aproximasse deles, era “vinho evaporado”, num
abrir e fechar de olhos…
O João Careca era o mestre da
Filomena Antonieta, pescador experimentado e muito sereno, sendo a tripulação
constituída pelos esposendenses, Quico da Inocência, irmão do João Careca, Morrossol,
com a sua gravata garrida e elástica, o Tone Pirata, Anselmo Saganito, A.
Guimarães, Alfredo Muchacho, e o grande “ilusionista” Milo, também alcunhado de
“Rosas”, antigo guarda-redes do Leixões.
A Filomena Antonieta,
com os seus treze metros de comprimento era palco de muito trabalho e de
diversões com o Alfredo Muchacho, sempre a comandar as “tropas” com o seu
excelente espírito de humor e de oportunas malandrices.
Era habitual, durante o ano, separar “meia parte” do pescado da
motora, para custear as despesas para alguns passeios a Lisboa-Mafra-Nazaré…- e
a outros locais ,(volta ao Minho…) para que a “companha” se
distraísse um pouco, fazendo descansar o corpo e espírito, “corroído”
pelas longas e cansativas saídas para o mar.
No dia vinte e dois de
outubro, de mil novecentos e sessenta e sete, o João Careca organizou um
passeio a Lisboa, com passagem por Mafra e Nazaré. Após umas passeatas pelos
cafés/tascas no campo das cebolas , foram todos pernoitar à Pensão Varandas ,
curtir um pouco das “copaças” com uns tremoços e amendoins, de sabor bolorento,
a acompanhar…
O Morrossol, sempre aperaltado, tinha pedido, ao João Careca, no primeiro
dia na capital, se o autorizava a ir ter com uma tia e prima na baixa lisboeta
e o mestre, começou a esfregar a boina desconfiado mas, lá lhe deu autorização
desde que, no outro dia, estivesse junto à Pensão Varandas para a viagem de
regresso.
O Tone Pirata acenava para o senhor João para não o deixá ir porque nunca
mais regressaria, lembrando-se das “partidas”-aventuras- anteriores do
Morrossol.
O Tio Alfredo, com ar
tristonho, sentado num muro, junto à Pensão, desabafou:
- Adeus amigo Morrossol, nunca mais
te vejo!...Vai “alma perdida”….
No dia seguinte, quando os “turistas” iam partir de Lisboa, lá estava o
Morrossol, com dois grandes embrulhos, com frascos de perfumes e
roupa branquinha, mesmo a seu gosto …
O Tio
Alfredo, não resistiu, abeirou-se do seu amigo e começou a vasculhar os sacos,
procurando alguma garrafinha de tinto ou uma cerveja perdida mas,
infelizmente, nada disso existia, perante o desespero do Tone Pirata e do Tio
Aníbal Mó que tinham a garganta seca!
Já
em viagem de regresso, a velha e ferrugenta carrinha do Aníbal Mó, sócio da Motora
Maria Antonieta, que transportava estes pescadores de Esposende, numa curva
teve um pequeno despiste e avariou-se e gerou-se algum pânico entre
os “turistas”.
O
Milo foi projectado pela porta fora e caiu desamparado, com uma lata de óleo,
rasgando as calças, caindo num valado, cheio de urtigas. Esteve a
coçar-se durante muito tempo, com comichão, com o Tio Alfredo Muchacho a
rir-se perdidamente. O Milo, assustado, estava vermelho de tanto se
esfregar.
O Morrossol, dentro da carrinha, gritou:
- Irmãos estamos perdidos, vamos a
pé para Esposende por causa desta carripana maldita!
Todos
saíram da carrinha, e o Anselmo, com o susto que apanhou, cada vez
gaguejava mais, apesar do apoio do Tone Pirata que só pedia para pararem na
próxima tasca para beber uns valentes “ganázios”- malguinhas- de
vinho.
O Alfredo Muchacho, sempre na borga, pôs-se
ao volante, sem saber conduzir e destravou a carripana que começou a deslizar e
só parou junto a um muro, coberto de musgo e trepadeiras, que
amorteceu o choque.
Entretanto, a porta da
carrinha, que estava segura com cordas e arames, soltou-se e foi projectada,
deslizando sobre um extenso relvado, junto a um barracão de tijolo que se
encontrava abandonado apenas, dois gatos vadios saltavam entre ervas
verdejantes e dois tijolos abandonados...
O Milo que não bebia bebidas alcoólicas e
gritava a “sete foles”:
-Quero um pirolito, estou com uma
secura!
Entretanto a carrinha, com O Aníbal
Mó ao volante, já bem entornado, começou a trabalhar e logo a companha
enfiou-se dentro da viatura a caminho da Nazaré .
O Morrossol, de sapato branco,
gravata de elástico e casaco de xadrez, desviava-se do Alfredo Muchacho porque
este estava sempre a puxar pela gravata, esticando-a e largando-a, aleijando o
“caroço” ao infortunado Morrossol.
O Quico desesperado, olhava para o irmão João Careca e perguntava-lhe o que
iria fazer a estes “bebedolas” e, com a sua calma, o mestre olhou para ele e
disse-lhe:
- Vamos já para Esposende, e vamos
deixá-los na ribeira porque estou farto de aturar esta cambada, lamentava o
João Careca.
A carrinha em velocidade de cruzeiro, chegou a Esposende pela já madrugada, e parou
na ribeira, junto ao posto da Alfândega, com a intenção de os deixar lá, mas,
todos estavam despertos e saíram da viatura, cambaleando, em direcção às suas
casas onde as mulheres os esperavam com o caldo de farinha à mesa e uma
postinha de raia ou bacalhau frito.
Foi um passeio atribulado
mas, muito animado apesar das peripécias que tinham acontecido num passeio que
jamais poderia ser calmo porque o Tio Alfredo Muchacho, agitava aqueles jovens
e alegres pescadores que, apesar das brincadeiras, palhaçadas e maroteiras,
eram sempre amigos e bastante unidos na amizade e no trabalho.
“Pescador de histórias”
“O Toninho pedinchão”
O Toninho
“Anão” (António José Barros Neto) percorria, numa fase inicial, Esposende
lés-a-lés, passando a “pente fino”, todos os cafés das redondezas como a Havaneza,
Nélia e Primorosa e alguns tascos onde apareciam os “lavradores ricos” das
aldeias. O Toninho sempre na sua missão de peditório, ia pedindo a esmolinha da
ordem, com uma “carinha de meter dó” para melhor convencer os incautos.
O Toninho metia-se
nas camionetas da “Viúva”- Auto da Viação do Minho, Ldª- ou do Linhares-
Caetano Cascão Linhares- e pedia dinheiro aos passageiros ou dirigia-se para os
locais mais “lucrativos”, onde era pouco conhecido, como em Viana do Castelo e
Barcelos, aqui às quintas-feiras, dias de feira. Chegou-se a aventurar-se em
incursões a Braga mas, esta cidade era muito confusa para o nosso amigo
Toninho, como uma vez me confessou.
Um dia, ele
estava na mercearia/armazém e tasca do Abílio Coutinho, bebendo uma malguinha
muito à pressa, não vá o Carlinhos aparecer, que sempre lhe negava o vinho, e
meteu-se à socapa, dentro da Camioneta da “Viúva” que acabara de chegar para
entregar as encomendas no Coutinho, que era o local de recepção das mesmas. O
Lourenço com as suas “lunetas” já carcomidas pelo tempo, era o principal
distribuidor dessas encomendas: Farmácias Monteiro e Gomes…
Durante a
viagem para Viana do Castelo, o Toninho, que era muito pequenino, meteu-se
debaixo de um banco e permaneceu escondido durante toda o percurso, sob a cumplicidade
de alguns passageiros que o protegeram, já que o conheciam bem, doutras
“aventuras peditórias”.
A camioneta mal
chegou a Viana do Castelo, o Toninho saiu “disparado” do banco e foi em
direcção à marginal da cidade para percorrer os cafés no seu “afã” de
pedincha, visitando as “capelas do Loureiro”- tascas- que lhe iam
aparecendo pela frente.
No campo da feira,
entrou numa taberna e, com os bolsos recheados, mandou vir umas iscas de
bacalhau frito, dois trigos e a habitual tigela de vinho tinto carrascão, que
lhe soube pela vida. Naturalmente, não foi apenas uma tigela de vinho, outras
se lhe seguiram…
O Toninho dirigiu-se
pacatamente e a deambular, para o escritório das camionetas da “Viúva” e, com
tanto azar, perdeu-a e não havia mais nenhum autocarro para Esposende, perante
o desespero do Toninho que esbracejava e protestava contra tudo e contra
todos….
Bem, só tenho
uma solução, murmurava o nosso amigo para os seus “botões”!... O Toninho foi para
o cais de Viana para arranjar boleia numa motora de Esposende e, por mero
acaso, o Tio David estava a chegar do mar, com a sua Cláudia Cristina, motora
de quatro cilindros com um potente motor dinamarquês “Buick”, com a matrícula “ES 86 C”. O senhor David, olhou para o
paredão e disse para os seus tripulantes:
-Olha quem
está ali, é o Toninho Anão! Já deve estar “com os copos”….
Toninho, o que
queres, perguntou o mestre David, ao nosso “artista”, perante os olhares do
Milinho e do Tone Fifas.
Quero boleia
para Esposende senhor David, pediu o Toninho choramingando…
O mestre olhou
para a tripulação e meditou, numa rápida
reflexão.
É uma grande
responsabilidade levar o Toninho naquele estado e se cai ao mar, estamos
perdidos, confessou o senhor David para os seus tripulantes ….O Alfredo
Morrossol levantou o braço e disse:
Eu não quero
problemas porque o Anão não é de confiar….
O Tião
Saganito, o Agostinho e o Milo acenaram para o senhor David para deixar entrar
o Toninho para a motora.
Vamos
arriscar, disse o Milo, ameaçando o Toninho com uns “caroques”….
Toninho, entra
mas vais amarrado ao alador para não caires ao mar porque a mar está “alto” e
não quero arriscar, disse o mestre David
ao Toninho que cambaleava no convés, amarrado à casa do leme…
Ó Milo, guarda-me
estas moedas porque tenho o bolso roto, pediu o Toninho ao seu amigo! O mestre
David que estava junto a uma caixa de lagostas e lavagantes, olhou de lado para
o Toninho e disse-lhe:
Seu malandro,
nem em mim confias precisavas é que te pusesse ao mar!
Passadas umas
horas, depois de descarregado o peixe para a lota, a motora partiu com toda a
sua tripulação para Esposende e durante a viagem o Toninho dormiu
profundamente, nem a agitação forte das ondas, o acordava.
A motora Claúdia
Cristina “aportou” junto ao Salva-vidas, onde estavam os irmãos Miquelinos a
conversar sobre o jogo Norte-Sul em que os Sulistas , tinha vencido por quatro
bolas a uma em que o árbitro “Touca Branca” fez uma arbitragem polémica, como foi sempre do seu timbre….
O Toninho foi
desapertado das cordas do alador pelo Alfredo Morrossol e levado ao colo pelo
Tone Fifas, para o cais e o Milo entregou-lhe todo o dinheiro do peditório do
dia.
Quando menos
se fazia esperar, o Toninho começou a injuriar o senhor David e toda a
tripulação, afirmando que lhe tinham roubado o dinheiro, numa gritaria que
ecoou ao longo da Ribeira até à Alfandega Marítima de Esposende, onde se
encontravam o senhor Torres e o Lima, duas autoridades marítimas, -guardas- a conversarem à porta da Delegação, sobre os negócios da Teresa do Castelo que nesse dia, tinha
comprado muitos quilos de lavagantes e lagostas que foram pesados na loja do
Abílio Coutinho pelo Carlinhos que recebeu, como oferta, um pequeno lavagante,
que mais tarde, foi cozido pela Tia Alice
na máquina a petróleo e comido à mesa pelo Carlinhos e o “cheiro” ficou
para os tios…. O tamanho do marisco não dava para mais!
A Teresa do
Castelo, com o seu poderoso porte atlético, e com as suas pulseiras e cordões
de oiro a ornamentar os seus pulsos e pescoço, agradeceu à tia Alice e ao
Carlinhos pela pesagem e na sua carrinha, com o marido a conduzir, foi em direcção
a Viana do Castelo para deixar o marisco aos seus clientes.
No cais
pairava a confusão com a gritaria do Toninho que não parava de protestar, chegando
mesmo a pegar em “pilado” que estava num monte, junto ao paredão, atirando-o
para dentro da motora.
Seu vadio, seu
corrécio, para a próxima vez, anda-me pedir boleia que vais ver, ameaçou o
mestre David ao Toninho que foi
abandonando a ribeira, fazendo-lhe caretas provocadoras.
O Toninho
regressou, com sacrifício, à sua modesta residência, no bairro das Casas de S.
Vicente de Paulo e mal entrou em casa, pelo quintal, em passada “sorrateira”, guardou
o dinheiro debaixo do colchão de colmo, num dos quartos de dormir “colectivos” e
“caiu como um tordo”, ficando a dormir “até às tantas”…..
No dia
seguinte, o Toninho “Anão” já estava em forma e pelas onze da manhã, entrou na
Nélia e começou a pedir cinco croas ao Dr. Francisco Marques que estava a
engraxar os sapatos no senhor Guimarães, e a outros clientes de Barcelos e de
Braga mas, teve que acelerar porque o senhor João Tamanqueiro, empregado de
mesa, tinha-o detectado e a única
solução era a fuga para poupar as orelhas….
O Oliveira e o
Benjamim “Come croas”, empregados da Nélia, estavam a servir noutra zona do
café e não ameaçavam perigo para o Toninho. O Adriano, filho do senhor Adelino
das camionetes do Linhares, no Snack-Bar, chamou pelo Toninho, deu-lhe dois rissóis
de camarão e de bacalhau do dia anterior, na condição do Toninho sair dalí,
porque parecia mal pedir…
Com os rissóis
na mão o Toninho desapareceu e foi “atacar” na Havaneza mas, o Jerónimo não lhe
deu hipóteses e só lhe restou “imigrar” para uma nova viagem, agora para
Barcelos, sempre clandestinamente, sem pagar bilhete porque o Toninho tinha
sempre dinheiro, mas quando era preciso pagar algo, ele “nunca tinha dinheiro”.
Precisamente
no dia doze de maio de mil novecentos e oitenta e cinco, numa tarde trágica, o
nosso amigo caiu de uma “marquise”, no Bairro de Sucupira e “deixou-nos” para
sempre um acontecimento que entristeceu todos os esposendenses e a família em
particular. Todos nós reconhecemos que o Toninho fazia muita falta aos
Esposendenses porque era uma pessoa especial e “castiça” e pessoalmente, nunca aquele rapazinho, foi
mal educado para o “BÓIAS”, e eu que tive muitos e muitos contactos com este
amiguinho no café, no armazém-mercearia-tasco do meu Tio Abílio Curvão ou mesmo
em plena via pública!
Uma coisa é
certa: nunca lhe servi uma malga de vinho ao Toninho, apesar de me pedir muitas
vezes! Fui sempre seu defensor pelas boas causas e cheguei mesmo a dar-lhe
algumas explicações, quando estava na Escola Primária, tentando que ele regressasse
aos estudos mas, perdi e fui derrotado pela teimosia do Toninho porque a Escola
para ele, não era vida…
Carlos Barros
“A secura do Geno…”
O Manuel António Sousa Cruz,
mais conhecido pelo Taxi, batizado pelo ilustre Zé Feliz, nas suas vivências na
ribeira, no “estádio da Faustina” foi um jogador especial, tendo jogado no ESC, Marinhas, Vila Chã , Fão
e no Norte-Sul . A sua velocidade
ultrapassava a da bola, chegando mesmo, a desaparecer do campo, num jogo com o
Ronfe porque ficou “mergulhado” numa valeta, sendo pescado pelos calções pelos
colegas, depois do jogo ter sido interrompido pelo árbitro, que ficou espantado
pelo desaparecimento inesperado do craque Taxi.
Atualmente o nosso amigo Nelinho
pertence ao “Danças e Cantares das Marinhas”, tendo-se deslocado, em digressão
artística, cinco vezes à França e a vários pontos do País, chegando a atuar com
o seu grupo de Folclore, no Algarve.
Para além de jogador de futebol,
o Taxi foi pescador, com cédula Marítima, passada pelo tenente Tavares e pelo
Arlindo da Delegação Marítima de Esposende, tendo feito uma prova e mergulho e
natação, sendo aprovado sem entrar no rio, apenas molhando a cabeça, tendo
convencido as autoridades marítimas da época. O Taxi era um estratega peculiar
e na ribeira, nos jogos de futebol Norte-Sul, onde se jogava a cinco croas, o
nosso “mestre” armava confusão e ficava com o dinheiro ou escondia-o no capão
da bola de futebol do Zé Pancas.
O Taxi, como no futebol, era “ave” de
arribação e, como pescador, passou por
várias motoras: Cruzeiro do Norte-João Paquete-, Torrão-Berta Bicheza-, Mar
obedece a Jesus –Quico da Inocência- e 1º de Abril – Zé Bebado-,”Senhora do
Triunfo- Marco Filipe-motora Nova do Zé
Bêbado-, Pérola de Esposende- “Rabo do Chico”-, Senhora da Saúde-Manuel Reis-,
Pai Tirano-Tio Armando- e Galo Negro-Tone Galo-.
O Taxi esteve, como pescador, em
Sagres, Sines. S. M. Porto, Arrifana, Vila Nova de Mil Fontes, Viana do Castelo
e, naturalmente, em Esposende, conhecendo meio mundo e fez rir muita gente, com
o seu “singular sotaque”.
O Geno fez parte da tripulação do
Taxi e, numa bela tarde, com o sol a apertar, pelas quinze e trinta da tarde, a
secura invadiu os tripulantes da motora e não havia cerveja ou garrafões a
bordo da embarcação porque rapidamente desapareciam com tantos discípulos do
Baco, deus do vinho, existentes na motora.
Atita, ainda te lembras quando andavas na motora do Zé Bêbado e, ao alar os “tróis”, com um grande congro preso, pegaste no bicheiro e fisgaste a madeira da borda da motora, perguntou o Taxi ?
Atita, ainda te lembras quando andavas na motora do Zé Bêbado e, ao alar os “tróis”, com um grande congro preso, pegaste no bicheiro e fisgaste a madeira da borda da motora, perguntou o Taxi ?
Lembro-me, lembro-me bem, tu
precisavas era de uns valentes cachaços nesse lombo ameaçou o Atita que não
gostou nada da conversa.
Entretando na motora, ouviu-se
uma voz, de aflição:
Estou com a garganta seca, gritava, com rouquidão,
o Geno para os seus amigos, pedindo vinhaça…
O Taxi, tinha uma garrafa de
cerveja cristal, no porão e foi buscá-la para
matar a secura ao velho e amigo Geno que continuava a pedir
copaça.
Geno, meu irmão, tenho aqui uma
garrafa de cerveja que o meu irmão Pexixola me deu, disse o Taxi todo
solidário.
O Geno mal pegou na garrafa de
cerveja, meteu-a à boca e começou a gritar:
- Eu morro, eu morro, estou a arder por dentro, socorro,
socorro!...
O Taxi pensava que era falta de
oxigénio e pegou no extintor e despejou-o na cara do infortunado Geno, para
agravar ainda mais, a situação do “desgraçado”…
O Geno, então é que começou a
aumentar, em refrão, a gritaria, numa explosão de aflição.
O mestre da motora ao ouvir a
gritaria, saiu da cabine, escorregou nos langanhos das raia no convés, contudo conseguiu segurar-se e
deparou-se com o Geno quase desmaiado, espumando-se
pelos cantos da boca.
Taxi, o que deste a beber ao
Geno, perguntou o mestre da motora ao Taxi.
Dei “ceveja” comprada no tasco do tio Feliz, que
o meu irmão Pexixola me deu, e pus “ogénio” na boca dele, respondeu convictamente
e nervosamente o Taxi.
Desgraçado, vou-te matar tu deste ao homem
petróleo que estava na garrafa, no porão que era para pôr nas lanternas…
O quê, dei “pitólio” ao Geno, questionou
o Taxi tremendo por alguma bordoada que cairia no “lombo”…
O mestre da motora atracou a motora ao
cais e o Geno, fervendo a “muitos graus” e trasando a petróleo, e com a cara
toda branca da espuma do extintor, foi
transportado pelos colegas para o hospital de Viana do Castelo onde ficou internado
durante algumas horas, tendo alta no dia seguinte.
O Taxi andou fugido por umas horas da
tripulação da motora mas, depressa regressou porque tinha uma saída para o mar,
onde iriam largar redes ao camarão e a calma regressou ao barco que continuava
a cheirar a petróleo e, graças a uma nortada de sudeste que se levantou, o
cheiro foi varrido e a “ecologia” pairou na motora.
“Os irões da junqueira”
O Paulo Fá, ainda
criança, com os seus nove anos, comandou uma equipa de “marmanjos” para apanharem
irões, perto do matadouro e da junqueira. Estavam grossos, confessou ele aos
seus amigos.
Era preciso dinheiro
para comprar sêmea, “trigos”, e umas croas para se jogar futebol na ribeira a dinheiro e
um saco de irões, vendidos às peixeiras era oportunidade a não desperdiçar.
Pegaram em “varapaus”
e lá foi a criançada, comandada pelo Paulo do Fá para o rio e começaram, a
apanhar irões e, passado pouco tempo, a saca estava cheia, com as enguias a rabiarem
dentro da sacola.
O “maralhal”, todo
entusiasmado, lá foi vender as “enguias” a casa da tia Inocência.
Todos contentes, estas crianças que tinham
fugido à escola, nessa bela tarde de Verão, bateram à porta da peixeira, todos
sorridentes pela boa “safra” piscatória.
Entrem meninos, disse a tia Inocência, ponham
aqui os irões no chão-soalho carunchoso- para serem contados que eu dou-vos
cinco croas, uma pequena “fortuna “ para essa época, ano de mil novecentos e sessenta
e um.
Os irões foram
lançados sobre o soalho, para serem contabilizados mas, começaram o “bufar” e a peixeira gritou,
saltando aflita:
-Desgraçados, vocês apanharam mas foram cobras, respondeu a
mulher assustada.
Entretanto, a casa encheu-se de cobras por
todo o lado e até subiram para a cama do quarto do Zé, filho da peixeira.
Estava o caos semeado naquela modesta casa e
a rapaziada começou a fugir pela porta fora e só pararam na ribeira, deixando o
saco dos irões para trás.
A tia Inocência, com ajuda dos filhos,
conseguiu, com paus e uma vassoura, expulsar e matar a maioria das cobras outras
porém, conseguiram fugir para o quintal do “Zé Tolo”,( filho do Albano Laca) e
do Abílio Coutinho, para o meio do seu
tomatal.
O Paulo Fá olhou para o Manel e Tonó e
desabafou:
- Tão cedo não quero ir aos irões porque aqueles bufavam como
cobras!...
História contada
pelo Paulo do Fá, no dia 21 de janeiro
de 2013-01-21
junto à lota-Sul- de
Esposende, na presença do José Manuel e esposa Adelaide, Manel Nibra e
Ainho.
Carlos Barros
21/1/2013
Os dois esfomeados...
A motora “Mar obedece a Jesus”, com a sua tripulação- Rogério, Tone Passarinho, Agostinho, Tone Paquete, “Arrebita” e Quico - o mestre da motora- encontrava-se em Sagres, no ano de mil novecentos e oitenta e seis, na sua faina piscatória.
Uns jovens ingleses, dois rapazes e uma rapariga, encontravam-se a passear numa avenida, quando reconheceram os pescadores de Esposende, sempre barulhentos, que tinham ido beber umas “taças” na taberna, e abeiraram-se deles:
- Amigos, gostávamos de ir ao mar, podemos ir?
-O Tinocas prontificou-se a pedir ao Quico, que estava ao seu lado, se poderia levar os banhistas , que estavam numa colónia de férias , ao mar.
-O Quico, sempre disponível, acedeu ao seu pedido, combinando com os jovens estrangeiros, a hora da partida, para o dia seguinte.
A motora partiu pelas cinco horas da manhã, com os jovens no convés, descontraídos junto à casa do leme, onde o Quico, com a sua experiência e saber, tripulava a motora em direcção ao mar, para alar as redes. Os tripulantes conversavam com o “Arrebita” que dava recomendações aos jovens para não enjoarem. Percorridas umas milhas, o trio inglês já estavam com ar de enjoados mas, sempre sorridentes.
Chegados ao local, em pleno mar, os pescadores começaram a alar as redes, com o Pezinho mais a observar que a trabalhar…Após umas horas de “alanço” a motora encheu-se de tamboris, lagostas, peixes-galos, salmonetes , sargos, douradas e de outras variedades de peixes.
Meu Deus, tanto tamboril, gritava o Agostinho para o Tone Paquete, que era o cozinheiro no mar, enquanto que o Agostinho, era mestre de “culinária” mas, em terra.
O Tone Paquete olhou para o Quico, mestre sempre atento às agruras do mar, decidiu que o almoço seria arroz de tamboril para toda a “companha” e o Arrebita e o Tone Passarinho, esfregaram logo as mãos de contentes porque era o prato favorito deles.… O Tone pegou em três grandes tamboris, levou-os para a improvisada cozinha no convés, preparou-os e fez uma “arrozada” de tamboril cujo cheiro se espalhou pela motora, perante a alegria dos pescadores, já que a “barriga batia horas”…
O Rogério Chana, olhou para o Paquete e disse-lhe:
Tone, estes “estranjas” vão comer connosco?
Claro que sim, respondeu prontamente o Tone, que mexia o arroz que ia dançando ao ritmo das ondulações do mar.
Os ingleses foram servidos com o saboroso prato e começaram a comer, deliciando-se com o saboroso arroz.
Tone, eles vão comer mais arroz? Olha que eu e o Pezinho ainda não comemos, alertou o Rogério!...
Não faz mal que eles não comem mais mas, é melhor perguntares outra vez, respondeu o Tone Paquete.
Ò juventude “tanque iu” (Thank you) querem mais um prato perguntou o Chana!
Yes, more, more… !
Tone, “Yes” é sim , em português?
Seu “morcão” não sabes que é, respondeu o Tone ao Rogério…
Os jovens comeram mais uma pratada de arroz de tamboril, perante o desespero do Pezinho e do Chana que estavam a ver o “fundo da panela”….
E agora o que vamos comer Tone, pois estes “desgraçados” comeram-nos o arroz todo?
O Arrebita com a barriga cheia, já dormia na proa, ressonando ! Até as gaivotas, que estavam a comer tripas de tamboril, se assustaram…
O Tone Paquete, com a panela vazia, atirou-a pelo convés que deslizou até à proa, quase atingindo o Arrebita que continuava a dormir profundamente.
O Quico perante tanta confusão e desespero dos “esfomeados” olhou, da casa do leme, para os dois amigos que continuavam a resmungar e disse-lhes:
Pezinho e Rogério, em terra vamos comer ao restaurante porque os ingleses pagam…
O Tone Passarinho, o Agostinho, o “Arrebita” olharam uns para os outros e nem queriam acreditar! Vão para o restaurante encher o “bandulho” e nós aqui, lastimaram todos eles!...
O Quico apressadamente, saiu da motora “Mar obedece a Jesus” olhou para a tripulação e disse-lhe:
“Gude vai” - Good bye- amigos, acenou o Quico com o seu boné e fiquem a fazer a digestão do tamboril…
“Pescador de histórias”
Alguns jovens, com os seus quinze aninhos de idade, numa friorenta tarde de dezembro de mil novecentos e sessenta e oito, época natalícia, filhos legítimos da ribeira,- Toninho “Zurique”, Santos, Candinho e João Muchacho- estavam a jogar futebol, no caminho que separava as casas do Bairro de S. Vicente de Paulo, em plena rua de S. João.
No calor do jogo, o Ribeirinho acidentalmente, mandou uma bolada ao neto do Li e, depois de muito alvoroço, o Li -Alfredo Barros Lima, pescador mestre da motora Daniel José-apresentou queixa no posto da GNR de Esposende, tendo o processo seguido para o Tribunal já que o Li, teimosamente, não perdoou ao Ribeirinho, que se tinha “desfeito em mil desculpas”.
Os três amigos, afirmaram, no Tribunal de Esposende, que não tinham visto nada, contudo o “Caravelha”, como testemunha, tinha dito em tribunal que eles tinham visto tudo e que estavam a mentir…
Já dentro do tribunal, o Candinho começou a espreitar por uma “frincha” da porta da sala de audiências e, por mero azar, foi visto pelo “Garcia velho” que ficou possesso e furioso, e de dedo em riste, virou-se para o Candinho disse-lhe, num tom de voz ameaçador:
Ó seu vadio, vais para o xadrez e não vai demorar muito tempo…
O Candinho, descalço, tremia “como varas verdes” pois, possuía “cadastro” uma vez que , já tinha sido preso, por ser apanhado, a pescar à lampreia, num dia da estacada e, como castigo, foi condenado a “serviço comunitário” sendo obrigado a limpar o rio Cávado onde se amontoava o entucho das cheias. Claro que, o Candinho, não aceitou o castigo e foi parar à cadeia tendo afirmado que estava melhor preso que a trabalhar para o “tenente”…
O Adão, escrivão do tribunal, ia registando, na sua velha máquina de escrever “Olímpia”, todos os pormenores da ocorrência, organi-zando o processo para o veredicto final.
Depois da audição final, a mandato do juíz, os três ribeirenses fo-ram conduzidos, pelo sr. António carcereiro, para a prisão, por te-rem mentido.
Estiveram presos durante dois dias e duas noites e na friorenta cela, o Muchacho começou a chorar, dizendo que não queria morrer!
O Santos, passava o tempo a cantar o fado para se distrair e a Laura do Roto, que tinha uma loja perto da cadeia, foi fazer queixa ao carcereiro, senhor António, pai do Manel Maria da Ritinha Padeira porque não conseguia dormir com tanta barulheira. O trio foi avisado pelo senhor António mas, a irreverência era “fogo que não se apagava” com facilidade…
O Santos, continuou a cantar o fado mais baixinho e parecia um pintassilgo a cantar e a “dobrar”, ajudado pelo Muchacho! Este amigo desesperado, certo dia, pegou numa vassoura e queria “matar” o carcereiro porém, o Santos tirou-a das mãos para não agravar a situação penal... O João Muchacho ia resmungando para as paredes da cela e passava o dia a dormir, curtindo as mágoas…
O Candinho que se encontrava deitado no colchão “pulguento” da cela propôs aos amigos, para que no dia trinta e um fossem pôr o “Ano Velho Fora” pois, tinha uma carrela, uma japona do pai e um “sueste” do tio Geno.
O Santos olhou de soslaio para o amigo e respondeu-lhe pronta-mente:
O que quero é sair desta “cela velha” e o meu pai, quando chegar a casa, vai-me mas é “chegar a roupa ao pelo” e lá se vai o “Ano Velho Fora”…
O Pai do Santos, senhor Delfino, junto à lareira de casa, estava à espera do seu filho, para ir ao mar na Motora, e começou a ficar preocupado com a sua longa ausência. A senhora Maria Fifas, mãe do Santos, sentada num carunchoso banco, rezava pela sorte do filhinho que já lhe tinha pregado muitas partidas e precisava dele para apanhar isca porque tinha uns banhistas, seus clientes, que vinham aos sábados buscar as suas doses de isca para pescarem no cais “bilhano” onde as “pintas” estavam a “monte”...
Passadas umas horas, veio a saber pela “Maranhona” que o seu filho Santos estava preso.
Foi, de imediato, falar com o carcereiro que lhe disse que o filho realmente estava preso e tinha levado dois dias de prisão assim como o Candinho Gaivota e o João Muchacho. O Toninho “Zuri-que” tinha sido multado e escapara à prisão, por sorte dele!...
Entretando, o Alfredo Muchacho, pai do João, ao saber da notícia pelo “Caravelha” deslocou-se à prisão e foi falar com o carcereiro que lhe disse :
- Posso libertar o João, tio Alfredo, umas horas antes …
Não preciso de favores, respondeu de imediato o Alfredo Mucha-cho, pois esse vadio vai cumprir os dois dias e “mais nada”…
Pela noitinha, os três “artistas” foram soltos e, envergonhados, correram pela ribeira, e só pararam na Nélia para beberem uns suminhos a “meias” mas, o que eles queriam era ver a Branquinha de Vila Cova, a esbelta criada do Manel da Nélia…
Neste período natalício, a Nélia tinha as mesas e os balcões cheios de bolos de rei e muitas outras guloseimas: uvas passas, nozes, pinhões, figos de mel, frutas cristalizadas, chocolates…
Estes três “mosqueteiros” ficaram felizes por terem visto a Bran-quinha, com o seu avental folheado e a sua touca rendilhada, mas, perante os olhares ameaçadores do Manel da Nélia, que já os conhecia como “engatatões”, pagaram a despesa e foram para as suas casas porque tinham de ir para o mar, às cinco horas da manhã e o sono atormentava-os…
"Cantinho dos lobos do Mar"
NOTA:
Isto aconteceu em 1967/68 (?)
História contada, no dia 17 de Setembro de 2014 pelo Santos Coutinho, Candido V.Boas e João Muchacho, junto à lota e Esposende pelas 11 horas da manhã.
CMLB
Os porcos rabichos
Estávamos numa sexta-feira, numa manhã cinzenta, nos inícios dos anos sessenta, com o nevoeiro a embaciar a bela paisagem do nosso Cávado, onde os barcos e as motoras desapareciam misteriosamente, dos nossos horizontes visuais, tal era o denso nevoeiro que se fazia sentir.
O portão do matadouro foi aberto pelo, funcionário camarário, Zé da Vila, muito cedinho e apenas o Valdemar estava encostado ao muro, com uma corpulenta vaca que olhava impavidamente para aquele sinistro local, mal ela sabia o destino que iria ter… O senhor Miranda- “Pastor”-, na companhia do Zé Fidó, estava a chegar com uma toura e um boi muito cornudo com uma longa barbela.
Pelas oito horas da manhã, começou a entrar o gado para o abate e uma carrinha Bedford de caixa aberta, transportava alguns porcos mal cheirosos e muito ruidosos, grunhindo, quase que adivinhando o seu fim…. O Calisto de Curvos estava a chegar com a sua bicicleta, fazendo grande “chiadeira”, com um cesto atrás, para transporte das encomendas e alguma carne.
O Zé Fidó chegava a ir a pé, a Viana do Castelo, Marinhas, Palmeira de Faro, Alvarães, Curvos, Vila Cova e outras freguesias transportando gado para o matadouro, percorrendo dezenas de quilómetros, durante muitas horas, para chegar às oito horas em ponto ao Matadouro Municipal de Esposende.
Com o matadouro em “rebuliço”, durante a manhã, o gado foi sendo paulatinamente abatido pelas “choupas” do Jaime da Faustina, Álvaro Filomeno e filho, pelo Zé do Talho (Teresinhas), sangrado e de imediato esquartejado, com o Valdemar a desfazer as vacas para o Talho Catora e algumas ovelhas que, com o seu ar “angelical”, foram sendo abatidas, numa ténue luta pela vida…
Os veterinários dr. Gonçalves de Vila do Conde e, mais tarde, o dr. Moreira de Barcelos faziam a inspecção sanitária aos animais abatidos, os quais levavam um longo carimbo, em toda a carne, como garante do controlo sanitário do gado. O senhor Marquês era um dos responsáveis sanitários do matadouro e estava sempre vigilante embora, fizesse “vista grossa” a algumas situações…
O Carlinhos da Jandira estava quase sempre presente às sextas-feiras ou segundas-feiras, e sob a cumplicidade e apoio do Zé da Vila, entrava no matadouro para segurar nas pernas dos bovinos, facilitando o trabalho do Valdemar e do Jaime ou mesmo do Zé Fidó, já que o seu desejo era receber a bexiga do animal para, depois de seca, ser utilizada de “cambra de ar” nas bolas de capão do Zé Pancas que possuía várias já que era o “rei dos papeizinhos-cromos- e das senhas da bola que era a garantia da bola de couro.
Os porcos, presos num longo e negro banco, eram mortos depois do gado, queimados com colmo, esfregados com pedras pomes e lavados com água quente e sabão rosa e posteriormente desfeitos pelos talhantes: Zé Fidó, Jaime…
Aos longos dos anos, as mulheres - Ângela do Corcunda, Quinhas da Vindeirinha (mãe do Quim Tripas), R. Mujica, Maria Picá- mulher do Russo-, Laura Ministra, Carma Ceareiro, Celina do Cocho) lavavam as tripas, -para as chouriças, “solas”,…- no rio que depois eram cozidas em panelões na cozinha do matadouro com o sangue dos animais e levavam um pequeno “quinhão” para casa…
João Louceiro com a sua carroça, auxiliado pelo Zé da Vila, Marquês e Artur Pessegueiro, recolhia e distribuía a carne do Matadouro pelos talhos de Esposende, poupando combustível uma vez que a égua estava sempre em boa forma física. Não precisavam da “Galp” apenas de uns fardos e palha e água para pôr a “viatura” a rolar…
A Páscoa, o mês de Agosto e o Carnaval, eram os períodos de maior actividade do matadouro onde o consumo da carne era maior.
O Quim Tripas sempre rondou o Matadouro para as suas aventuras e muitas pessoas estranhavam a presença deste ousado esposendense por estas paragens e a afunga-fisga- andava sempre ao pescoço, com os bolsos cheios de godos , as “balas” desse tempo…
Durante muito tempo, os porcos mortos e já preparados apareciam sem rabo e o sangue desaparecia dos alguidares e este mistério permaneceu durante muito tempo.
Interrogava-se o Álvaro do Talho:
- Como é possível os meus porcos aparecerem no meu Talho sem rabo?
O Jaime e o sr. Alfredo queixavam-se do mesmo mantendo-se preocupados já que muitos clientes compravam este saboroso apêndice, todas as semanas.
O Valdemar, gaguejando, disse ao Catora que desconfiava do Quim Tripas que não largava o matadouro…
Vou ver se saio mais cedo daqui, para levar o meu Matateu (tourinho domesticado e amansado pelo Valdemar) ao pasto no campo do Pirolau, avisava o Valdemar acelerando o seu trabalho.
O Zé Manel Catora afirmava que o Quim Tripas só vinha ao matadouro para nadar e dar uns mergulhos no “carreiro do rio” e para apanhar umas solhas ao pé, para levar para casa.
O Zé da Vila que estava a ouvir a conversa, junto ao Carlinhos, com o Tone Duarte na espreita, olhou para o sr. Álvaro do Talho e numa resposta rápida, avançou com uma idéia:
Na próxima vez, vou fazer uma emboscada e apanho o vadio que corta os rabos dos chicos…
Por volta das treze horas da tarde, o Zé da Vila, estava escondido por detrás da porta do matadouro, lado poente e com o gado todo abatido esperou, esperou até que….
Rastejando, pelo poente, apareceu o Quim Tripas, de calções de ganga, já muito “roçados” com uma faca enferrujada e pouco afiada, na mão, aproximou-se do banco onde estava o porco e cortou o rabo, que ainda fumegava, pela “raíz” e lançou-se em grande correria só parando na junqueira… O Zé da Vila, presenciando, esta situação e impotente em acompanhar a vertiginosa correria do Quim Tripas, entrou no matadouro, onde os seus amigos marchantes estavam a “mudar de roupa” e a lavarem as mãos e desabafou:
- Já sei quem é o “gandulo” que tem cortado os rabos aos nossos porcos!...
Quem é, quem é, perguntaram em uníssono, os talhantes presentes….
É o Quim Tripas que nos tem “roubado” os rabos e até deixou cair um copo plástico que era para levar o sangue para beber mas, não teve tempo!
Meu Deus, só poderia ser o Quim Tripas, mas é melhor fazer isto que partir os vidros todos do nosso matadouro como já tinha feito há uns tempos, concluiu o Zé do Alfredo perante o olhar impávido do senhor Jaime e do Júlio que tinham chegado ao matadouro naquele momento.
O cão “faine” (“fine”, em inglês) um “boxer” obediente e bem domesticado pelo dono, estava impávido, junto ao seu dono, senhor Jaime, com uma faca segura nos dentes para a entregar. O “faine” fazia muitos recados e era dotado de muito expediente e fugia da “vadiagem”….
O Quim Tripas cozinhava os rabos e, muitas vezes, comia-os crus e a acompanhar, bebia um copo de sangue que lhe sabia pela vida… Mas não era o único que bebia ou comia sangue –cozido- já que muitas crianças da ribeira também o faziam porque “fazia bem” à saúde… Era uma “receita” da época” onde a medicina apresentava muitas insuficiências e não estava evoluída como nos tempos de hoje.
Naturalmente, que o Quim Tripas não regressou, tantas vezes, ao matadouro, para o assalto aos rabos dos chicos mas, longe em longe, perante a distracção dos talhantes, os porcos ficavam novamente, sem rabos e eles diziam:
O Quim Tripas passou por aqui, mas já estamos habituados, afirmavam, conformados, os talhantes perante estas incursões do incorrigível Quim Tripas. Era uma criança ousada, destemida, aventureira, esperta e pugnava apenas, pela sobrevivência através de diversos expedientes e, nesses tempos, os estômagos de muitas crianças, “davam“ horas a todo o momento porque o alimento não abundava nos seus lares.
O Matadouro de Esposende, mais tarde, acabou, por encerrar, nos meados dos anos sessenta e o Quim Tripas adiou as suas traquinices contudo, outras aventuras apareceram que agitaram e despertaram o mundo das “crianças da nossa ribeira” que sempre viveram alegres, livres, felizes e confiantes na sobrevivência.
Esposende 6 agosto de 2014
"Cantinho dos lobos do Mar”
CANTINHO DOS LOBOS DO MAR
por Carlos Barros
David, o espertalhão….
Em pleno mês de agosto, o senhor David
Loureiro gozou um dia de folga e, como amante do mar, foi dar uma voltinha pelo
areal até Cepães, sempre à procura de novidades e oportunidades….
O
senhor David, antigo guarda fiscal, sempre gostou do rio e do mar e um dos seus
últimos barcos de pesca e recreio foi o ALVOR
que acabou por ser destruído pelas tumultuosas marés que se fizeram sentir no
passado inverno, no rio Cávado tendo a água do rio chegado a galgar a marginal,
lançando muito entulho para terra.
Este esposendense nas suas horas vagas, percorria
o rio Cávado lés-a-lés apanhando, à rede ou com recurso ao “carapau”, solhas e
irões, estes no meio do limo ou por debaixo dos pedregulhos.
O David, em sua casa, estava a conversar com
a mulher sobre o almoço para esse dia e, com a mão na cabeça, coçando-se de uma
mosca que lhe estava a atormentar, perguntou-lhe:
-Mulher, o que vamos comer ao nosso almoço?
-Ó homem apetecia-me um peixinho e um robalinho
vinha a matar, respondeu a sua estimada esposa-Maria Prazeres- muito
prontamente.
-Meu Deus, onde vou arranjar um robalo, se
fosse umas fanequinhas, ainda se arranjavam, agora um robalo mulher, nem
penses….Isto é comer dos ricos…
O David,
não quis mais conversa com a mulher, com receio que ela pedisse um salmonete ou
um rodavalho, fugiu em grande correria pela porta fora em direcção à praia para
ver o mar.
O David andou alguns quilómetros pelo areal
até às rochas de Cepães e, já um pouco
cansado, regressou pela areia húmida, desviando-se de alguns godos que estavam
a descoberto.
No seu
percurso, o mestre David viu um aldeão, pescador de ocasião, a pescar no mar e
alava a “cediela” com muito esforço, num carrinho de pesca todo ferrugento, já
que trazia um robalo de dois quilos e meio que foi puxado para terra, com muito
esforço.
O David, pensou para si mesmo:
- Esta é a oportunidade da minha vida!
Ele abeirou-se do pescador e com ar de muita
aflição, acenou-lhe com os seus musculosos braços e disse-lhe:
- Amigo, não
leve este robalo para casa que está envenenado e ainda ontem foram duas pessoas
para o nosso hospital Valentim Ribeiro, por causa de robalos que tinham comido!
O que está a dizer, meu senhor, este peixe
está envenenado, perguntou, o pescador, muito espantado!
O David apontou para a espuma da arrebentação
das ondas e disse ao pescador que, aparentava muito amadorismo,que essa espuma
era venenosa e entrava nas guelras dos peixes, envenenando-os…
Não o
leve e o que lhe posso fazer é levá-lo, neste saco que tem aí, para o lixo,
propôs o senhor David ao incauto pescador “de Avintes”…E acrescentou que lhe
fazia um grande favor….
O arguto David pegou no robalo em direcção ao
Farol e levou-o para casa todo contente, em passo acelerado não vá o pescador descobrir
amarosca….
Chegado a casa, sita na rua de S. João, o
David entrou abruptamente pela porta dentro, e gritou para a mulher:
- Temos aqui
um robalo grande para o almoço que bicharoco!
- “Home” onde
o compraste, perguntou a Maria ao David, que estava ofegante de tanto acelerar
o passo?
Olha Maria, pega e cala-te, não quero destas
conversas, acrescentou o David, todo sorridente e com ar triunfante.
A mulher assou o robalo com batatas do Zão e
uns grelinhos comprados na loja da “Laura do Roto”, junto à cadeia, almoçaram satisfeitos,
com os seus três filhos. Uma pinguinha
de vinho Felgueiras, comprado na Zeza da Labrista, ajudou a “empurrar o
delicioso repasto.
Este robalo sabe a pato, disse o David à
mulher!
O quer estás a
dizer David, isto não é pato mas robalo estás com os copos?
Bem mudemos de conversa, pediu o David à sua
desconfiada esposa cuja conversa estava a “cheirar a esturro”….
O nosso ardiloso amigo, bem alimentado saiu
de casa e foi tomar um café à Primorosa, onde estavam a jogar dominó, alguns
dos seus amigos, -João Calhandra, Abílio Coutinho, Sousa e Álvaro do Talho-
enquanto o Dr. Belchior fazia as palavras cruzadas, em francês, numa mesa junto
à montra e o senhor António Fandino lia o Comércio do Porto, ao balcão com a
“Fina” a mirar…
Já pela
tardinha, o senhor David despediu-se dos seus amigos e foi para casa e quando
estava prestes a fechar a porta às chaves, ouve um bater na porta, um som
estridente e contínuo.
De imediato
abriu-a e quem seria?
Precisamente, o
pescador do robalo que, muito sorridente, entregou-lhe um saco de batatas
novas, um molhe de cebolas e um grande galo acastanhado, de crista arrebitada e
de aspecto fanfarrão.
Senhor David, não tenho palavras a dizer pois,
o senhor salvou a minha família toda da morte porque me livrou daquele robalo
envenenado, agradeceu com muita gentileza, o pobre pescador.
O David, com o
seu ar de benevolente, disse-lhe que teria ido para o inferno, se não tivesse
tomado aquela atitude e esclareceu ao pobre homem, que o robalo tinha sido
enterrado no seu quintal.
A mulher do senhor David que estava junto às
trempes a aquecer a sopa , junto ao borralho,
chamou pelo marido para vir comer o resto do “robalo envenenado” que
tinha sobrado do meio-dia..
Ainda hoje, a
Maria Prazeres, desconhece como tinha aparecido aquele robalo milagroso lá em
casa….
“Pescador de histórias”
CANTINHO DOS LOBOS DO MAR
por Carlos Barros
O assalto às peras…
O Verão de mil novecentos e sessenta e quatro, presenteou Esposende, com dias de sol maravilhosos, sem nortadas e o sossego pairava na vila, excepto na ribeira onde o movimento, a agitação, a confusão e as “guerras” Norte-Sul, eram realidades constantes, sempre com a bola a rolar e os juncos e as pedras a serem maltratadas pelos “calosos” pés dos ribeirenses…
Junto aos beirais, as crianças estavam a preparar as suas aventuras, onde os “assaltos” às bouças, campos e pomares eram frequentes. Era a penúria económica e social desses anos de sessenta, com as crianças a lutarem pela sobrevivência, procurando nacos de pão, fruta, cenouras e até nabos de Gandra, ainda em fase de crescimento, pois eram mais tenrinhos. Nas suas casas era a lei da carência alimentar e nutricional porque o dinheiro era escasso nestas humildes mas, honestas famílias.
O dia tinha começado e os ribeirenses entraram de imediato em acção, relançando-se em ousadas aventuras pelo território esposendense que fervilhava de movimento e traquinice das inúmeras crianças que se espraiavam por todo o lado, saltando descalças e com as calças rotas no “rabo”.
O Artur Miquelino comandava as tropas e era o incontestável líder do grupo, mantendo respeito e coesão, já que um “berro” bem dado era disciplina garantida…
O Artur, com o seu cabelo grisalho, olhou para a “comandita” e propôs um assalto ao campo/bouça do Rocha Gonçalves onde haviam deliciosas peras que necessitavam de “colheita”… E poderíamos apanhar muita lenha para as “trempes” lá para casa, acrescentou o Serafim! O Santos lançou um grito de contentamento porque lá em casa já não havia lenha para o fogo, apenas uns paus , que eram de uns “cavaletes” da feira da Jandirinha que estavam apodrecidos pelo tempo.
O David Miquelino até saltou de contente porque poderia fazer umas “a-fungas” com alguns ramos….
Naturalmente que o “exército” ribeirense aceitou o convite e depressa se dirigiram em grande correria pela ribeira, campo do Pinto, estrada do Hotel Suave-Mar e finalmente chegaram ao portão da Rocha Gonçalves.
O Manel Laguna e o Santos vigilantes de fila, mandaram avançar porque não havia perigo à vista , ou seja, não havia vestígios do sr. Francisco que tomava conta dos terrenos e era uma “ameaça” permanente.
O Aré Mendanha, de nariz arrebitado, como sempre, estava atrasado e vinha todo contente porque tinha roubado uma bola de ténis que o Samuel Santos , que disputava um jogo com um francês, tinha lançado para fora do campo de ténis do Hotel, e a bolinha na estrada estava condena-da… O Aré apareceu todo sorridente e pronto para a acção, esfregando as mãos.
Com a autorização suprema do Artur, todos saltaram o alto portão da quinta, com muita facilidade já que a maioria destes ribeirenses estavam bem treinados no “aí vai peixe…” e, uma vez dentro do “território” inimigo, o Artur saltou para cima de uma pereira e começou a lançar as peras para o Manel Aicha, Santos, Manuel Laguna e João Muchacho que estava a dar uns toques de bola com uma pinha que estava no meio da faúlha. O Artur, sempre audacioso, ao mesmo tempo, ia cortando uns ramos secos resinosos que iam caindo “lá das alturas” e o Serafim e o Chana iam fazendo uns molhos que foram presos com cediela grossa apanhada no cais da ribeira.
Os bolsos dos “meliantes” estavam cheios de peras, apenas o Manel La-guna protestava porque não tinha nenhuma, já que tinha comido três peras, sem permissão do “chefe” Artur, sendo por este repreendido e ameaçado….O Tonho encostou-se a uma macieira e começou a roer umas maçãs verdes e guardava os caroços, bem esqueléticos, no meio da faúlha.
O Tonho, passados uns minutos, queixava-se da barriga mas ,uma pera de água fresquinha dada pelo Muchacho, foi remédio santo e funcionou co-mo uma aspirina!
Quando menos se esperava, com os vigilantes distraídos na comezaina, apareceu o senhor Francisco, armado com um ancinho, ameaçando os ribeirenses e todos fugiram como lebres, apenas o Artur Miquelino ficou “engalhado” no cimo da pereira e teve de descer, sendo apanhado pelo senhor Francisco que o prendeu no galinheiro da quinta, no meio dos as-sustados galináceos e dos pachorrentos patos.
Agora vou chamar o teu pai, disse furiosamente o senhor Francisco ao Artur que permanecia encerrado na improvisada prisão.
O senhor Francisco, em passada larga foi para o Bairro de S. Vicente de Paulo-bairro dos pobres- chamar o senhor Miquelino que estava a falar com o Rogério e o Geno sentados no “murinho” da casa, enquanto que a mãe do Santos, senhora Maria Fifas, vendia umas doses de isca a uns banhistas de Braga.
Então senhor Francisco, o que aconteceu pois está vermelho como um pimento questionou o Miquelino?
Ó homem, anda depressa comigo que vais ver onde está o teu filho respondeu em soluços o senhor Francisco que suava por todos os poros da pele…
Os dois dirigiram-se para o local do “crime” e mal chegaram ao destino depararam-se com o galinheiro todo rebentado, porta escancarada, fechadura destruída, com as galinhas e patos espalhados pelo terreno, usufruindo da pouca liberdade que nunca tiveram…
O Muchacho tremia “como varas verdes” já que tinha receio de ser nova-mente preso porque tinha cadastro na GNR, tendo estado preso, na “casa da rata”, dois dias onde sofreu castigos físicos de alguns agentes do posto.
Meu Deus, que é isto, lamentou o senhor Francisco amarrando a mão à cabeça….
O Miquelino olhou longamente para o velho amigo e respondeu-lhe prontamente:
Não digas nada, pelo que vejo o meu filho Artur esteve aqui! O que espe-ravas dele Francisco! Tivestes sorte daquela “vadiagem” não te ter serrado a pereira e alguns pinheiros e se não o fizeram, foi porque eles precisam desta fruta e da lenha para o inverno...
Podes crer, que é verdade, concluiu o Miquelino perante o rosto estupefacto do senhor Francisco.
Já em debandada, os “salteadores” foram para junto do torreão do Salva-vidas, para vigiar os seus seguidores, temendo pela GNR, o que não aconteceu, e puseram-se a comer sossegadamente as deliciosas peras sem serem incomodados.
Quem me dera um pirolito fresquinho, disse o Hilário que andava sempre escondido e medricas, como sempre…
Quando desceram do torreão, já de regresso a casa, os ribeirenses encontraram o Miquelino e com um piscar de olho, este desabafou:
- Meus vadios, já nem digo nada mas, sei que estais com a barriga cheia e isto é que importa….
Todos para casa e amanhã não quero ouvir mais histórias destas, disse o senhor Miquelino para o filho Artur e seus súbditos….
O Aré Mendanha e o Manel Laguna despediram-se dos amigos dizendo:
- Malta amanhã vamos assaltar o quintal do senhor Regado que tem boas maçãs mas temos de ter cuidado com a espingarda que dispara balas de sal….Temos de dominar o Laurentino que toma conta do quintal, disse o Artur mas , isso é canja respondeu o chefe Artur com ar desafiador.
Os ribeirenses regressaram a casa para comerem a malga de sopa, já que a sobremesa estava no estômago….
O final mês de julho, os pescadores de Esposende tiveram fracas marés e pescaram, nas suas ”artes” muitas cavalas e sardinhas e a variedade do peixe foi escassa. Apareceram enormes congros, alguns com mais de dez quilos mas vieram do Castelo… Ainda tinha os anzóis, com a respectiva “cediela” na boca… Já escrevi sobre sargos, fanecas, sáveis e cavalas e a-gora irei “navegar” no mar das curiosidades, no aguerrido e sagaz congro para além de umas curiosidades “semânticas”…
O congro é um peixe teleósteo anquiliforme (conger conger-do latim congruSofre metamorfoses e efectua migrações semelhantes às da enguia e, co-mo particularidade, os machos são mais pequenos que as fêmeas.
Os pescadores têm muito cuidado ao “safar” os congros” e um dedo na boca é destino fatal… Como prevenção e segurança, uma navalha afiada no pescoço do congro, fá-lo dormir eternamente…
“Côngrua:-Pensão que se dá aos párocos para a sua sustentação.: Congruência:-Relação , harmonia, de uma coisa com o fim a que se propõe; Coerência; conveniência; propriedade;
Congraçador:-.adj. e s.m.- que aquele que congraça; reconciliador; Congraçar:- harmonizar; pacificar; tornar amigo;reatar amizade.
Congruo:-Apto: adequado; proporcionado; suficiente; condigno;
Congruísmo:- Doutrina teológica, segundo a qual Deus dá ao Homem graça côngrua ou bastante.
Consultas:-
Dicionário Encilopédico Português- Editorial Verbo, S.A. 2006;
Dicionário C. Língua Portuguesa-Tomo 1.Texto Editores.
Compêndio de Zoologia-Porto Editora-
-.
“Pescador de histórias”
26 de Julho 2014
O Toninho foi fintado….
Era
uma segunda-feira, dia de feira quinzenal em Esposende, com o habitual
alvoroço, no Largo Rodrigues Sampaio, com as tendeiras e feirantes a montarem
as suas tendas e, pelas seis horas da manhã, já a Jandirinha, ajudado pelo
filho Pedrinho, menino de doze anos, espetava os ferros para prender as pontas das
varas, com cordas, que constituía a estrutura do toldo.
As
peças de tecido e miudezas - alfinetes, ganchos de cabelo, elástico, rendilhas,
tubos de linhas, agulhas, colchetes…, eram colocadas numa banca, assente em cavaletes
feitos pelo Carlinhos com a ferramenta do pai ou pelo Hermenigildo.
As
barracas espalhavam-se, como cogumelos, pelo Largo da feira com as roupas, cobertores
colchas, “samarras”, sapatos e botas, de toda a qualidade e feitio. As botas de
sola de “borracha de avião”, para as crianças, eram as mais procuradas pelos
clientes porque o inverno aproximava-se e esse calçado resistia às intempéries,
mesmo com os jogos da bola na ribeira…
O
trânsito estava acelerado, com os carrinhos de mão transportando legumes e
hortaliças, empurrado pelas lavradeiras de Góios, Marinhas, S. Bartolomeu,
Apúlia e Gandra, “capital concelhia dos deliciosos nabos”.
A
tia Louceira já estava instalada, no lado nascente do Largo, com a sua louça
espalhada - alguidares, cântaros, bacias, travessas, copos, chocolateiras,
panelas, pois a “era do plástico” ainda estava um pouco distante.
A
feira periódica em Esposende, era o eclodir de uma base económica local muito
importante e Esposende fervilhava de movimento comercial, social e humano e com
esta feira, Esposende despertava da melancolia diária porque era uma vila
pacata e com muito pouco movimento.
Em
todo o espaço do Largo Rodrigues Sampaio e parte da ribeira norte, se espalhavam-se
barraquinhas, tendas vendendo os mais diversos artigos e em plena ribeira
estava o gado a ser negociado pelos comerciantes com as mãos cheias de notas de
cem e quinhentos escudos, discutindo, gesticulando e “bufando” à procura de
embaratecer, o preço do gado, sob o ruído ensurdecedor do grunhir dos porcos.
Junto
à casa da Ciloca estava a ser montado o Circo “Torralvo” com a criançada a
assistir à sua demorada montagem e a olhar para alguns animais enjaulados.
Na
loja/armazém de cereais do Abílio Coutinho, o dia de feira era de incessante
trabalho na pesagem do feijão, milho e outros cereais que as mulheres
lavradeiras do concelho vinham vender, sendo esse cereal logo ensacado, depois
de ser pago aos vendedores. No balcão com a sua longa pedra amarela de
“mármore”, o Tio Abílio e o Carlinhos iam servindo os clientes habituais,
vendendo arroz carolino ou agulha-saco-, sabão rosa, queijo, figos de cera, marmelada e outros
produtos de mercearia.
Pelo
meio da manhã, alguns pescadores vinham comprar tabaco- “Kentuques”, Negritas, Provisórios,
geralmente “fiado”, normalmente os mais baratos, já que os maços da marca,
com filtro, Estoril, SG-Ventil,
Paris, Sagres, Porto, Sintra, Benfica,
Sporting entre outros, tinham clientes mais
“abastados”…
Foi
uma manhã de árduo trabalho e os sacos foram-se enchendo de milho e feijão
apatalado, mistura, manteiga, moleiro, branco, rajado…-, sendo amarrados com
corda e amontoados contra a parede que eram os bancos dos pescadores quando
bebiam a sua tigelinha, um “cagão” ou um copinho de aguardente com aniz em que
o Tio Chora era cliente diário, chegando mesmo a levar aguardente num
frasquinho que o colocava no bolso do casaco quando regressava a casa.
Eram
quase quatro horas da tarde, já com menos movimento no armazém, quando chegou o
senhor José da Lucas, acompanhado pelo
Manel Pezinho para beber a sua malguinha de vinho carrascão, fornecido
pelo Firmino de Vila Cova que o transportava, quase sempre à noite, num camião com o Manel Cunha e o Augusto a
ajudarem a pipa a rolar sobre rolos-toros- de madeira para as traseiras do
armazém, onde estava a tasca. Com uns figuinhos ou uma chouricinha, estes
pescadores lá iam bebendo, o precioso líquido, mas sempre moderadamente, ao
contrário de outros que bebiam até cair….
Com
o relógio da Igreja matriz, a dar as cinco horas, o Toninho entrou de rompante
na loja para beber o seu copo mas, por grande azar, o Carlinhos estava ao balcão
e ele sabia que o sobrinho do senhor Abílio não lhe dava vinho. A Tia Alice
encontrava-se na tasca a servir um copo ao senhor Fernandinho que, com as suas
mãos pretas de ferrugem e óleo, votava umas malguinhas “abaixo” da goela, sem
respirar…”Estas já se foram” dizia ele, com o seu ar de homem atarefado….
Carlinhos,
dá-me uns sugos, pediu o Toninho ao Carlinhos que estava desconfiado perante
tal inusitado pedido.
Será
que o Toninho me quer entreter a buscar os sugos e vai lá para trás beber uma
tigela, pensou o Carlinhos!...Fazendo uma simulação que ia buscar os sugos, o
Carlinhos sempre a olhar para o Toninho e este “zás”, num ápice desapareceu
para beber a tigela…
Já
a tia Alice estava com a caneca a despejar o vinho para a malga do Toninho,
apareceu o Carlinhos que num gesto de coragem e rapidez, afastou a caneca da
malga, enquanto a tia Alice olhava surpreendida com esta situação!
Tia,
está a dar de beber a uma criança, isso comigo não faz, senão vou-me já embora
para casa, ameaçou o Carlinhos. Por mais estranho que pareça, a Tia Alice ficou
imobilizada e teve a sensatez de compreender o gesto do sobrinho….
O
Toninho espantado, olhou para o Carlinhos e, sem ameaças, o que era raro, desabafou:
-“Filha
da mãe, tive azar, mas para a próxima, quando não estiveres vou encharcar umas
valentes tigelas….
O
Toninho saiu do armazém, encostadinho à parede e já na saída, foi perseguido
pelo Carlinhos, em curta correria porque já levava uma cerveja cristal
surripiada, de uma das muitas grades que estavam junto à parede da loja.
Hoje
foi o meu dia de azar lastimou o Toninho quando se dirigia para a ribeira ou,
provavelmente, para a Zezinha da Labrista, para “matar” a sede….
O
Carlinhos regressou para junto dos amontoados de sacos de milho e feijão, para
ouvir o senhor Zé da Lucas a contar a sua vida no navio de fio e do Brasil, onde
viveu alguns anos.
“Pescador de histórias”
Esposende 15 de Setembro de 2014
O Verão de mil novecentos e sessenta e quatro, presenteou Esposende, com dias de sol maravilhosos, sem nortadas e o sossego pairava na vila, excepto na ribeira onde o movimento, a agitação, a confusão e as “guerras” Norte-Sul, eram realidades constantes, sempre com a bola a rolar e os juncos e as pedras a serem maltratadas pelos “calosos” pés dos ribeirenses…
Junto aos beirais, as crianças estavam a preparar as suas aventuras, onde os “assaltos” às bouças, campos e pomares eram frequentes. Era a penúria económica e social desses anos de sessenta, com as crianças a lutarem pela sobrevivência, procurando nacos de pão, fruta, cenouras e até nabos de Gandra, ainda em fase de crescimento, pois eram mais tenrinhos. Nas suas casas era a lei da carência alimentar e nutricional porque o dinheiro era escasso nestas humildes mas, honestas famílias.
O dia tinha começado e os ribeirenses entraram de imediato em acção, relançando-se em ousadas aventuras pelo território esposendense que fervilhava de movimento e traquinice das inúmeras crianças que se espraiavam por todo o lado, saltando descalças e com as calças rotas no “rabo”.
O Artur Miquelino comandava as tropas e era o incontestável líder do grupo, mantendo respeito e coesão, já que um “berro” bem dado era disciplina garantida…
O Artur, com o seu cabelo grisalho, olhou para a “comandita” e propôs um assalto ao campo/bouça do Rocha Gonçalves onde haviam deliciosas peras que necessitavam de “colheita”… E poderíamos apanhar muita lenha para as “trempes” lá para casa, acrescentou o Serafim! O Santos lançou um grito de contentamento porque lá em casa já não havia lenha para o fogo, apenas uns paus , que eram de uns “cavaletes” da feira da Jandirinha que estavam apodrecidos pelo tempo.
O David Miquelino até saltou de contente porque poderia fazer umas “a-fungas” com alguns ramos….
Naturalmente que o “exército” ribeirense aceitou o convite e depressa se dirigiram em grande correria pela ribeira, campo do Pinto, estrada do Hotel Suave-Mar e finalmente chegaram ao portão da Rocha Gonçalves.
O Manel Laguna e o Santos vigilantes de fila, mandaram avançar porque não havia perigo à vista , ou seja, não havia vestígios do sr. Francisco que tomava conta dos terrenos e era uma “ameaça” permanente.
O Aré Mendanha, de nariz arrebitado, como sempre, estava atrasado e vinha todo contente porque tinha roubado uma bola de ténis que o Samuel Santos , que disputava um jogo com um francês, tinha lançado para fora do campo de ténis do Hotel, e a bolinha na estrada estava condena-da… O Aré apareceu todo sorridente e pronto para a acção, esfregando as mãos.
Com a autorização suprema do Artur, todos saltaram o alto portão da quinta, com muita facilidade já que a maioria destes ribeirenses estavam bem treinados no “aí vai peixe…” e, uma vez dentro do “território” inimigo, o Artur saltou para cima de uma pereira e começou a lançar as peras para o Manel Aicha, Santos, Manuel Laguna e João Muchacho que estava a dar uns toques de bola com uma pinha que estava no meio da faúlha. O Artur, sempre audacioso, ao mesmo tempo, ia cortando uns ramos secos resinosos que iam caindo “lá das alturas” e o Serafim e o Chana iam fazendo uns molhos que foram presos com cediela grossa apanhada no cais da ribeira.
Os bolsos dos “meliantes” estavam cheios de peras, apenas o Manel La-guna protestava porque não tinha nenhuma, já que tinha comido três peras, sem permissão do “chefe” Artur, sendo por este repreendido e ameaçado….O Tonho encostou-se a uma macieira e começou a roer umas maçãs verdes e guardava os caroços, bem esqueléticos, no meio da faúlha.
O Tonho, passados uns minutos, queixava-se da barriga mas ,uma pera de água fresquinha dada pelo Muchacho, foi remédio santo e funcionou co-mo uma aspirina!
Quando menos se esperava, com os vigilantes distraídos na comezaina, apareceu o senhor Francisco, armado com um ancinho, ameaçando os ribeirenses e todos fugiram como lebres, apenas o Artur Miquelino ficou “engalhado” no cimo da pereira e teve de descer, sendo apanhado pelo senhor Francisco que o prendeu no galinheiro da quinta, no meio dos as-sustados galináceos e dos pachorrentos patos.
Agora vou chamar o teu pai, disse furiosamente o senhor Francisco ao Artur que permanecia encerrado na improvisada prisão.
O senhor Francisco, em passada larga foi para o Bairro de S. Vicente de Paulo-bairro dos pobres- chamar o senhor Miquelino que estava a falar com o Rogério e o Geno sentados no “murinho” da casa, enquanto que a mãe do Santos, senhora Maria Fifas, vendia umas doses de isca a uns banhistas de Braga.
Então senhor Francisco, o que aconteceu pois está vermelho como um pimento questionou o Miquelino?
Ó homem, anda depressa comigo que vais ver onde está o teu filho respondeu em soluços o senhor Francisco que suava por todos os poros da pele…
Os dois dirigiram-se para o local do “crime” e mal chegaram ao destino depararam-se com o galinheiro todo rebentado, porta escancarada, fechadura destruída, com as galinhas e patos espalhados pelo terreno, usufruindo da pouca liberdade que nunca tiveram…
O Muchacho tremia “como varas verdes” já que tinha receio de ser nova-mente preso porque tinha cadastro na GNR, tendo estado preso, na “casa da rata”, dois dias onde sofreu castigos físicos de alguns agentes do posto.
Meu Deus, que é isto, lamentou o senhor Francisco amarrando a mão à cabeça….
O Miquelino olhou longamente para o velho amigo e respondeu-lhe prontamente:
Não digas nada, pelo que vejo o meu filho Artur esteve aqui! O que espe-ravas dele Francisco! Tivestes sorte daquela “vadiagem” não te ter serrado a pereira e alguns pinheiros e se não o fizeram, foi porque eles precisam desta fruta e da lenha para o inverno...
Podes crer, que é verdade, concluiu o Miquelino perante o rosto estupefacto do senhor Francisco.
Já em debandada, os “salteadores” foram para junto do torreão do Salva-vidas, para vigiar os seus seguidores, temendo pela GNR, o que não aconteceu, e puseram-se a comer sossegadamente as deliciosas peras sem serem incomodados.
Quem me dera um pirolito fresquinho, disse o Hilário que andava sempre escondido e medricas, como sempre…
Quando desceram do torreão, já de regresso a casa, os ribeirenses encontraram o Miquelino e com um piscar de olho, este desabafou:
- Meus vadios, já nem digo nada mas, sei que estais com a barriga cheia e isto é que importa….
Todos para casa e amanhã não quero ouvir mais histórias destas, disse o senhor Miquelino para o filho Artur e seus súbditos….
O Aré Mendanha e o Manel Laguna despediram-se dos amigos dizendo:
- Malta amanhã vamos assaltar o quintal do senhor Regado que tem boas maçãs mas temos de ter cuidado com a espingarda que dispara balas de sal….Temos de dominar o Laurentino que toma conta do quintal, disse o Artur mas , isso é canja respondeu o chefe Artur com ar desafiador.
Os ribeirenses regressaram a casa para comerem a malga de sopa, já que a sobremesa estava no estômago….
O final mês de julho, os pescadores de Esposende tiveram fracas marés e pescaram, nas suas ”artes” muitas cavalas e sardinhas e a variedade do peixe foi escassa. Apareceram enormes congros, alguns com mais de dez quilos mas vieram do Castelo… Ainda tinha os anzóis, com a respectiva “cediela” na boca… Já escrevi sobre sargos, fanecas, sáveis e cavalas e a-gora irei “navegar” no mar das curiosidades, no aguerrido e sagaz congro para além de umas curiosidades “semânticas”…
O congro é um peixe teleósteo anquiliforme (conger conger-do latim congruSofre metamorfoses e efectua migrações semelhantes às da enguia e, co-mo particularidade, os machos são mais pequenos que as fêmeas.
Os pescadores têm muito cuidado ao “safar” os congros” e um dedo na boca é destino fatal… Como prevenção e segurança, uma navalha afiada no pescoço do congro, fá-lo dormir eternamente…
“Côngrua:-Pensão que se dá aos párocos para a sua sustentação.: Congruência:-Relação , harmonia, de uma coisa com o fim a que se propõe; Coerência; conveniência; propriedade;
Congraçador:-.adj. e s.m.- que aquele que congraça; reconciliador; Congraçar:- harmonizar; pacificar; tornar amigo;reatar amizade.
Congruo:-Apto: adequado; proporcionado; suficiente; condigno;
Congruísmo:- Doutrina teológica, segundo a qual Deus dá ao Homem graça côngrua ou bastante.
Consultas:-
Dicionário Encilopédico Português- Editorial Verbo, S.A. 2006;
Dicionário C. Língua Portuguesa-Tomo 1.Texto Editores.
Compêndio de Zoologia-Porto Editora-
-.
“Pescador de histórias”
26 de Julho 2014
O Toninho foi fintado….
CANTINHO DOS LOBOS DO MAR por Carlos Barros
Um pescador improvisado…
A motora Torrão, cuja proprietária era a Berta Bichesa, estava em mau estado de conservação e as tábuas do convés estavam um pouco
esburacadas, “dançavam” e “chiavam” debaixo
das galochas dos tripulantes e o cheiro
do gasóleo perfumava todo o porão e convés.
Por esta
motora, passaram inúmeros pescadores:
“Ilhoca”, João Mona-emigrante brasileiro-, Manel Sapateiro-Rosário-, Rogério,
Delfino Fifas, Luisinho, Alfredo Muchacho, Pedro, Zé dos Passos…
O Luisinho era o mestre desta embarcação e com a sua experiência, lá ia fintando a
fúria das ondas do mar, na companhia do assustado Zé Pereira dos Passos-, mais conhecido na
gíria dos pescadores por “Zé Tolo”.
A noite
saudava a tripulação, com o seu “manto de estrelas” e a lua iluminava a
esperança destes combativos e corajosos
pescadores de Esposende.
Era o momento
de largar as redes e algumas “rascas” e todos trabalhavam afincadamente apenas, o Zé passava o tempo a “contar as
estrelas”…
Já em pleno mar, não muito longe da costa, o
Pedro gritava:
Tantos
badejos, estão a monte irmãos!...
O Alfredo Muchacho
olhou para o mar e os badejos serpenteavam à superfície e estavam na “babuja”… Pedro pega na linha e vê se pescas algum, desafiou o
tio Alfredo.
Já com as mãos “traçadas” pela linha de tanto
alar, o Pedro, durante uma hora, nada apanhou perante o desespero do Luisinho e
do João Mona que queriam levar uns badejos para casa.
O Tio Alfredo,
nervoso, “arregaçou” a boina para trás, pegou na “cana do leme” e com uma linha, anzol e isco, pôs na mão do Zé e disse-lhe para pescar, empurrando o Pedro que estava a embaraçar…
Tio Alfredo,
eu não sei pescar, se fosse tirar água da motora e encher umas gigas de
fanecas, agora pescar, lamentava o Zé
perante o ar ameaçador do tio Alfredo!
Pesca e caluda, ameaçou o Tio Alfredo com
cara de poucos amigos.
O Ilhoca
fumava o seu cigarrinho encostado à casa do leme, junto a uma bóia, encimada
com uma bandeirola amarela.
O Pedro
encostado à casa do leme mostrava-se
envergonhado com o seu insucesso na pesca ao badejo…
O Zé começou a pescar, olhando sempre para o Tio
Alfredo que estava com o galheiro na mão
e o peixe começou a mordiscar o anzol e, passada uma hora, sob os olhares do Luisinho e da restante tripulação, o Zé
tinha pescado doze valentes badejos e um deles de quase dois quilos de peso.
Boa Zé, és o
maior confortava-o o tio Delfino Fifas,
todo encasacado, defendendo-se da brisa
fria que se fazia sentir.
O Tio Alfredo abraçou o Zé, todo radiante pela façanha do seu amigo, e olhou de canto para o
Pedro e disse-lhe:
- Não tens
vergonha! Não sei que andas aqui a fazer na motora, eu deveria era despachar-te,
pôr-te a “penates” !
O Zé rejubilava
de contente, mostrando os inúmeros badejos que tinha pescado, reluzentes e
escorregadios que iam deslizando na motora ao “sabor” do baloiçar da ondulação
do mar. Apanhou três cavalas que deram muita luta ao serem aladas e o Rogério
Chana, ainda jovem, teve de dar uma ajudazita ao amigo Zé.
O tio Alfredo,
já no regresso à barra, deu um aperto de mão ao Zé e prometeu-lhe uma
malguinha -vinho com gasosa- na tasca do Coutinho embora o Zé não fosse homem
de beber.
Já com a
motora junto ao cais, tripulada pelo Luisinho, o tio Alfredo,
olhou para o Pedro e desabafou:-
- Não prestas
para nada e se o Zé fosse tolo, como
injustamente, lhe chamam, não pescava tantos badejos e só numa hora!...
O Pedro
envergonhado, ia olhando para a
Capelinha de S. Lourenço, para afagar a tristeza que o invadia…Com tanto azar, ainda escorregou
numa das cavalas e caiu desamparado, batendo com a cabeça no alador.
O Torrão de
regresso ao cais, atracou finalmente pela tardinha e toda a tripulação se dirigiu para as suas casas porque o mar esperava-os no dia seguinte e era preciso
descansar e “acumular “ energias para
novas pescarias.
Curiosidades
Na primeira quinzena do mês de julho, os pescadores de Esposende fartaram-se
de apanhar cavalas e inúmeros
cardumes foram malhados nas redes. Os
clientes da lota de Esposende, compraram muita cavala, a preços irrisórios e muitas caixas ficaram por vender e
algumas delas foram para isca.
Eu , com frequentador assíduo da lota, não me
recordo de tanta cavala pescada, embora seja um peixe muito saudável, não tem,
contudo, grande valor comercial nestas
paragens.
Cavala:-Peixe teleósteo perciformes da família dos
escombrídeos, do género “scomberomorus”,
ger. Pelágicos e migratórios, que possuem corpo alongado , pouco comprimido,
cabeça afilada e “focinho” pontiagudo sendo o
seu dorso azul-escuro e ventre prateado. Há várias variedades de cavalas: Cavala-perna-de-moça,
cavala-preta, cavala sardinheira, cavala
verdadeira, (com grande valor
comercial), cavala branca, cavala canguçu, cavala-pintada, cavala africana, cavala-aipi,…
O termo
cavalada significa atitude ou fala indelicada; grosseira; brutalidade; asneira;
disparate.
Cavalão:-cavalo
grande; indivíduo muito alto e corpulento; indivíduo rude e grosseiro:
Cavalar: que pertence à raça do cavalo relativo a ou
próprio de cavalo:
Cavala:-Zoologia-
Espécie de sarda, encontra-se nas águas
quentes do Atlântico e Pacífico.
Consultas: Dicionário Houaiss da L. P.-Temas e
debates-Instituto António Houaiss de Lexicografia Portugal-Lisboa 2005;Dicionário
Enciclopédico Português-Editorial Verbo, S.A. 2006.
CANTINHO DOS LOBOS DO MAR por Carlos Barros
CANTINHO DOS LOBOS DO MAR por CARLOS BARROS
“Uma travessa voadora”….
No ano de
mil novecentos e sessenta e quatro, o cais de Esposende, acolhia muitas motoras
que andavam, em pleno mar, na sua faina piscatória com as suas tripulações
sempre ativas e divertidas. O trabalho no mar era sempre acompanhado com brincadeiras,
despiques, apostas e diversões, entre a tripulação, tendo como palco, o
escorregadio convés, sempre “oleado”
de “langanhos “ de raias e de congros,
bem “taludos”...
A motora Filomena
Antonieta tinha chegado do mar e depois de ancorada e presa, pelas “amarras” nas argolas do então
designado “paredão do Salva-Vidas”, a tripulação começou a descarregar o peixe
que era transportado em caixas para
terra. Na rampa, onde se encontravam as bancas da lota, em frente do
“Salva-Vidas”, as peixeiras esperavam pelo pescado, num ambiente de alvoroço e
de algazarra, numa sessão de gritaria e de constantes ameaças, sempre pugnando
pelo melhor preço. A tia Silvana e a
tia Graça, com as gargantas afinadinhas, silenciavam as outras vozes regateiras
que se faziam ecoar ao longo da rampa do cais norte.
As autoridades marítimas estavam geralmente presentes
no cais, através dos guardas-fiscais
(Lopes, David…) para fiscalizar o pescado que saía das motoras .
O Tenente
Tavares Coelho era a autoridade máxima da Delegação Marítima de Esposende que se
localizava no Largo Rodrigues Sampaio, perto do Armazém /mercearia e tasca do
Abílio Coutinho.
A tia
Esmeralda do Salva-Vidas costumava, por respeito ou “exigência”, oferecer uns peixinhos ao sr. Tenente e para
o efeito, levava sempre uma travessa de
porcelana, já com muitos “agrafes”, onde os peixes eram colocados, oferecidos
pelos mestres das motoras.
Na motora,
o tio Alfredo Muchacho não gostava muito destes “arranjos” e disse ao Romão:
- Romão, hoje o Tenente vai ter uma surpresa…
O Romão” Magnório” começou a esfregar as mãos de
contente porque sabia que iria haver
tramóia e perguntou ao divertido tio Alfredo, o que estava a tramar!
Romãozinho, quando a tia Esmeralda vier com a
travessa buscar o peixe, dá-lhe um tropeção para fazer voar a travessa … O
Morrossol estava a ouvir a conversa e prontificou-se também, a entrar na cena,
oferecendo-se para dar uma rasteira ao Magnório…
O Romão e o Morrossol saltaram, como gafanhotos, de
contentes no poupa da motora, longe dos
ouvidos das muitas peixeiras presentes, entre as quais a Tia Esmeralda.
O Romão olhou para o tio Alfredo Muchacho e disse-lhe que ainda há pouco tempo tinha “roubado” dois coelhos à
Tia Luzia e três galinhas no quintal da Escola, à D. Loca e tinha feito uma grande patuscada no “Zip Zip” onde todo o “mundo
comeu”…Quem fez isto é porque tem coragem, confessava descaradamente o
Romãozinho ao tio Alfredo. Este ficou convencido que tinha ali, o artista ideal
para a sua ideia!
Já o peixe estava quase descarregado no paredão,
quando a tia Esmeralda, com o seu colorido xaile, pelas costas, aproximou-se,
com a travessa, já com umas fanecas e dois pequenos badejos, dados pelo João
Careca quando, inesperadamente, o Morrossol empurrou o Romão ao encontro da tia
Esmeralda, batendo com a mão direita na travessa e esta, despedaçou-se em mil
cacos contra as pedras, com os peixes a mergulharem para o fundo do rio.
Meu vadio,
maldito que partiste a minha travessa e
agora o senhor tenente não vai levar peixe, lamentou em alta berraria
a tia Esmeralda, com gestos desesperados,
ameaçando o Romão, enquanto que o Morrossol se esquivava para dentro do porão
da motora, simulando lavar o convés.
O Magnório fugiu em grande correria para dentro da
Maria Antonieta onde o tio Alfredo
Muchacho o esperava, muito contente, abraçando efusivamente o Romão,
felicitando-o pela façanha.
Romão,
pega no baú e vai depressa para casa porque a tia Esmeralda anda atrás de ti e
levas estas fanecas e chicharros para o jantar porque o tenente, desta vez, vai
ver o peixe por “um canudo”…
CMLB
Esposende
30 de abril de 2014
CANTINHO DOS LOBOS DO MAR por CARLOS BARROSC
Um engate frustado…
Estavamos num
domingo, e os pescadores de Esposende estavam todos em terra porque o mar
estava “bravo” – “de mais” e os jovens Ilhoca, Bidú e Passos andavam todos
aperaltados pela vila, de camisinhas de xadrez
de flanela e calças vincadas e
com sapatinhos a brilhar, com um pouco de lodo nas solas e uns rasgos de limo
encravados na biqueira dos sapatos, com
as solas rotas.
Com esta tarde
soalheira, os três amigos foram à Pensão Rego beber umas malguinhas de vinhaça
e mais depressa entraram quando viram, no hall de entrada, duas beldades,
caídas do céu, que refrescaram logo a vaidade destes três mosqueteiros.
-Ilhoca, olha
para aquelas “gajas” são boas como milho, desabafou Passos Chino.
- “Tá calado” que vamos engatá-las disse logo o
Ilhoca perante o olhar indiferente do Bidú.
Sentaram-se
à mesa e o Ilhoca pegou no Jornal de Notícias que estava sobre a mesa, ainda
manchado com as cores do vinho, e começou a ler.
As raparigas
olhavam de soslaio para estes três intelectuais de “algibeira” e fizeram um
sorriso comprometedor.
-Ó Ilhoca tu não sabes ler, disse o Chino num tom de
voz desafiador e provocador.
-Eu sei ler
muito bem porque o meu professor foi o professor Agostinho C. Manca que me ensinou muito bem,
com aquelas letras de folheta, respondeu o Ilhoca num tom de voz altivo, para
as meninas ouvirem.
Então lê
aqui, perguntou o Chino ao Ilhoca apontando para um título do Jornal onde
estava escrito: ”Paulo VI, veio a Portugal”.
O Ilhoca
levantou o Jornal, e leu em voz alta:-
Pau...Pau…lo vi, vei..ve..i..o a Portugal” leu “fluentemente” o Ilhoca aos seus
amigos.
O Bidú, que
não conhecia uma letra do “tamanho de um boi” aplaudiu e bateu muitas palmas
para as meninas ouvirem e ficarem impressionadas com estes três cultos
leitores.
O Passos que
conhecia a numeração romana ensinada pela Professora D. Isolina e corrigiu o
Ilhoca:
Ó seu “burro” não é “vi” é sexto, em romano,
respondeu com ares de sabichão o Passos para o seu amigo que estava corado,
olhando para as garotas que se riam com aquela cena teatral.
O Bidú, irritado, gritou:
-Ó Fernando , manda mas é três malgas de vinho e umas
iscas de bacalhau da Lininha, para o balcão e a leitura não me interessa porque
estes tipos são uns analfabetos como eu….
O Passos levantou-se do banco e olhando para as
meninas, com ares de “engatatão”
disse-lhes:
Olhai minhas donzelas, eu sou o mais inteligente de
Esposende e como pescador ninguém me bate e se tivesse posses, seria Doutor
como o meu primo Dr. Juvenal.
Estas
veraneantes, levantaram-se e saíram pela porta fora da Pensão, num passo lesto
e ritmado.
O Bidú e o
Ilhoca, piscaram o olho um ao outro, saíram da tasca e foram para o paredão onde
se sentaram, observando aquelas mulheraças que passeavam por entre os varais da
ribeira, abanando os “traseiros” e pontapeando os juncos que se atravessavam no
seu caminho.
De vez em quando,
estas “ninfas do Cávado” paravam nas silvas e apanhavam e comiam umas saborosas
e “gordulhas” amoras silvestres.
Olha, o
doutor ficou a beber na pensão e nós estamos a olhar para estes “traços”! Então
não somos ”finos” concluiu o Bidú para o seu amigo Ilhoca?
Está calado “home” que o Passos pode ouvir, exclamou
o Ilhoca com uma voz de “pintassilgo”…
As duas
donzelas, fizeram uma pausa no seu olhar, dirigiram-se em direção ao rio, junto
às “escadinhas, onde o Armindo Murraca e o Paulo Gatinho pescavam à
“chuncalhada” aos irões que estavam grossos”, enquanto que o Santos e o Pezinho
apanhavam isca no lodo, junto ao cais partido, em frente do salva vidas.
As esbeltas jovens,
com meias de vidro, “afagando” as suas belas pernas, deliciaram-se a ver tantos
irões a “rabiarem” numa panela de alumínio, toda esburacada que o o Manel Chora
tinha trazido da cozinha, sem a mãe saber.
O Ilhoca e o
Bidú, ficaram ciumentos por verem as suas “amadas” junto aqueles dois ”meias-lecas”,
olhando-os com ternura, e admiradas pela
sua arte de pescar.
O Passos espavorido,
apareceu na ribeira, à procura dos dois amigalhaços e ao vê-los no paredão gritou-lhes:
“Homes”, vamos embora que o Zé Paquete já me avisou que
temos que ir “P´ró ”mar às duas da manhã e esta “pescaria” não dá nada e ainda
temos de tirar água da catraia e nem sei onde estão os vertedouros…
Estas meninas
são muito “finas “ para nós que só cheiramos a peixe e foi por isso que não nos
ligaram nada e só aqueles dois “vadios” é que tiveram sorte, lamentou O Bidú
!...
Quem me dera
ser irão para estar junto delas, desabafou o Passos para os dois amigos, muito
desolados pelo falhanço do engate.
As duas jovens
recolheram à pensão e nunca mais foram vistas nas redondezas de Esposende e veio
a saber-se mais tarde, que eram raparigas de Pica de Regalados e que tinha
vindo passar o fim de semana à Pensão Rego,
Os três
mosqueteiros, nas visitas diárias à tasca da Pensão Rego perguntavam sempre ao
Fernando, empregado de balcão pelas “jeitosas”, ao que ele prontamente respondia:
Voaram como
gaivotas para o mar e até eu ainda espero por elas!...
Esta história nasceu de
uma entrevista informal, na rua N.Srª da Graça- feita pelo Carlos Barros ao seu
amigo José Rego, no dia 17 de fevereiro, pelas 16 horas.
CANTINHO DOS LOBOS DO MAR por CARLOS BARROSCarlos Barros
Bajão, o afogado!...
O antigo salão dos Bombeiros de Esposende, era um espaço de lazer e de convívio de muitos esposendenses que desfrutavam desse local privilegiado para ver televisão, jogar damas, xadrez, “snooker”, bilhar livre, cartas-sueca-“loba”,” King”-, dominó, sendo o senhor António da Assembleia o responsável, espécie de um “mordomo”, sempre atento, com o seu olhar “atemorizador” e de respeito. Eram poucos, os que ousavam entrar, no salão sem ser sócio porque o senhor António punha-os logo em “marcha rápida” pela longa escadaria de madeira, de acesso ao salão, com a respectiva parede repleta de quadros dos pescadores de Esposende mais antigos: Piloto da Frita, Zé Grande, Laurisá, …
Pela tardinha, o Carlinhos da Jandira estava a jogar damas com o João Carlos Silva, numa partida bem disputada já com o Carlinhos cheio de damas e o seu opositor a coçar a cabeça, com o jogo perdido. Junto à janela da varanda, o senhor Praia disputava o seu histórico duelo de damas com o senhor Carvalho, relojoeiro da Rua Direita, com o senhor Mário Belo e o Edgar a assistirem ao espetáculo “damístico”. Mais ao lado, jogava-se bilhar livre entre o Albaninho “Penico” e o Albininho de Gandra, com o Tonho e o Tozé Reis à espera que o jogo acabasse para jogarem a sua bilharada.
O “snooker” estava sem clientes a sua ocupação era mais aos sábados e domingos à tarde e em pleno jogo, os jogadores estavam sempre à espreita no “contador” porque as moedas eram escassas e os trocos contavam-se….
Nesse momento, o ambiente dos bombeiros foi alterado e agitado, com o toque da sirene, sinal de afogamento e o João Carlos, bombeiro voluntário sempre ativo, saltou da cadeira, como um ágil lince, levantou a mesa onde estava o tabuleiro das damas, com as pedras a rolarem pelo chão em diversas direcções, e foi para o local do afogamento, perante o olhar estupefacto e desesperado do senhor António da Assembleia… O Carlinhos, limitou-se a apanhar as pedras espalhadas pelo chão, uma vez que o senhor António já estava prestes a lançar o ralhete da ordem...
A ambulância Chevrolet NM-12-89, -relíquia nacional- saiu a “grande velocidade” para socorrer uma vítima que estava prestes a afogar-se:
O Chico Bajão, com os seus trinta e quatro anos, foi nadar para o Rio Cávado, junto ao matadouro onde havia alguns poços traiçoeiros e, como nadava muito pouco, foi arrastado pela corrente e começou a deslizar pelos fundos arenosos do leito do rio.
O João Carlos saltou para um barco à procura do Chico e lançou-se à água e conseguiu, após porfiados esforços, amarrar a vítima, puxando-o para dentro do barco, já muito desfalecido e inconsciente, pois tinha permanecido dentro da água, pelo menos, durante dez longos minutos.
O Chico foi colocado numa maca e transportado para o Hospital Valentim Ribeiro e, posteriormente, para o Hospital de Barcelos, onde esteve um mês em ”coma”, sendo o diagnóstico dos médicos muito reservado.
O amigo Chico conseguiu, milagrosamente, recuperar e actualmente faz uma vida normal, deslocando-se na sua motorizada, pelo concelho de Esposende, sempre à procura de novas aventuras. Nas garraiadas em Vila Chã, Santarém e Ribatejo, o Chico esteve presente em muitas delas, assumindo atos de coragem perante as investidas dos touros e tem ganho muitas apostas nessas garraiadas, apesar de já ter partido várias “costelas”…
Numa garraiada em Vila Chã, em plena festa de S. Lourenço, o Chico, incentivado pelo Adelinho Vilas Boas, foi enfrentar um touro, não muito corpulento, respondendo a uma aposta da Comissão de Festas e ganhou cinco contos mas as mazelas ficaram: sete costelas partidas e uma “hospedagem” no hospital…
O Chico, homem humilde e brincalhão, aparece muitas vezes na lota de Esposende, sendo pessoa muita grata já que nunca mais se esqueceu do Dr. João Carlos que lhe salvou a vida, junto ao matadouro e os galos que gentilmente lhe ofereceu, como gratidão, jamais pagará a vida, que lhe foi salva pelo corajoso João Carlos, cardiologista esposendense de renome, que os esposendenses muito se orgulham.
O Chico Bajão nunca mais deu um mergulho no rio, apenas nada nas piscinas, mas com a água pelo peito…..
CANTINHO DOS LOBOS DO MAR por Carlos Barros
“A falsa
goleada….”
Em plena
ribeira, num sábado solarengo, o Pezinho e o Geno depois de tirarem o pilado das redes no paredão,
transportaram-no em gigas, para frente do Salva-vidas, para a secagem porque já estava vendido a uns lavradores de
Palmeira do Faro, e com a tarefa finalizada, combinaram ir a Vila Chã, para assistirem ao Vila Chã-Esposende
para o Torneio Popular inter-freguesias.
O Marrucho, velho amigo, com as suas sobrancelhas peludas e umas suíças a chegarem aos cantos
da boca, tinha convidado estes velhos amigos para o referido jogo e
prometeu-lhes umas malguinhas no bar, caso o Vila Chã ganhasse. E o Marrucho
ainda foi mais longe: prometeu aos manos “Vilas Boas” uma malga por cada golo
que o Vila Chã marcasse ao Esposende!
Os dois
irmãos lá foram a pé até ao alto de Vila
Chã, em direção ao campo do futebol para apoiarem o Esposende-E.S.C. que, nessa altura estava, a participar no
referido torneio popular, no qual participavam várias freguesias do concelho:
Apúlia, Góios, Marinhas, S. P. Antas, Palmeira de Faro…
Por Esposende reinava a calmaria e a ribeira estava
deserta, sem crianças, porque o domingo era para passear, ir à missa e à catequese
e os sapatinhos novos, quem os tinha,
não eram para jogar à bola, para não se
estragarem.
Pelas treze horas, depois de um almoço apressado, os dois irmãos puseram-se a
caminho de Vila Chã, galgando a subida
de S. Lourenço, num passo ritmado e
acelerado porque a secura já estava a apertar a “goela”…
Quando chegaram ao campo pelado do Vila Chã, lá estava o Marrucho à espera dos
convidados que apareceram a suar por todos os poros da pele e valeu-lhes a
boina preta do Pezinho para limpar o
rosto destes dois caminhantes.
Vamos, para começar, beber uma malguinha ao bar,
disse o Marrucho ao Pezinho e ao Geno porque com este calor, morremos de secura…
No balcão de
madeira, decorado com casca de pinheiro e cheirando a resina, duas malgas deslizaram em direcção aos três amigos e
num ápice, o vinho evaporou-se…
Chegada a hora do jogo, o Pezinho, sempre estratega,
propôs uma aposta ao Marrucho.
Marrucho, vamos fazer uma aposta?
Diz lá Pezinho
qual é essa aposta, questionou o
Marrucho com a sua grossa e “arrastada” voz!
O Pezinho
olhou para o Geno, coçou a cabeça e adiantou:
- Por cada golo que o Vila Chã marcar, pagarás uma tigela de vinho, aceitas ou não
Marrucho, perguntou o Pezinho ao seu velho amigo.
O Geno, no canto, do Bar, coçava o nariz e piscava o
olho ao irmão porque antevia uma aposta, quase ganha…
O Marrucho olhou desconfiado para o Pezinho e sem
hesitação respondeu-lhe:
-Nem é tarde, nem é cedo, aceito a proposta…
O jogo tinha começado e gritou-se golo!
Golo de quem, perguntou o Marrucho!
É do Vila Chã.!
O Marrucho
todo contente mandou vir uma rodada para a mesa que logo desapareceu…
Mais um golo! Mais outro golo! Um outro ainda!
São golos do Vila Chã, gritava o Geno que ia
espreitando para o campo quando se gritava golo.
Na realidade,
foram marcados oito golos, mas os sete
foram do Esposende e um do Vila Chã…
O Marrucho depois de pagar as sete rodadas do
saboroso e carrascão vinho tinto, saltava de contente pela “vitória” do Vila
Chã por sete a um, mal ele sabia que o
resultado tinha sido ao contrário! O astuto e cúmplice Geno, para conquistar as malguinhas, falseava o resultado !
O Marrucho, já
à saída do campo saltava de contentamento e de incontida alegria pela “vitória” do Vila Chã,
um resultado histórico conseguido pela sua equipa perante o poderoso Esposende
Sport Clube, filiado na Associação de F. de Braga.
O Juca
que observava a alegria do Marrucho, abeirou-se dele e
perguntou-lhe:
- Porque estás
tão contente Marrucho?
É que o nosso Vila Chã ganhou e logo por sete a
um!...
O Juca surpreendido, chamou pelo Marrucho e
disse-lhe, em voz alta:
O Vila Chã perdeu, mas foi por sete a um!
O que estás a dizer Juca!
É verdade, eu vi o jogo acrescentou o Juca.
Claro, que
sofremos uma grande “capilada” e podiam ser por muitos mais…
Bandidos, o Pezinho e o Geno enganaram-me e beberam sete rodadas de vinho à “minha
conta”, lamentou o Marrucho, com um ar
furioso e ameaçador.
Os dois irmãos já se tinha despedido rapidamente do
Marrucho, antes que este descobrisse a
“marosca”, e já “encharcadinhos”, desceram o S. Lourenço em marcha vertiginosa
em direcção a Esposende e mal chegaram à Vila foram sentar-se no Largo dos
Peixinhos, sobre as frondosas árvores para curtir a “piela”.
O Geraldo, o “De Gaulle” que estava patrulhar o Largo dos Peixinhos, abeirou-se dos manos e
perguntou-lhes porque estavam tão vermelhinhos…
Geraldo
faz-nos um favor?
Claro que faço, se me derem duas croas para uma malguinha na
Nazaré, faço o que vocês quiserem, respondeu prontamente o Geraldo, vestido a rigor com o seu boné de
“almirante”…
Olha, se o
Marrucho aparecer por cá, avisa-nos?
O Geraldo olhou de soslaio para estes seus dois
amigos, coçou o pescoço e desconfiou que cheirava a esturro…
O Geno pôs a mão ao bolso do seu casaco de xadrez e deu, com muito custo, as duas croas ao Geraldo, que tinha ganho na venda de uma dose de isca a um turista de Barcelos, pescador desportivo,
cliente assíduo na lontra, junto à foz do Cávado.
Nessa tarde, o
corpulento Geraldo patrulhou toda a zona limítrofe do Largo dos Peixinhos
e felizmente, para os irmãos Vilas Boas, o Marrucho talvez já muito “entornado”,
não apareceu na vila.
Pela noitinha, o Pezinho e o Geno, levantaram-se dos
bancos ripados do Jardim, já recuperados da longa soneca, dirigiram-se para as suas casas, no Bairro
de S. Vicente Paulo, para comerem o
caldinho e um naco de broa com umas fanecas fritas.
Pelo caminho de regresso a casa, o Geno disse ao seu irmão Pezinho que aquelas
sete malguinhas, já “cá cantavam” mas que tão cedo não iria a Vila Chã….
O Pezinho,
olhou para o mano Geno e deu-lhe um
abraço pela “vitória” conseguida,
concluindo que tinha dado a “volta” ao espevitado Marrucho e ir a Vila Chã, tão cedo, nem pensar…
CANTINHO DOS LOBOS DO MAR
Uma “gaivota “ quase fisgada…
Carlos Barros
O
relógio da torre da Igreja matriz marcava
a partida das motoras para o mar: três horas da manhã.
Na travessa dos pescadores, está o acostumado alvoroço
nas casas, com os preparativos para a
faina da pesca, mulheres arranjando a “marmita”- Baú- do almoço, com a
garrafinha da vinhaça dentro de uma saca de pano xadrez, feita pela costureira
Jandirinha, na sua novinha máquina de costura Oliva, de cor esverdeada, anunciando
esperança para uma boa pescaria.
O Saganito já vai à frente em direção ao cais,
onde a motora o espera, com a restante tripulação já a calcar a relva da
ribeira e a “enxotar” a orvalhada que se colava nas ervas e juncos.
Mais atrasado
o Luisinho - Luis André Eiras- com as suas galochas esverdeadas e o seu casacão
de xadrez, acelerava o passo na direção à motora Torrão da Berta Bichesa. O Zé
Pereira dos Passos, mais conhecido por
“Zé Tolo” já se encontrava dentro da motora esfregando os olhos “arremelados”, expulsando o sono que teimava atormentá-lo.
O Luisinho, que abandonou a escola aos oito
anos, era um pescador experimentado, tendo sido tripulante de várias motoras e
catraias -Santa Maria dos Anjos, catraia Senhora da Saúde, Rainha dos Anjos,
Claúdia Cristina, Senhora do Triunfo, 1º de Abril, Chiquinha e da motora Marco Filipe do senhor José Nibra. Começou a
andar ao mar aos onze anos, ainda uma criança, em que as exigências da vida, lhe tirou o direito de brincar, como a muitos
outros rapazinhos.
O mestre Luisinho, completou cinquenta e cinco
anos de árduo trabalho no mar, sempre com a barra a ameaçar tragédia…
O Luisinho pescador arguto e corajoso, na
motora Torrão, ia sempre na casa do leme
e era homem de confiança de toda a tripulação. Já tinha vivido uma situação
trágica, num naufrágio com uma catraia- O Temerário-, à entrada da barra,
embarcação do Sebastião, pai do senhor Belemino Ribeiro. Nesse triste dia, o
Lázaro, o Bocage, foi engolido pelas mortíferas ondas do mar, morrendo afogado. Nesse mesmo dia, em terra,
o Café Copacabana, de um vilaverdende, foi devorado pelas chamas, apesar da
pronta e corajosa atuação dos Bombeiros
Voluntários de Esposende, comandados pelo João Conde Evangelista. Uma triste e
lamentável coincidência em que a tragédia e a tristeza estiveram de braços
dados…
O Torrão
partiu do paredão em direção ao mar, com a tripulação ocupada nos derradeiros arranjos das redes e linhas de pesca, com o Zé
dos Passos já arrebitado, tirando alguma água da motora, com o “vertedouro”. Chegados ao destino, toda a tripulação largou as redes, com o
Luisinho direcionando a proa da motora
para leste onde a “sonda rudimentar” indicava uns cardumes de peixes.
No regresso, depois de umas horas de trabalho
a largar as redes o Candinho, mais conhecido no seio da classe piscatória por “gaivota” andou sempre a “pegar” com o
Zé, fustigando-o com ameaças,
arreliando-o durante a viagem.
O
Luisinho, homem pacato e de “bons modos”
tinha avisado o Candinho para “acabar com aquilo”, avisando-o para deixar o “homem em paz”. O
Candinho, sempre irreverente continuou a
arreliar o “peguinha, voa a voa”, perante o desespero do Luisinho e
este, não está com “meias medidas”, pega no bicheiro para fisgar o Candinho
mas, este num gesto rápido e intuitivo, desviou-se e o fisgado foi o Zé no
ombro direito.
Ai que eu morro, gritava o Zé aflito com os
anzóis cravados na “grossa roupa” que o
protegia!...
O
Luisinho deixou o galheiro e tirou os
anzóis, enforcados no casacão do Zé que, por felicidade, não tinha sido
atingido no ombro contudo, continuava a gritar dizendo que estava “aleijado” e que queria ir “p´ró hospital!…
O Candinho,
colocou-se na proa do Torrão e nunca mais “abriu o bico” até chegar ao cais,
com receio que o Luisinho mandasse outra “bicheirada “, esta mais acertada…
O falecido
Ilhoca, na poupa, observando as gaivotas que seguiam a motora, ria-se “a perder”
perante o desesperado Zé que só olhava
para o ombro “gravemente” atingido…
“Ai que eu
morro, minha mãezinha acuda-me”, continuava o Zé a gritar, mirando o ombro.
O Zé continuou com a gritaria, protestando
contra o Luisinho e só se calou quando no cais, o Ilhoca lhe tirou a roupa e
viu que o ombro estava “sãozinho” como uma cereja…
Entretanto, a motora Torrão foi ancorada e presa pelos cabos no cais e o
Zé, com o baú na mão, lá se dirigiu para a rua de S. João onde o esperava a sua
mãe, a tia Adelaide já com o “caldo” na mesa e umas fanecas fritas a acompanhar
uns parcos grãos de arroz carolino, comprado na mercearia do Abílio Coutinho.
A noite invadiu
o bairro de S. João e todos os pescadores recolheram às suas camas, acomodados
aos “colchões de palha”, de vez em quando, acordados pelo despertar de algumas
pulgas que se preparavam para “almoçar”,
atacando e pele áspera e dura, dos nossos “heróis” pescadores que
raramente acordavam, tal era o cansaço de tanto trabalhar contra as intempestivas águas do mar.
Estávamos
em plena época natalícia e era tempo das férias de Natal, momento para
as grandes aventuras, com a mente destas crianças da ribeira, viradas para o
Pai Natal, presépio e para as saborosas mas,
modestas , prendas no sapatinho.
Nos anos sessenta e setenta, a “rapaziada” da
vila de Esposende, tinha os seus
territórios definidos e eram acérrimos defensores
dos mesmos: o Norte e o Sul. A Central,
a Lagoa e o Jardim, eram “domínios” com
pouca presença “militar” e em momentos “quentes”, distribuíam-se pelo Norte ou pelo Sul.
No
território sulista, imperava o
secretismo porque os “altos comandos”, “O Speedy”, Fernando “O Poupinha”,
Chico Viana, Chico “Manata”, Mário
Trabuqueta e o Gonçalo estavam em reunião, num barraco- Escola Naútica de
Esposende- pertencente ao Quim serralheiro.
O “itinerante” e respeitado Quim Tripas, com a sua armadura em cartão
duro e uma espada em madeira, de cor prateada, mantinham a segurança ao
acampamento. As hostes sulistas receavam
incursões dos nortistas mais belicistas, já que o “renegado” nortista Fernando
Quintino, habitante da “fortaleza de S. Vicente de Paulo”, tinha sido visto a vigiar o acampamento, pelas
“bandas” da casa do Fernandinho e da “Minórica”.
Com “mapas
marítimos”-portulanos, feitos com papel grosso de embrulhar o bacalhau,
e rascunhos, elaborados magistralmente pelo cerebral “Speedy”, traçavam-se planos
de atuação para a grande
“Expansão Marítima” ao rio Cávado, tentando descobrir-se novas
ilhas (torrões no meio do rio) e expulsar as gaivotas e maçaricos que tanto
incómodo causavam a estes ousados
exploradores e navegadores.
Era necessário uma “Nau” e o
Chico Viana, levantou a voz
dizendo que tinha uma em casa, o que criou “suspense” em todos os navegadores
presentes. Em grande correria, o Chico foi a casa, aproveitando a ausência da
mãe, que tinha ido à ribeira estender roupa para corar, e na sua sala estava um grande baú que guardava a roupa
da família.
Sem hesitar, o Chico arrancou, com um martelo enferrujado, as dobradiças do tampo do malão, os pregos voaram contra o estuque da parede, e a improvisada “Nau” foi trazida às costas, para junto dos seus amigos que estavam ansiosamente à espera da prometida embarcação, a “Nau Chiconeta”-Catrineta-.
Sem hesitar, o Chico arrancou, com um martelo enferrujado, as dobradiças do tampo do malão, os pregos voaram contra o estuque da parede, e a improvisada “Nau” foi trazida às costas, para junto dos seus amigos que estavam ansiosamente à espera da prometida embarcação, a “Nau Chiconeta”-Catrineta-.
Quando os “navegadores guerreiros” viram
a barcaça, foi o delírio !
Quem vai ser o Capitão do Barco, questionou o
Mário Trabuqueta, também conhecido por “Faísca”?
O
Gonçalo , gritou :
- Tem de ser o Quim
Tripas que é o mais velho e corajoso e
nada como um peixe !
Meus amigos, é preciso muita corda para prendermos
a “Nau”, apelou o “Speedy” aos seus
subordinados, que estavam a comer umas
uvas “surripiadas “ do campo do Emilinho, na noite anterior.
Passada
meia hora, a rapaziada tinha trazido vários metros de corda necessária para o empreendimento marítimo.
A “Nau”, que tinha sido colocada , junto do
campo do Emilinho, foi levada para o cais sul para os preparativos finais. As
expectativas eram enormes em descobrir “novos
mundos e novas paragens” e cerebral “Speedy”, o “grande Infante D.
Henrique”, mandou prender a “Nau” à extensa corda, cheia de nós, à proa
“quadrada” da embarcação, cujo casco era
de luxo, já que era forrada ou calafatada com couro grosso tornando-a
resistente e impermeável.
Os aparelhos de
navegação limitavam-se, não a um astrolábio improvisado, mas um “quadrante”-
quatro navegadores- que faziam os seus
palpites a “olho nu-”.
O grande “capitão de Mar”, Quim Tripas
descalço, meteu-se dentro da “Nau”,
equilibrando-se, e com a maré a encher, lá foi navegando em direção ao
“desconhecido” ou melhor, aos torrões .
A rapaziada no cais, comandados pelo burguês
mercantil, Trabuqueta, vestido de calça
branca, com fidalguia, ia largando lentamente, a corda até que esta “acabou” e a “Nau” começou a balançar
perigosamente, contra as ondas do “Oceano Cávado” e o inesperado aconteceu: a “Nau
Chiconeta” naufragou e afundou-se na “fossa de Mindanau- poço do
Matadouro- e o Quim Tripas, excelente nadador,
com umas braçadas chegou a terra firme, sendo aplaudido pelos restantes navegadores e guerreiros do clero
esposendense.
Se a
minha mãe descobrir não irei ter prendas, neste Natal, no sapatinho, lamentava o Chico!
Não há problema, disse o ilustre “ Infante
D. Henrique”, amanhã iremos descobrir a “Nau” no fundo do rio, e trazemo-la
para tua casa…
O Chico, nessa noite nem dormiu e a sorte
dele é que a mãe, Elisinha Alves, ainda não tinha, milagrosamente, notado pela falta da tampa do baú .
Pela manhã, o “exército” reuniu, sob o
comando do Quim Tripas, recentemente promovido a “Capitão de Barco” e, com a maré vaza, lá foram para o meio do rio até ao local do naufrágio.
Com tanta sorte, lá estava a “Chiconeta”
enterrada no areal, já cheia de limo e com irões e caranguejas a deleitarem-se sobre o forro de pele, espreguiçando-se, no cavername da
“nau”.
A
“Chiconeta” foi transportada para terra, com o Chico todo sorridente, com a recuperação da faustosa embarcação…
O restante “maralhal” foi para o acampamento
para prepararem as espadas e os cavalos para a guerra Norte-Sul que se
aproximava.
O Zé Alberto dispunha de material de guerra
moderno, como espadas, elmos e armaduras
em folheta zincada, feito na oficina do pai, o que provocava inveja aos seus companheiros combatentes cujo modesto armamento,
era feito de madeira dos caixotes do sabão e de latas das salsichas, como escudos. O exército popular dispunha de
simples arcos e flechas de vime verde e resinoso,
apenas o Armindo “carabina”, dispunha
desse armamento, feitos com varetas de
guarda-chuvas, última tecnologia da moda!
Já em
casa, a Elisinha, mãe do Chico, pela
noitinha chamou-o e disse-lhe:
Que
mala é esta, quem foi que fez isto?
O Chico
abanou a cabeça e tremendo como
“varas verdes” respondeu que nada sabia…
Está
bem, meu menino, desabafou a bondosa
Elisinha, mas eu, nem quero saber mais da história porque senão temos festa
aqui em casa…
O Chico serenou, foi para a cama e dormiu um
sono profundo, sonhando com os grandes
navegadores portugueses e com o grande
Quim Tripas e “Speedy”, o “Infante D. Henrique de Esposende”, que enfrentaram
as sombras das Torres do Ofir- Adamastor-
e as mortíferas vagas do rio Cávado.
Nesse ano de mil novecentos e sessenta e um,
num tempo de paz e harmonia, com o Natal “às portas”, foram declaradas tréguas entre o Norte e o Sul, não
por muito tempo, porque estas crianças aventureiras e irrequietas, precisavam sempre de ação e para elas, parar era
morrer!
CARLOS BARROS
No cais norte, muitas peixeiras esperavam
pelos “lobos do mar” e, enquanto que estes não chegavam, seguiam-se gritarias, balbúrdias, confusões,
algazarras e discussões sobre a venda e o lucro do peixe vendido no dia anterior.
A tia
Silvana, tia Criolice, tia Genoveva,
Inocência, tia Antónia, tia Carolina, Antónia da Galga, tia Ondina, tia
Torcata, tia Maria Grande, tia Graça, Amélia Pichela do
Curico, tia Cila, entre muitas outras
“tias”, estavam todas presentes no cais, sob o olhar desconfiado do guarda-fiscal, prontas a comprar o peixe, arrematado pelos
pescadores das catraias e afinavam a grossa voz. Pareciam “rouxinóis” enrouquecidos…
Ao
longe, entrando na barra em direção ao “dorso do Cávado”, com a sua “pele”
luzidia e azulada de um tom celeste, as
catraias iam chegando, uma a uma, com a
corpulenta Cornuda à frente, perante a
alegria das peixeiras que auguravam, pelo seu semblante, abundância de peixe, especialmente de raias,
peixes-sapos, feiticeiras e muita
faneca.
Com remadas fortes e ritmadas, as
catraias acostaram ao cais, com as suas ancoras lançadas para o fundo do
rio, bem presas e começa o festival da descarga do peixe com os gigas cheinhas
a transbordar de pescado fresquinho,
raias a “esbracejar”, cações a
“resmungarem”, lavagantes e lagostas
“espreguiçando-se” nas cavernas das catraias, congros apelando à vingança, peixes-sapos moribundos fisgando o ”infinito”,
peixes-rosas com o seu ar angelical, cações
mordendo o ar, as fanecas
coitadas, já todas com a certidão de
óbito, assinadas pelos “moços” das catraias.
O
peixe lançado na rampa do cais, foi logo arrematado pelo Sampaio, tio Miguel e Muchacho e , passadas umas breves horas, foi
todo vendido e colocados nas gamelas das peixeiras para ser vendido em
Esposende e aldeias do concelho: Góios, Palmeira, Fão, Marinhas, S.Bartolomeu do Mar, Belinho e mesmo em
Forjães, após longas caminhadas de quilómetros infindos.
Estas mulheres corajosas iam a pé a
Barcelos, por vezes duas vezes: de manhã levavam sardinha e à tarde faneca e
saiam de madrugada de Esposende, às duas ou três horas da manhã, com o sol dormindo em sono profundo.
Nessa manhã, a última catraia a ser
limpa foi a do José dos Passos Pereira, apelidado por “Zé Tolo”, filho do saudoso Albano P. Laca e
da Tia Adelaide, e o Zé era peculiar pelo seu tipicismo e forma de estar na
vida. Era um fervoroso adepto do Sporting e do Esposende Sport Clube e, mais
tarde, da ADE, um sócio sempre com as
cotas em dia. Era um apaixonado e colecionador
de bandeiras e “galinetes” (galhardetes)..
Nessa
tarde, o Zé foi vigiar a catraia ao cais
norte e convidou o Toninho Rego-António Marques Rego- a acompanhá-lo numa curta
viagem pela ribeira, fintando os juncos e os varais com algumas raias e polvos a secarem sob
auspicioso sol que se fazia sentir.
Chegados ao cais norte, o Zé e o Toninho
entraram, por mera curiosidade, num
barco de recreio, com um reluzente motor
“Evinrude” , ancorado na rampa , e estenderam-se de barriga para o ar,
apanhando os raios solares, bronzeando-se com uma esfregadela de água doce, com
limo à mistura.
Com aquele solinho relaxante , os dois amigos adormeceram por
momentos, com a maré a descer-vazar-
e com a embarcação de recreio a
soltar-se das amarras, sem eles se aperceberem que o barco ia deslizando, em direção à barra.
Num ápice, já com a cabeça atormentada pelo
forte sol que se fazia sentir, estes amigalhaços acordaram da soneca e viram-se
perdidos, sem remos e muito menos leme ou vela !
Começaram a pedir por socorro e os gritos
espalharam-se pela marginal e a ribeira,
como sempre, estava ocupada com jogos de futebol norte-sul, mudando aos cinco e
acabando aos dez, com uma arbitragem sempre polémica porque nesses jogos tinha de haver zaragata, fazia
parte dos “regulamentos da ribeira”…Até
a maçaricada que estava a
bicar no lodo, levantou-se assustada!
O tio Laguna
do Salva-Vidas, tocou a sineta e os tripulantes do salva-vidas rapidamente chegaram, em longas correrias.
Já dentro do Salva-vidas “Vasco da Gama”, os
remadores, com fortes remadas, foram ao encontro do Toninho e do Zé, cuja
embarcação estava prestes a entrar no mar. O Tio Laguna saltou para
dentro do “barco dos aflitos”, amarrou o barco com uma corda ao
salva-vidas e trouxe-o a reboque até ao
cais norte.
Todos
chegaram salvos a terra e o Zé, “Peguinha, voa, a voa…” saiu
apressadamente do barco, e na rampa do cais, amarrou-o às argolas do paredão,
com o Toninho a reforçar os nós, não vá soltar-se novamente…
O dono da embarcação de recreio, banhista de
Braga, ficou enriquecido com este novo
“currículo” do seu barco: uma viagem alucinante, rumo ao desconhecido…
O Zé olhou para o Toninho, com os cabelos
“eriçados”, pelo pânico , disse-lhe:
-
Toninho, eu não tive culpa., o culpado
foi a maré que estava na vazante e pensava que estava na “cheiante”…
Não há problema , amigo “Zé”, eu não digo ao
teu pai Albano Laca pois, se ele soubesse , “dava-te cabo do corpo” e eu não
quero que isso aconteça…
O Toninho Rego era um bairrista de “quatro
costados”, de convicções fortes, respeitador, crítico, dedicado e cumpridor e
era um excelente cozinheiro e doceiro.
No dia vinte e oito de janeiro, de mil novecentos e noventa e sete, o Toninho
“deixou-nos“ para sempre e Esposende ficou mais pobre com perda deste seu ente querido.
Esta aventura terminou num silêncio
comprometedor entre estes dois amigos e muitos outros esposendenses que
souberam desta insólita e surpreendente viagem ,que poderia redundar em
tragédia…
No dia
um de dezembro, José dos Passos
Pereira, morador na rua 5 de outubro, dias históricos- 5 de outubro e 1º de
dezembro- deixou de pertencer ao “elenco dos vivos”, deixando-nos saudades.
No
“lusito celestial”, estes esposendenses continuam a “navegar” nas águas serenas do Paraíso, abençoadas
pela ação divina, norteada pela agulha de marear dos arcanjos.
Caranguejos à “Luz do dia”…
por Carlos Barros
O rio Cávado,
embora sonolento, despertava e, com as suas
águas límpidas e espelhadas, corria vagarosamente para montante, beijando os
juncais, o limo que serpenteava no leito do rio e a bodelha, airosamente
dançava, agarrada à penedia que a acorrentava.
As gaivotas
argentíferas espalhavam-se nos areais, atentas ao que se passava à superfície
do rio, arregalando os olhos quando uns
peixinhos, ainda alevins, vinham à superfície, provocando pequenas ondulações que
se perdiam contra os baixios das “croas”.
A motora do
João Libânio, “Flor de Esposende” ficou
atracada , nesse sábado e a sua tripulação ficou em terra para “arranjar” as
redes contudo, nesse tempo de penúria social e económica,
urgia encontrar meios de subsistência e o Dimas e o João, ainda jovens, eram
pescadores muito trabalhadores e não desperdiçavam oportunidades para pescar no rio ou mar, quando este deixava…
Em terra
também “pescavam” nos quintais onde
abundava a fruta…
O Dimas –Dimas Sousa Alves Miquelino-e o João da
Libânia,- João de Lemos- nessa manhã
não foram ao mar e combinaram uma pescaria
aos robalos ou aos negrões que
percorriam a borda do mar, a umas escassas quatro milhas da
costa.
A embarcação “Luz do Dia”, pertencente ao Tone Fifas
-António Pinto de Jesus Nibra-
matricula “ES 116 L”, movida por um pequeno e enferrujado motor “Yamaha”
de vinte cavalos, apetrechou-se com uns
tremalhos, já a pedir “aposentação”,
vindos de uma motora e, na rampa sul, partiu em direção ao mar que
estava relaxado na sua imensidão.
Com a
terra a desaparecer do alcance destes porfiados pescadores, foram lançadas as redes ao mar, e só restava
esperar por uns dias para alar os tremalhos na esperança de uma boa pescaria.
A embarcação navegou, de regresso à
terra, durante uma hora, aplanando pela superfície deslizante do mar e sob o olhar de
cardumes de cavalas e negrões que
nadavam à tona da água.
A “Luz do Dia” aportou, pela tardinha, na
rampa do sul, com os dois pescadores
animados, perspetivando uma boa pescaria, num regresso ao seio das suas
famílias.
Passados
três dias, os nossos heróis,
pegaram no barquinho do Tone do
Fifas, e com a luz do dia a romper o horizonte, foram alar os tremalhos .
Já em pleno mar,
as redes
foram aladas, e milhares de
caranguejos, navalheiras e algumas santolas “barbudas”, começaram a entrar no barco e robalos nem
vê-los!...
Meus Deus, que é isto gritava o João para o
seu amigo Dimas!
Estamos
desgraçados, isto não dá, nem para a gasolina que gastamos, lamentava o João da Libânia.
Maldita hora que
viemos para o mar, antes ficássemos na Nazaré a beber umas malgas de vinho, com
uns nacos de bacalhau frito, concluía o Dimas, que suava por todos os poros da
pele, de tanto puxar pelas redes cheias de “marisco” de terceira.
Passadas umas
breves horas, o barco ficou cheio de caranguejos e a borda da embarcação estava a
um palmo da superfície das águas e uma breve inclinação era naufrágio
pela certa.
O Dimas, teve
que sair do barco no baixio, e empurrou-o cuidadosamente ao longo da restinga
de areia sempre “pró“ sul até à direção
da “Casa do Povo” e, chegado a este
ponto de referência, saltou para dentro do barco. Com a vara, o João começou a
acionar “o motor” dos músculos e a “Luz
do Dia”, atracou na rampa, em frente da casa do sr. Belemino onde o
esperava, a Cândida Saganito e a Carmo Fifas esperançadas em vender alguns
robalos aos banhistas.
O Jerones que
andava às lagostas nas pocinhas do matadouro,
veio dar uma ajuda para desmalhar os caranguejos que não se
cansavam de atacar com as suas tenazes serrilhadas as mãos calejadas destes
dois amigos.
O barco mal
atracou na rampa, repleta de limo, foi recebido pela Cândida e pela Carmo que ficaram
desesperadas perante a mísera pescaria e
desabafaram:
- Meu Deus, quem nos irá comprar estes caranguejos
todos?
Ainda bem que
enquanto esperava, peguei numa enxada e num caco e fui à isca e ganhei o dia,
com menos trabalho, e fui mais esperta que vocês, desabafou a Cândida Saganito para o Dimas e João, de rostos
amargurados.
Coçando a
cabeça o João Libânio tristonho sugeriu que se levassem umas
sacadas destes crustáceos ao Dr. Jorge Moreira e ao Castro da Mercedes de
Barcelos que estavam de férias em Esposende para ver se “caia alguns trocos” na
algibeira…
A Cândida foi
buscar o seu “Toyota” – carrinho de mão- e encheu-o com centenas de
caranguejos e foi vendê-los porta a porta, tendo passado
pela Havaneza, Berta Bichesa e o António
do Sul que ficaram com umas sacadas de caranguejos para os clientes petiscarem, com umas cervejas cristal a
acompanhar, naquelas tardes de sábado e
domingo, dias de repouso dos pescadores.
Nesse dia, toda a caranguejada foi dada e
vendida tendo a Tininha e o Manel Monção levado um bom quinhão. O Manel, saudoso amigo, foi comê-las ao Marino, bem
cozidinhas e com piri-piri a “chamar” malgas de vinho para apagar o calor…
A Tininha no seu carrinho foi vendê-las a
Palmeira do Faro e a Perelhal, juntamente
com margotas, bodiões, salemas e algumas tremedeiras dadas pelos mestres das
motoras.
O Dimas depois de
ancorar o barco, olhou para o João da
Libânia e disse-lhe:
- Cunhado, tão cedo não irei às
caranguejas antes prefiro ir à isca!
Dimas, sou um
pouco resmungão, mas agora estou de acordo contigo, acrescentou o João da
Libânia, já de regresso a casa…
09 de julho de 2013 -(entrevistas com o João Lemos e
Dimas Miquelino)
Uma caçada atribulada.
Por CARLOS BARROS
Decorria o ano de mil novecentos e sessenta
e três, pela tardinha, junto à igreja Matriz, e a garotada estava já nas suas aventuras
com o Tonho, Melro e Hilário, este sempre medricas, em plena rua, a
imaginarem estratégias para a malandrice.
Nesse dia, o Tonho não tinha ido às solhas com
a equipa dos costume, Carlos da Arranca, Miguéis e o pai, senhor João Calhandra,
tudo em família e resolveu “virar-se
para a Natureza”, nas suas habituais aventuras.
Junto
à casa do Tonho existiam duas grandes e frondosas árvores e as flauzinhas, aves
simpáticas e irrequietas, dançavam de ramo em ramo, preparando a dormida, uma
vez que a noite estava prestes a chegar.
O Tonho e o Melro, como sempre hábeis
caçadores de pardais, pegaram nas suas “afungas” e começaram a atirar às
flauzinhas, com aqueles godos redondinhos apanhados na praia ou junto aos
materiais de construção.
Tanto azar que estes rebeldes foram
surpreendidos por um GNR que estava no
patrulhamento à caça “das
crianças”… O agente, de “plainites
“sebosos, pediu a fisga ao Tonho, que
estava prestes a entregá-la à autoridade, quando, de repente, o Melrinho, gritou para não lha dar. O Tonho não teve com
meias medidas e começou a fugir pela estrada fora, com o Melrinho num longo
“sprint” ficando o GNR todo furioso pela inesperada fuga destas duas crianças
sempre irrequietas e aventureiras.
No dia
seguinte, foram chamadas ao posto e quando entraram neste tenebroso e
repressivo lugar, o guarda republicano pegou num cinturão para castigar estes
infratores. Com um ar ameaçador, o GNR olhou furioso para estas duas “trutas” e
mandou cada um deles dar uma chapada um ao outro e, com muito custo, estes dois
garotos lá deram a bofetada da praxe. O Melro, de mão pesada, deu um bofetão mais
forte, ao Tonho e este ameaçou-o:
-Lá fora “vais comer” forte e feio…
Quando iam sair do Posto da GNR, o Cabo
perguntou ao praça porque razão aqueles malandros não estavam presos?
-O agente respondeu que eles já tinham “levado no lombo…”
Já na
rua, o Hilário juntou-se a estes seus amigos e com a fisga ao pescoço lá foram
eles para novas caçadas às flauzinhas, melros e charréus para os campos do Quim
da Obra e por entre os silvados, com o Mouquinho a juntar-se à `”quadrilha” porque tinham de ter caça para
o jantar e a fritadeira estava à espera dos pássaros.-
O “graem, graem…” caça aos melros…, gritava
o Mouquinho!
No regresso o Tonho viu umas “luras” de
abelhas e começou a “chuscar” e de repente, o enxame atacou-o furiosamente e o Albano
“Penico” que se encontrava escondido, atrás de uma figueira, foi picado várias
vezes.
Os nossos amigos, meteram-se entre os
milheirais dos campos do Zão e puseram-se a salvo, depois de tropeçarem numa grande abóbora.
Quando
todos chegaram a casa pela noitinha, o
“triunvirato” entrou, cada um nas suas casas, com as mãos na cabeça, premiados
com “galos” e juraram nunca mais se meterem com as abelhas.
AGOSTO/CARLOS
BARROS
Por CARLOS BARROS
A motora Filomena Antonieta, com o mestre João Careca ao leme, regressava do mar depois de uma boa pescaria e no porão, reinava a boa disposição entre todos os seus tripulantes, sendo dos mais animadores o Romão Miquelino, Alfredo Muchacho e o “Morrossol”, sempre vítima das brincadeiras do finado Muchacho.
O sol “espreguiçava-se” e estava quase a desaparecer na linha do horizonte.
Na motora reinava boa disposição e as águas do mar estavam amansadas e “abrilhantadas” por uma serenidade crepuscular.
O Milo, o “Morrossol” e o Muchacho piscaram o Romão para “esquiar”.
Anda homem, não és homem não és nada senão ”esquiares”…
Então, disse o Romão, vai haver agora um espetáculo…
Toda a tripulação ficou em silêncio e o Milo começou a arregalar os olhos para o amigo “Magnório”, esperando a surpresa!
O Romão pegou num “paneiro”, cheio de escamas e “langanhos”, atou-o às cordas do arrasto, que estavam presas à poupa da motora e eis o Romão montado na prancha de “surf”.
O “toda a carga”, gritaram os tripulantes para o mestre João Careca, que estava a “milhas” do que estava a suceder…
Com o motor barulhento e ferrugento da Filomena Antonieta, a “todo o gaz”, o Romão começou a deslizar sobre as águas do mar, feito turista, durante breves segundos.
De repente, o motor da motora abrandou e o Romão mergulhou no oceano, até ao fundo, depois de bater com a “mona” na poupa da motora.
- Morrossol, o Romão desapareceu, disse o Muchacho aflitinho…
O homem está afogado gritou o Chico! Ele não aparece à tona!...
Na casa do leme, o João Careca ao ouvir tanto rebuliço perguntou:
- O que se está a passar aí?
Vai haver “verdoada” grossa!...
- O Romão não aparece e está no fundo do mar, responderam, em uníssono, os tripulantes que estavam a assistir à tragédia.
- Num último ato de desespero , os pescadores puxaram pelas cordas que amarrava a “tábua-surf” e lá veio o Romão agarrado ao paneiro, já branco e com a boca cheia de areia.
Uma vez içado para o porão, com muito esforço do Milo e do finado Muchacho, o Romão levou uns murros no estômago, deitou cá para fora uns bons litros de água e começou a abrir os olhos.
Está salvo, gritou o Milo “Rosas”, todo contente.!
Depois de uns largos minutos de reanimação, o Romão apareceu ressuscitado e prometeu nunca mais andar de “sequi” com esta tripulação “meia maluca” que o ia matando.
A motora Filomena Antonieta quando chegou ao cais para descarregar o camarão e o Romão ainda recuperava as sua débeis forças anímicas.
As peixeiras, embrulhadas nos seus grossos xailes negros, no cais norte, perguntaram:
- João Careca, o que fizeram ao Romão que está branco como a cal?
- Calem-se “almas negras” que ia acontecendo uma tragédia por causa destes três malucos e só me apetecia pegar no bicheiro e fisgá-los a todos, respondeu nervosamente o João Careca.
O Romão foi “descarregado” no cais e, lentamente, dirigiu-me para a rampa do cais, cheio de limo, e estava ainda meio atordoado.
O Milo e o “Morrossol” levaram-no a casa depois de lhe tirarem a areia grossa da boca e dos ouvidos.
Não digam nada ao meu pai, senão dá-me “cabo do corpo”, choramingou o Romão aos seus amigos.
Podes estar descansado, disseram eles, nós não “abrimos o bico”.
No dia seguinte, o nosso amigo Romão, todo aperaltado, com a revista “O último desejo”, emprestada pelo Morrossol” debaixo do braço, fazendo-se de “doutor”, foi passear pela ribeira, tentando-se livrar do grande susto do dia anterior.
O Romão uma vez na ribeira, sentou-se perto dos juncais e varais, onde estava um polvo a secar, começou a folhear a revista do “Último desejo” que o “Morrossol” lhe tinha emprestado e adormeceu uma soneca, só acordando com o chilrear dos “charréus” que comiam as amoras das silvas.
Quando acordou, estava o Morrosssol junto dele e perguntou-lhe:
Já leste a revista, “ó ranhoso”?
O Romão olhou para o seu companheiro e respondeu:
- Sabes qual era o “meu último desejo”?
- Não, disse o “Morrossol” ao Romão que estava meio sonolento.
Olha o meu último desejo, era não te ver mais, desabafou o Romão para o seu amigo…
Um fadista amachucado…
Na
década de oitenta, muitos pescadores de Esposende, deslocavam-se para longas
paragens, indo pescar para mares mais
ricos em peixes, levando as suas motoras para Sagres, Sines, Vila Nova de Mil Fontes onde
conseguiam obter maiores proventos
económicos na sua atividade piscatória, o que não conseguiam em Esposende
porque a barra era “madrasta”.
Foi
o caso da traineira “Flor de Esposende”,
recheada de experientes pescadores: João Muchacho, Dimas Paquete, David Curico,
João Libânio, Tone Pirata e Domingos da Galga,
que se deslocou para Sagres onde abundava o peixe: tamboril, peixe ruivo, corvinas, robalo, rascasso….
O
sr. Domingos Moina, era o fadista
da tripulação e cantava o fado como um rouxinol e certo dia, teve uma queda no porão e ficou com uma
grande mancha na nádega, torcendo-se com dores e não parava de gritar.
O Muchacho, sempre solidário, levou
o amigo Domingos para o beliche da motora,
onde o espaço escasseava e começou a fazer umas massagens na zona
dorida. Com os seus toques de massagista, o Muchacho deu-lhe, propositadamente,
uma pancada mais forte que o tio
Domingos, desesperado com dores, bateu com a cabeça nas tábuas da cabeceira do
beliche, ficando com um grande “galo” na cabeça.
O
velho Domingos não parava de gritar e com mais uma “porrada” forte do João
Muchacho na zona negra da nádega, o acidentado lançou um novo e lancinante grito e bateu com a outra parte da cabeça nas
tábuas e mais um galo na testa do tio Domingos da Galga que não parava de
barafustar contra aquele massagista de “meia tigela” que era o João Muchacho.
A traineira “Flor de Esposende” atracou no cais em Sagres, após a largada das
redes no mar, e a tripulação começou a sair da motora, sendo o último, o tio Domingos
da Galga que cambaleando e com as mãos na cabeça, lá ia segurando os galos
feitos pelo “artesão” Muchacho.
Era
um dia de Verão e na vila de Sagres estavam muitos turistas e o João Muchacho
teve uma ideia genial: organizou uma sessão de fados ao ar livre, sendo o Domingos Moina o fadista que, por sinal,
tinha uma bela voz.
O
fadista, já com a dor controlada dos galos do “Muchacho” começou a cantar e
aquela gente que ocasionalmente passava na praceta, não longe do paredão, onde
estava toda a tripulação Flor de
Esposende, começou a aglomerar-se e o João Muchacho não perdeu a ocasião e
pegou no boné, cheio de escamas de peixe, “langanho” dos congros e começou a
fazer um peditório e as pessoas foram às suas carteiras e em pouco tempo,
juntou-se muito dinheiro perante a alegria do Tone Paquete, do David Curico e
dos demais amigos.
O
Fadista não parava de cantar e as moedas continuavam a cair no boné e o João
Libânio incitava o Domingos a cantar mais, para juntar mais umas moedinhas,
apoiado pelo Dimas que esfregava as mãos de contente enquanto que o Bertinho
ferrava os dentes de entusiasmo e o Tone
Pirata saltava como um “macaco” de alegria com tantas moedas que continuavam a tilintar.
Já
com a garganta seca, o amigo Domingos Moina, cansou-se e mesmo incitado pelo
David Curico e João Muchacho, não podia
mais e só se imaginava numa tasca a
beber umas valentes malgas para acabar
com aquela maldita “secura” no garganil!
O
João Muchacho, com as moedas e notas, bem presas no boné, levantou a voz e deu
por acabado o espetáculo perante inúmeras palmas dos assistentes que não se
cansavam de aplaudir o grande fadista Domingos Moina que já suava por todos os
poros da pele, nunca mais se lembrando dos “galos” oferecidos pelo Muchacho…
No
final, a tripulação da “Flor de Esposende” foi toda em direção
à tasca e mandaram vir umas malgas de vinho tinto, acompanhadas com bacalhau
frito e umas iscas e permaneceram lá
durante duas horitas, tendo o Tone Pirata bebido mais que os restantes amigos.
As malgas de vinho pareciam que voavam… O Tasqueiro trabalhou
mais nesta parte da tarde, a dar de beber a estes sequiosos esposendenses, que
durante a semana toda, afirmando que
esta gente de Esposende bebiam como “camelos”…
As
moedas recolhidas pelo João Muchacho deu para pagar toda a despesa e ainda
sobrou para comprar uns cigarros, mais baratinhos, “Três Vinte” e “Provisórios” para o Tone
Paquete e Domingos fadista enquanto que o David Curico, ficou mais caro, porque só fumava cigarros com filtro: SG Ventil ou Estoril.
Com
as redes “largadas”, durante a noite, a tripulação da “Flor de Esposende” teve um final de tarde muito feliz e na tasca,
já com uns copos entornados, o Domingos Moina, cantou mais uns fadinhos mas, a
letra estava toda “embaralhada” e a
confusão da música levou a que todos regressassem
às suas ”casas”- porão da motora- porque todos tinham de se levantar cedinho
para alar as redes, durante a noite que
se previa friorenta.
Às
duas horas da manhã, estes corajosos pescadores estavam todos a pé, em direção
às motoras que estavam ancoradas no cais e lá partiram, numa manhã serena e com
o luar ainda a despontar, todos alegres e sorridentes com o Domingos Moina na casa do Leme a entoar uns fadinhos,
mas em silêncio porque a voz não dava para mais…
História contada pelo João Muchacho, no dia
20 de fevereiro, pelas 11 horas da manhã, junto ao Bairro Sucupira-Esposende.
“Vamos às solhas!...”.
A primavera batera “às
portas” da vila de Esposende e, numa pujante manhã, a vida começava
a despertar para a faina diária e a “criançada” saltou da cama, atraída pela
manhã primaveril que a natureza presenteava, como sempre, os esposendenses.
Numa casinha simples,
térrea e acolhedora, a norte de Esposende, perto da igreja matriz, junto
ao lavadouro público, a Rosa peixeira já estava a pé e os filhos-
Carlos, Tone…- já se encontravam bem acordados, pelo “despertador
matinal” que era o chilrear dos tordos e da outra passarada que se tinha
instalado, com a sua orquestra, nas palmeiras da casa dos padres.
Vamos rapazes, todos para o
tanque lavar a cara e está um belo dia para ir às solhas, disse a
tia Rosa, já prontinha para recolher os chicharros e vendê-los, no
cantinho das sete moléstias.
Num ápice o “exército”
foi organizado com o Carlos Bicho, como “general” das tropas, com os seus
“soldados,” Tonho, Tone Bichesa e o Miguéis,” O Azar” e, todos
eles, pegaram nas redes das solhas (redes do bucho), que estavam no
corredor da entrada, foram para a zona do Hotel Suave-Mar, fazer os
“lanços” iniciais.
Quando ia o João Calhandra, o
Carlos Bicho perdia o “posto” e quem comandava as” tropas” era o sr.
João, pessoa muito afável e respeitadora.
Estes jovens
pescadores, sem apoio do barco, percorriam o rio todo lés-a-lés,
até à ponte de Fão e nas lages, perto desta ponte, nos torrões, as solhas
estavam acamadas, e a rede enchia-se rapidamente, sendo guardadas num saco
grande de linhagem, dado pelo Abílio Coutinho, do seu armazém de cereais.
No rio, a azáfama começava a
eclodir e uma vez a rede esticada, começava-se, a bater no fundo do
areal, com as varas, para as solhas irem ao encontro da rede que as
aprisionava.
Estamos todos “partidinhos” queixava-se
o “Azar”, para os seus amigos, todo molhadinho e já cansado de lutar
contra a fria corrente do rio, já que a maré estava a encher.
O Tonho, sempre a
resmungar, ameaçou que à tarde não viria outra vez às solhas porque
tinha um jogo na ribeira contra o sul e logo “à croa”!...
O Carlos Bicho deu um
grito à rapaziada:
- “Caluda”, seus malandros
vamos mas é trabalhar porque a mãe já está com o caldo de farinha na mesa
e nós aqui na moleza…
As solhas foram todas
trazidas, de barco, da ponte de Fão para casa, com os sacos recheados e quando
a tia Rosa viu aquela pescaria desabafou:
-Meus filhinhos, que grande
pescaria! Vocês merecem um prémio, pois vou, amanhã, ao Marino
comprar-vos uma bola de futebol e um pião ao Abílio Coutinho !
O Tonho ao ouvir a mãe a falar
de bola deu um salto e foi contra o guarda-louça, que quase ia
partindo, uma malga, comprada na louceira.
As solhas foram espalhadas no
chão e contaram-se setenta dúzias que foram vendidas à Inocência da Pelada -
mãe do Quico, João Careca, Zé Fofó..-, a vinte e cinco tostões a dúzia.
A tia Inocência ia a Barcelos
e a Braga de “caminheta” vender essas solhas e só regressava a casa, na
camioneta do Linhares, pela tardinha, com a algibeira repleta de notas de
vinte escudos e algumas de cinquenta, sem contar com as muitas moedas que
tilintavam ao ritmo largo da passada da tia Inocência.
Nas redes chegavam-se a malhar
sáveis e lampreias que eram vendidas à tia Churra- Maria de Saúde Lemos- a
cinco croas e esta peixeira deslocava-se muitas vezes, a pé, ao Castelo, pela
praia buscar o pescado na sua gamela de madeira, para vender pelas
aldeias, chegando a ir a pé a Barcelos, onde as suas clientes a esperavam.
Estes “famosos pescadores” de
solhas chegavam a levar o João Café e o João Conde com eles para o
rio, e no final da pesca, também levavam o seu “quinhão”.
Estes pescadores quando saíam
do rio, estavam sempre à espreita porque o Lázaro da Delegação Marítima
não perdoava a multa que era de cinco croas e quando eram surpreendidos,
fugiam e punham o peixe fora ou escondiam-no no meio das silvas da
ribeira. Quando não iam às solhas, estes corajosos rapazinhos, iam
apanhar guita para a pancada do mar que, na altura, dava bom dinheiro: quarenta
escudos, o quilo-.
Essa “guita”-tipo
de algas marinhas- transportada em carrelas, era seca, na ribeira e nos
campos, e vendida ao quilo para fabrico de produtos farmacêuticos e plásticos.
O Romão Miquelino, sempre
astuto e aventureiro, ia à ribeira onde a guita estava a secar e “roubava” umas
manadas para vender e comprar cigarros que fumava às escondida dos pais e na
Páscoa, este “mariola” passeava de cigarro, geralmente provisórios ou
definitivos, pelo paredão, longe dos olhares dos amigos que o poderiam
denunciar. Era o Romão , “no seu melhor”!... Foi empregado da Nélia e
chegava a deslocar-se de “toiota”—carrinho de mão- ao Ofir, levar grades de
cervejas, pirolitos e uns garrafões de vinho e, quando a sede apertava, em
pleno Verão, o Romão, à sucapa, com o dedo mindinho, empurrava o berlinde
do pirolito para baixo, e saia uma bufada de gás, e toca a esvaziar um pouco do
líquido “alimonado” pela “goela” abaixo.
Ingerido o pirolito, forças
físicas eram revigoradas e a viagem tornava-se mais rápida! Os “deuses” não o
denunciava mas, que havia reclamações pelos “defeitos” dos pirolitos, era um
facto!...
Para além destes pescadores de
rio, o tio Zé Pirata era também um pescador de solhas experiente e não gostava
nada ver no rio aquela “cambada” que se fartava de apanhar solhas…
Nesses tempos, o Álvaro Li, Zé
Bebado, Tio Cálica e o tio Alfredo Fá também dispunham de redes de bucho
para as solhas e faziam boas pescarias.
O nosso rio Cávado
sustentava famílias de pescadores que pescavam algum pescado-
solhas em abundância, mujos-erigos, barbos, robalos, sáveis, enguias,
“carangueijas” , lampreias…- com as corajosas peixeiras – Tia
Churra, Silvana, pai do Pezinho, tia Graça, tia Antónia da Galga- a
deslocarem-se a pé às aldeias percorrendo vários quilómetros até
Barcelos, para venderem o peixe. As contas eram feitas com feijões, com
processos matemáticos rudimentares mas, rigorosos e o lucro era distribuído no
fim das vendas, após salutares discussões e regateios…Essas
peixeiras eram “economistas” rigorosas que deviam fazer
inveja aos nossos políticos, dos tempos atuais…
À tarde, o sol convidava a uns
mergulhos nas escadinhas e o Tonho, Carlos Bicho, Azar e Tone
Bichesa, de cuecas , lançavam-se em voo picado para as águas serenas e
amenas do Cávado. Os “calções de banho” improvisados, eram secos ao sol,
sobre as silvas e varais e, posteriormente, os nossos amigos iam para
casa em grande correria, “comer o jantar”, uns chicharros fritos com
batatas cozidas, molhadas com pouco azeite, comprado na mercearia do Coutinho
ou na Lucas e umas côdeas de pão de milho.
As lavadeiras, recolhiam
a roupa que estava a corar sobre a erva e os arames improvisados e
regressavam às suas casas, muito apressadas porque os filhos esperavam
pelo “caldo” e algum “prezigo” milagroso…
Quando os tordos e os
“Charréus”, pela tardinha, começavam a chilrear nas palmeiras da Casa dos
Padres, era sinal para todos irem para a cama, onde dormiam todos
juntos, armazenando novas energias, para as acostumadas
pescarias às solhas para o dia seguinte.
Chegava o silêncio da noite ,
a Igreja Matriz silenciava os sinos, o sacristão ” Biomiro”, alfaiate de
profissão, apagava as velas dos altares, fechava as portas da igreja e
regressava à sua casa para o justo descanso.
Uma lavandisca perdida na rua,
levantava voo para destino incerto, fugindo ao ar frio que começava a
atormentar a noite.
Entrevistado: Manuel Carlos
Vilas Boas Cardoso
Dia 12 de março de 2013
Peixaria Rosa- 10.30 horas O afogado que ressuscitou…
O
Verão, no dia quatro de agosto, de mil
novecentos e sessenta e quatro, chegou à então pacata vila de Esposende, com
todo o seu esplendor, com muito sol e uma temperatura ideal para a praia e para
uns mergulhos no rio, junto às escadinhas,
perto do Salva-Vidas.
O
rio era a piscina natural da criançada, sempre pronta para os mergulhanços da ordem, longe dos olhares dos pais.
Com o rio a beijar o sol, aperfumado, por
uma ligeira brisa, alguns pescadores
“foram para a vida”, lançando as redes das solhas para as águas do Cávado
que ainda estava adormecido, e que “acordara” com o barulho do chapinhar dos
pés dos jovens pescadores.
O Zé
Pechichola, tendo como companhia o “Atita” tinha saído de casa todo apressado, com um
saco de serapilheira às costas, para umas surtidas às croas-areais- para fazer uns
lanços com a rede das solhas.
Já
nas “croas”, repletas de assustados maçaricos e andorinhas do mar, estes dois amigos lançaram as redes, fixas num pau e começaram a sua faina levando a rede para um local do rio
mais fundo.
Com
a água pelo pescoço o Pechichola
começou a bater com a vara no fundo do
areal, empurrando as solhas que deslizavam inadvertidamente, para as redes.
Na rampa do cais sul, encontrava-se uma
catraia ancorada-amarrada-, e o Quico do Arroz- Francisco Domingos Ferreira da
Cruz, vindo recentemente de férias da França, resolveu, em calções, dar um
mergulho no baixinho mas, esse baixinho tornou-se fundo-fundão-, e com um pé em falso, o Quico caiu ao rio
desamparado.
O
Quico do Arroz, que sabia nadar muito pouco, começou a esbracejar aflito porque
já não tinha pé e desapareceu das águas, empurrado pela vazante da “corrente”.
O
Pechichola que observava esta cena, foi de imediato em socorro do amigo, e ainda conseguiu segurá-lo, por uns
segundos, mas teve que o largar porque
já estava prestes a afogar-se, embora nadasse como “um peixe”.
Começaram
os gritos de socorro e o Fernando Rosário que estava no cais pegou num barco,
com o Dimas, remando com uns
improvisados remos, “paneiros”, foi socorrer o Quico do Arroz que já tinha
desaparecido das águas cristalinas do Cávado.
Entretanto,
os Bombeiros foram avisados e a ambulância, a bela mas lenta Chevrolet, chegou
num ápice com os “soldados da Paz” , em direção à ribeira, já com muita gente
aglomerada, entre eles, o Carlinhos da Jandira,
o Tarrio, o Nibra, Augusto, Tachi, Paulo Fá, Mário da Barrega, David
Miquelino, Zé Pancas, Armindo Murraca, Zé Conainas, entre outros, que
interromperam um jogo de futebol que se estava a realizar na ribeira, em frente
da Faustina, a “cinco croas”.
O
Quico do Arroz foi arrastado pela corrente, até às escadinhas perante os gritos
e aflição da criançada que assistia a uma iminente tragédia.
O
Orlando Russo, sempre homem destemido, que se encontrava no cais a pescar à
cana, com o seu velho Sagarra, mandou um
mergulho para as profundezas das águas límpidas do nosso rio e conseguiu
agarrar o Quico do Arroz e trazê-lo à superfície, agarrando-o firmemente pelo
pescoço.
O
Quico mostrava poucos “sinais de vida” e urgia prestar os primeiros socorros de
reanimação.
O
Quico foi transportado para a rampa sul e os bombeiros fizeram a reanimação e o genro do senhor
Porfírio, que estava a estudar Medicina, João Hildeberto B. Osório de
Valdoleiros, casado com a professora Guiomar, estava presente naquele momento no cais, e ministrou uma
injeção ao “Quico” que foi imediatamente transportado para o Hospital Valentim
Ribeiro, onde conseguiu recuperar , salvando-se “in extremis”.
O
povo dizia que uma injeção, nestas situações de morte, chamava-se “injeção do
desempata”…
O
Quico confessou ao “BÓIAS” que teve
consciência que iria morrer e tinha
largado o braço do Pechichola, sua derradeira bóia de salvação, porque não
queria que ele também morresse afogado, soltando-o no derradeiro momento.
O Orlando
Russo foi um amigo de coragem, tendo arriscado a vida para salvar o seu amigo
Quico do Arroz que, felizmente, ainda vive em Esposende, convivendo com os seus
amigos na marginal ou junto à igreja
Matriz, em conversas amenas com o amigo Sotero- jogador de futebol-, uma “velha glória” do ESC.
Para
o Quico do Arroz, os mergulhos acabaram para sempre e banhos só na banheira em
casa…
“ Os frangos voadores”
A barra de Esposende estava cada vez mais
perigosa e o processo de assoreamento tinha sido galopante, no início da década
de oitenta, em ritmos instáveis e as
motoras não dispunham de condições
para entrarem nessa barra, sempre traiçoeira.
Os mestres das motoras e respetivas tripulações esposendenses, tiveram que se deslocar para outras paragens, onde o
pescado era mais abundante: Sagres, Sines, S. Martinho do Campo e Peniche.
Pescadores como o Pesinho, mais conhecido por
“Tinoca”, “Pechichola”, Santos, Serafim,
Candinho “Gaivota”, Manel da Galga,
Rogério Chana, Lano, Milo, Chico da Inocência, João Careca Tone Paquete,
Tone Pirata, Alfredo Muchacho, Batista da Galga, Armindo “Murraca”, Augusto
“Furrica”, Agostinho e muitos outros, deixaram os seus lares e respetivas famílias
para lutarem pela sobrevivência, em águas onde abundavam as lagostas, lavagantes,
peixes-galos, solhões, tamboris, pregados, congros, raias, salmonetes, besugos,
lulas, polvos, santolas, pargos, corvinas, robalos e muitas outras espécies de
pescado. Nas redes-redinhas-o peixe ficava enrufado-malhado- em grandes
quantidades e nas “albitanas” ficava o peixe mais graúdo, precisamente o mais
valioso.
No mercado e na lota esse pescado dava muito
dinheiro para alegria dos pescadores.
Trabalhava-se muito, como dizia o Santos,
tripulante da motora Santa Maria dos Anjos mas, ganhava-se bom dinheiro e os
pescadores viviam nas próprias motoras, que era a sua habitação, com condições
difíceis de alojamento, onde a higiene e a comodidade eram precárias .
Comia-se dentro das motoras, fumava-se (O
Atau era um perito a fumar e intoxicava
a vizinhança…) trabalhava-se e
descansava-se um pouco mais, no fim de semana, onde os pescadores iam a terra, beber umas
malguinhas e umas cervejas nas tascas e alguns “Pubs”, para atenuar a solidão, existente
no seio das tripulações.
Em 1982, na motora Santa Maria dos Anjos, tendo
como mestre o Serafim Coutinho, o Santos com os seus trinta anos de idade,
espraiava a alegria e a boa disposição no seio dos amigos: o mestre Serafim, os
manos David, Zé, Né e Tone Miquelino, o Manel da Galga e o “impetuoso” Batista.
As pescarias eram boas e comia-se, como é
natural, peixe fresquinho, cozinhado pelo
Santos, num fogão improvisado de “duas bocas”.
Numa outra “motora”, denominada “Jesus no
Jardim”, (Quico da Inocência,-mestre-, e os tripulantes Agostinho do Cocho,
Tone Paquete, Manel Pesinho, Rogério, Alfredo, Augusto e Zé) com os seus
dezasseis metros de comprimento, movida por um potente motor Ford de “cento e
trinta e cinco cavalos,” reinava o entusiasmo e o mestre Quico tinha decidido que haveria frango para o
almoço e quem tinha ficado em terra para comprar esses frangos, precisamente o Manel Pesinho, acompanhado do seu
velho comparsa Tone Pirata.
A motora, no regresso ao cais viu o Pesinho
e o Tone Pirata, carregados de frangos, estando a tripulação toda entusiasmada
porque nesse dia, não iria comer o habitual peixe e o Tone Paquete mais alegre
ficou, ao saber que não cozinharia caldeirada para aquela gente toda.
O Pesinho, pelo aspeto, aparentava passagens
por muitas tascas: Zé Manel, Jacinto, Pescador, Chico Marreco…- pois, andava ao
“zigue zague” ou melhor, estava como um “nabo”, como afirmou o Santos que
assistia, no cais, a esta interessante cena recambolesca.
Como é natural, o Tone Pirata, cliente
assíduo da Tasca do Zé Vicente, “Altinho”, estava no mesmo “estado entornado”
que o Pesinho que cantava canções desconexas, inventadas pela sua veia poética, cheirando a vinhaça que
transava...
Ao
aproximar-se da motora, o Pesinho disse que ia lançar os frangos para dentro da
motora, que se encontrava quase atracada, perante o apoio entusiasta do Tone
Pirata que incitava o seu amigo a lançá-los com força.
A
poucos metros da embarcação, o Tinoca, com um grito de guerra “iá..iá…iá..”,
lançou os frangos pelo ar que pareciam “gaivines” depenadas, esvoaçando contra
a ventania que se fazia sentir e, com tanto azar, a mira falhou e as “aves “ foram
cair ao mar, perante o desespero dos tripulantes
que viram os “frangos” mergulharem nas
águas salinas e espumadas, perto do cais mas, milagrosamente, logo vieram à tona...
O amigo Pesinho, pouco conhecedor das leis
da física, não contava com a força da ventania de sudoeste, o que fez desviar
os frangos na direção errada…
O Rogério “Chana”, especialista a fisgar
lampreias, irmão do Lano, filhos do falecido
Rogério, pegou rapidamente no “bicheiro”, que se encontrava sobre a
cabine da motora e começou a fisgar os frangos, um a um, e conseguiu salvar o
almoço!...
Os
tripulantes da motora ”Jesus no Jardim” rogaram pragas ao Pesinho, chamando-lhe
os habituais “palavrões”, que não constam no dicionário contudo, o ”Tinoca” cambaleando, conseguiu entrar na embarcação,
encostando-se à cabine depois de uma escorregadela
no viscoso convés.
Toda a tripulação comeu um saboroso arroz de
frango, cozinhado pelo mestre–cozinheiro Tone Paquete enquanto o Pesinho dormia como um “porco” e só acordou às tantas da manhã, quando o sol,
já rompia o horizonte.
A embarcação “Jesus no Jardim”, sob o comando
do experiente mestre Quico, ia começar
mais uma faina no alto mar e com toda a tripulação preparada, apareceu, saindo
do porão, o Pesinho e, levantando a sua “tenebrosa e esganiçada voz”, perguntou:
- Quando é que comemos os
frangos?
Toda a tripulação numa berraria, em uníssono respondeu-lhe:
- Olha Tinoca, morreram
todos ”afogados” e estão no fundo do mar e para a próxima vez, bebe menos…
A
embarcação entrou em pleno mar, com toda a gente bem acordada, e foram mais
umas horas de trabalho árduo, tendo os audazes pescadores de Esposende, largado
as redes e tremalhos para as “entranhas “ das águas, com a convicta esperança
de uma boa pescaria, o que viria a acontecer.
Entrevista com o Santos, Francisco , Rogério “Chana”.
Dia 13 de março e 16 de
abril de 2013 no café Oliveira-11 horas, e café Cine-22.00 horas-e no café do Mercado – 16.30 horas-.Esposende
O tio David, turista...!
Estavamos no mês de janeiro, em mil
novecentos e setenta e oito e, em
Esposende, os pescadores já estavam na faina da pesca à lampreia, com rede,
bicheiro, galheiro ou rede, com a “estacada” em descanso, junto à foz com as suas lanternas a iluminar a superfície das
águas, procurando o tão desejado ciclóstomo.
O Santos,
filho da Delfino Ceareiro e da tia Maria Fifas, e o Tone Miquelino, filho do Miquelino e da tia Adelaide, “lampreieiros” astutos, estavam na foz com os
seus galheiros e já tinham apanhado uma “manada” delas, colocando-as dentro de uma saco de malha, fechadinho não
fosse o cão, caça-lampreias do Lima roubá-las, um canino treinado nesses “desvios”….
O Tio David era uma velha “raposa “ do rio
e pescava , nesta época, lampreias mas, ultimamente andava um pouco em
descanso, e não estava prestes a “vergar a mola” porque a vida são “sete dias”,
como dizia o velho e manhoso mestre David, que era um pescador especial, perito
na pesca dos irões e das solhas.
Nessa manhã,
o Tone Miquelino, viu o tio David com a”
ponteira” às costas e perguntou-lhe:
Para onde vai Tio, com a ponteira, feito turista, num dia tão bom
para apanhar irões nos carreiros?
Ó tio David, você é que é tolo , vir a esta hora apanhar
lampreias, neste sítio que não tem dado nada e
já sabe que não tem paciência
para andar à lampreia, acrescentou o Santos, rindo-se para o Tone Miquelino que
lhe piscava o olho!
Olhai seus
“marmelos” vocês não percebem nada disto e sabem porque venho com o galheiro às
costas, seus morcões?
Não, não
sabemos responderam prontamente os dois
amigos ao tio David que estava fardado à pescador com botas de água, verdinhas
e com um grande casacão de xadrez.
Eu vou explicar, dizia ele: Eu gosto muito de “cozido
à portuguesa” e a minha mulher quando me vê
ir à lampreia , vai-me buscar
logo um “cozido à portuguesa” ao Zé Arménio e é por isso que venho com a “ponteira”
às costas para” fazer de conta”, porque
o galheiro fica a descansar nas dunas, perto do bar da praia.
Eu quando
chegar a casa , meu sobrinho Tone, o cozidinho vai estar na mesa e vou
comê-lo que me vai saber tão bem, respondeu com ar de convencido o tio David!
Passadas umas
horas, o Tio David regressou a casa e a mulher perguntou-lhe pelas lampreias e
ele muito atrapalhado e a gaguejar , disse-lhe
que o mar estava a descabeçar-vazar- e
as lampreias tinha ido todas para o mar e
foi uma manhã “lisinha”…
Eu até chorei,
podes crer mulher!...
Ó homem, não
faz mal, anda mas é comer o “cozido à portuguesa “que já está na
mesa, com um copinho de vinho Felgueiras, comprado no Areias. Vai-te saber pela
alma mas, atenção, ameaçou a mulher do Tio David:
- Para a próxima vez que não trouxeres lampreia, não há “cozido à portuguesa” e não
me venhas com desculpas ameaçou a mulher do tio David, em frente dos filhos que
já estavam à mesa a comer o “caldo” com umas iscas de bacalhau, compradas na
Nazaré, e arroz, um pouco estorricado.
O Tio David, pensou, para os seus botões:
P´ra próxima não
me “safo” e tenho que trazer umas
lampreias à minha mulher, nem que as tenha de roubar aos Santos ou ao meu Sobrinho
Tone Miquelino!...
História
contada pelo
Santos
Coutinho, no dia 20 de Fevereiro de 13,
pelas 11.35, horas no Café Oliveira-Esposende..
CMLB
Carlos
Barros - Cantinho dos Lobos do Mar
Um turista, azarado…
Estavamos no ano de mil novecentos e sessenta
e dois, quando numa tarde de verão, a motora Filomena Antonieta, com o mestre João
Careca-João Pinto Loureiro- ao leme,
lançou-se ao mar, que se encontrava calmo, no arrasto ao camarão.
Com o mestre
seguiam os seus tripulantes: Alfredo Muchacho, Tonó, António Cabeludo, Tino Fangueiro,
Romão Miquelino, Tone Pirata, Rodolfo “Ilhoca”, Milo Barros e Alfredo “Morrossol”,
uma equipa de pescadores de respeito onde o Morrossol tinha de fazer
continência ao Muchacho, caso contrário ia vassourada no lombo, isto nos momentos de boa
disposição. O Muchacho chamava ao Morrossol por Cornélia, título de um programa
televisivo desses tempos.
A motora, à
saída da barra, dava a força toda e a
ferrugem do cano de escape era aproveitada para o Milo e finado Muchacho, para pintar as caras de alguns tripulantes mais
brincalhões.
Quem quer ser
o Jordão, dizia o Milo para a restante “cambada”? Temos aqui ferrugem que
chegue…
A tripulação,
na zona costeira trabalhou bem, durante algumas horas no arrasto ao camarão, na
“purbeira, no “lares”, no forcadinho ,
locais perto da costa que eram referências para os pescadores.
A “safra” no
final da pescaria foi bastante boa: lavagantes, lagostas, santolas e camarão da
costa, bem graúdo.
No regresso
ao cais norte, na motora, sempre com
o respeitável mestre João Careca ao leme,
reinava a boa disposição, com o Tio Muchacho sempre nas brincadeiras, com o Milo a ajudar à festa e a vítima era
quase sempre o Morrossol que não podia “levantar muito o cabelo”…
Chegada ao cais, a Filomena Antonieta
descarregou o pescado, sendo colocado num gingão para ser vendido, já por
encomenda, para a Póvoa de Varzim, ao comerciante José Reis, homem de negócio,
muito sério e simpático.
Os nossos
pescadores também vendiam o camarão à Zeza da Carqueja mas, esta negociante não
era muito bem vista por eles porque ela enganava-se muito no peso do marisco…
Na sua
mercearia, quando os pescadores vinham com o
marisco, este era posto, pelo Zé Reis , em viveiros, no mar, para mantê-lo vivinho-lavagantes, lagostas…. O
Zé Reis
oferecia presunto e umas garrafas
de vinho à tripulação e que, rapidamente,
ficavam vazias, apenas, o Milo, bebia sumol ou “Canada Dry” ou mesmo pirolito, isto nos dias mais quentes.
Nesta casa comercial,
trabalhou a senhora Maria do Rites, mãe dos nossos amigos esposendenses dr. Fernando Rites e seu irmão, Rogério Rites.
O Alfredo Morrossol foi o encarregado de
levar o marisco ao José Reis, à Póvoa de
Varzim, num gingão, com panos grossos e encharcados por cima, e deslocou-se na
camioneta do “Cascão Linhares“, conduzida pelo “Joaquim das Camionetes”. O escritório do Linhares era em frente dos
Bombeiros velhos, sendo os seus funcionários o Abel da ”Batata” e o António
Pinto que vendiam os bilhetes e responsabilizavam-se pelas encomendas.
O Morrossol, com a sua roupa de pescador, lá
foi na camioneta descansadinho e quando chegou à Póvoa, deixou o marisco em
casa do José Reis que lhe ofereceu uma boa malga de vinho e uma posta de
bacalhau, ficando o Morrossol bem “compostinho”…
O José Reis pagou mil e duzentos escudos pelo
marisco e com tanto dinheiro o amigo Morrossol teve um “ataque de
desonestidade” e pensou:
- Tenho a
minha família em Lisboa e com este dinheirinho, uma “pequena fortuna” para a
época, vou fazer uma visita de surpresa à minha irmã, pensou o amigo Morrossol, já com as notinhas a
aquecer nas mãos calejadas do mar.
Comprou o
bilhete de comboio para o Porto, para a
estação da Campanhã, e lá foi o “turista” no comboio para a cidade invicta,
desejoso por chegar a Lisboa.
Entretanto, o
gingão e os panos tinham chegado na camioneta do Linhares, e o Augusto
Guimarães, homem muito sério, antigo polícia
e engraxador da Nélia, em Esposende foi entregar a encomenda ao João
Careca e restante tripulação, que estava
à espera do dinheiro, para se distribuir o “quinhão” por todos.
Então onde está o dinheiro, Augusto, perguntou o João
Careca!
A mim, não me entregaram nada, respondeu o Augusto
todo aflito!.
Há bronca pela certa, responderam alguns pescadores
da motora.
Será que o Morrossol ficou com o dinheiro, questionou
o Muchacho.
O Tonó, António Chicho e Alfredo Muchacho alugaram o táxi ao António Marques Henriques
e a toda a pressa, foram à Póvoa de Varzim, dirigindo-se à casa
do José Reis à procura do Morrossol.
Zé , o Morrossol esteve aqui, perguntou o João Careca!
Ele entregou-me o marisco, dei-lhe o dinheiro
e foi-se embora respondeu o Zé Reis, com
a maior naturalidade, acrescentando que o viu numa uma loja de roupa de
vestir, perto do seu estabelecimento comercial.
Desconfiado,
o Tonó, sempre espertalhão e
desconfiado, perguntou com a sua “tenebrosa” voz:
-Será que ele foi para Lisboa visitar a irmã?
Malta, vamos
à estação da Campanhã que o “marmanjo” deve estar lá, pronto a partir, disse o
Tonó, gesticulando com ares ameaçadores…
O táxi na
velha estrada número treze, a toda a velocidade, chegou à estação da Campanhã e
lá foram à procura do “turista”.
O comboio para Lisboa não tinha chegado por
sorte da tripulação, e, sentadinho de fatinho branco, calças vincadinhas sapatinho
branco, à “brasuca”, óculos de sol e com risca ao lado, lá estava o Morrossol à
espera do comboio.
Então que estás aqui a fazer na estação, perguntaram
os seus amigos da motora!...
O Morrossol
ficou branco, sem fala e, gaguejando, respondeu:
- Eu perdi a cabeça e ia para Lisboa visitar a minha
irmã e já tenho aqui o bilhete disse o Morrossol, com o ar amedrontado.
Desgraçado,
anda à nossa frente para Esposende que nós iremos vender o bilhete, o que
conseguiram, após
alguns
contactos na bilheteira com os passageiros que estavam na fila para comprarem bilhetes
para os vários destinos.
Onde está o dinheiro do marisco, perguntou o Muchacho
enfurecido com os dentes ”arreganhados”, ao Morrossol?
Ó meu irmão,
gastei-o quase todo na roupa e nos sapatos…
Ò desgraçado,
vamos embora e ainda hoje vais ser morto, ameaçou o Tonó, com o punho fechado.
Durante a
viagem o Morrosssol ouviu das “boas” com algumas ameaças de umas “verdoadas” no
“cachaço”-
O condutor António
Marques Henriques lá ia ouvindo aquela discussão dentro do carro e, pelo
retrovisor, contemplava “o turista” bem vestido, franzindo o ”sobrolho”….
Quando
chegaram à praça de táxis, junto ao largo dos peixinhos, saíram todos, com o
Morrossol, todo “pinote” mal ele sabia que quando chegasse a casa, iria ficar
sem a roupa toda, o que, aliás, veio a acontecer.
O Chico
ficou com a camisa, as calças e o casaco foram distribuídos pelos amigos, ficando o Morrosssol com a roupa da semana,
triste e azarado na frustada aventura para Lisboa que foi interrompida quando
menos esperava…
O Morrossol prometeu pagar a dívida, o que
veio a acontecer, mas a confiança tinha
acabado para com a tripulação da Filomena Antonieta.
O Morrossol, agora mansinho como cordeiro, continuou na Filomena
Antonieta com a restante tripulação e com a dívida paga, a vida continuou e, na
motora, a boa disposição regressou.
“O cantinho dos lobos do
mar”
Carlos
Manuel de Lima Barros
22 de
janeiro de 2013
Trabalho para o mês de fevereiro-Blog-
2013
O Milagre da “robalada”…
Em Esposende,
numa tarde de julho, de mil novecentos e sessenta e dois, com o sol
“conversando” com as poucas nuvens que pairavam no horizonte, os pescadores
lançaram os seus barcos no rio Cávado, com as suas águas serenas e ligeiramente
onduladas, com intenção de uma surtida ao mar, zona costeira.
| Mestre Belemino Ribeiro |
A “maçaricada” aglomerava-se nas “croas”-
areais-, disputando corridas de velocidade curtas, penicando e ingerindo o
petisco alojado no areão.
No cais
norte, a embarcação “actividade”, com os seus tripulantes Saganito “Velho”,-Anselmo
Francisco Marques-, João da Libânia- João de Lemos-, Manel Nibra,- Manuel Pinto de Jesus-, Zé
“Taitas”-José Sousa Lemos- e Zé “Bebado”,-José Nibra- abandonaram a zona
pesqueira de Fão e aventuraram-se para
outras “andanças”.
Vamos até à
barra, que deve haver peixe, disse o Saganito”Velho” para os seus amigos, depois
de puxar a boina para trás do pescoço…!
O Zé Nibra,
ao ouvir este apelo, cheio de esperança, da velha raposa do rio e mar,
que é o Saganito, respondeu:
- Vamos lá
rapazes, porque neste Fão não ganhamos para o pão…
Depois de
deixar alguns tripulantes em terra, na zona de Fão, o João Libânio, Zé e Manel
Nibra, ainda criança com os seus onze anos
de idade, Zé Taitas, Saganito e o Zé Nibra, “mestre” do barco “actividade”, remaram a toda a
velocidade em direção a norte, na ponta
da restinga de areia que separa o Cávado do oceano Atlântico.
- O Saganito aflito disse à “campanha”:
- Vou primeiro “arraiar o calhau” ali nos “fieiros,”
estou aflitinho …
Este felino
pescador, olhou para a pancada do mar e viu centenas de barbatanas dorsais à
superfície da água do mar, mesmo na rebentação.
- Meus Deus, estamos ricos, o peixe está grosso, gritou o Saganito, ainda a apertar a fivela
do esfarrapado cinto!
Não façam
barulho, apelou o Zé Nibra para os seus tripulantes.
Olha, são
mujos, estamos desgraçados, não dá nem para uma malga de vinho no Abilio Coutinho
ou Barrigana, desabafou o Zé Taitas.
Na praia o
João Conde e o professor Carlos Martins, velhos amigos, presenciavam, ao longe,
esta cena, com os robalos a saltarem “fora da água”.
Os nossos
pescadores, incentivados pelo Saganito, lançaram, as redes- varga- ao mar,
junto à restinga, e fizeram o cerco com as redes de “nylon”/algodão.
Uns no
barco, outros a pé, com a água do mar pela cintura, as redes cercaram os peixes
que borbulhavam e saltavam à superfície.
Meu Deus,
isto é um milagre disse o Zé, ao olhar para as centenas de robalos malhados…
Puxem meus
irmãos, são robalos e não mujos do mar, respondeu o Nibra, ainda criança e já
na faina piscatória.
Com o cerco
feito, a rede foi arrastada para o areal da restinga e o peso dos enormes
robalos, ia rebentando com ela. Valeu a força das ondas que ia empurrando a
“robalada” para terra.
O barco
encheu-se de enormes robalos e partiu em direção ao cais norte.
A embarcação,
apesar das fortes remadelas dos pescadores, andava pouco e quase que não saía
do sítio, tal era o peso da “robalada”… .
Já perto do cais, com os pescadores a suarem
por todos os poros da pele, o sopro do Saganito na buzina fez-se ecoar pelos
ouvidos das peixeiras que esperavam no cais, pelos pescadores.
Quando chegaram, ao cais, a “robalada” foi
descarregada e, o Carlinhos da Jandira que tinha sido avisado deste milagre,
depois das aulas no Infante Sagres, foi a correr pela ribeira até ao cais, onde
se aglomeravam mais esposendenses, espantados por tão rica pescaria.
Ena pá, é cada robalo, respondeu o Carlinhos
da Jandira para o Toninho Zurique que estava ao seu lado.
Na ribeira,
decorria um jogo de futebol norte-sul com a bola de “capão” do Zé Pancas a ser
mal tratada, tal eram as biqueiradas dos pés descalços do Paulo Gatinho, Aicha,
Taxi, Augusto da Galga, Zé Conainas, Casimiro “Tri Tri”, Armindo Murraca entre outros jogadores, que , privilegiadamente, estavam calçados.
Este jogo foi logo interrompido porque a
garotada foi toda para o cais, ver a pescaria milagrosa.
O peixe,
depois de descarregado, começou a ser rematado e o guarda-fiscal, estava sempre
presente, à espera do “dízimo”…
A Rosinha da Arranca apareceu logo e disse,
perante as incrédulas peixeiras que estavam ao seu lado:
- Eu compro os
robalos todos, vamos mas é pesá-los!
A Rosinha já
tinha o peixe destinado para uma encomenda e lá se começou a pesagem.
O João da
Libânio, sempre atento, avisou:
- Então esta
caixa não se pesa e está de lado!...
Eu aqui não
quero “ladroagem” ameaçou o João, com a sua voz ameaçadora e trémula.
Muitos
robalos foram “desviados” mas a fartura fez esquecer esta pequena ”rapinagem” …
O Zé Nibra, mestre da embarcação, pegou nuns valentes
robalos e deu-os ao Tio Miguel e ao seu irmão Sampaio e lá foram eles com os
peixes para sustento da casa, com os braços doridos de tanto peso.
O Manel Nibra
também levou a sua “dose” e o robalo era quase do tamanho dele…
O Saganito,
todo encharcadinho até aos ossos, depois
do peixe vendido, disse aos seus amigos:
- Para comemorar, vamos ao Barrigana beber umas
malgas de vinho e um bacalhau frito, com iscas para encher o “bandulho”,
convidou, gaguejando, o velho Saganito.
O Zé” Bêbado” levantou a voz e disse:
- Meus amigos, aqui mando eu e vamos mas é à Nazaré
que tem polvo frito!
O Saganito velho protestou e mandou uma “carvalhada”
e foi em direção à tasca da Berta que ficava perto de casa, embora o vinho lá,
soubesse a “pozes”…
Mas, primeiramente,
o Saganito tinha passado pela tasca do Zé Feliz “humedecendo” a garganta que
estava sequinha!
No meio desta
confusão, cada um foi para a sua tasca e prometeram pagar as despesas depois do
dinheiro “partido”.
O sol estava a
desaparecer no horizonte, naquela tardinha de Verão e todos recolheram às suas
casas, esperando, mais tarde, pelo dinheiro da Rosinha para a partilha da
“guita”, o que veio a acontecer porque a Rosinha Peixeira era mulher de
palavra.
Foi um dia de pescaria de robalos que não há
memória em Esposende e a maioria deles pesavam três a quatro quilos e alguns
deles, pesavam onze a doze quilos..…
Por sinal,
ainda com os meus onze aninhos de idade, recordo-me perfeitamente desta
pescaria e nunca tinha visto tanto robalo na minha vida e tão grandes!
O cais norte estava semeado de robalos
prateados e fresquinhos, a maioria deles, vivinhos, saltando
na rampa do cais, em sinal de desespero …
O sol
desapareceu no horizonte, num crepúsculo
vermelho amarelado, e o velho cais norte ficou deserto mas, penso eu, muito
feliz por albergar no seu “regaço”, o “calor ofugante” dos “robalões”…
Carlos Manuel de Lima Barros.
Nota: Entrevistas/conversas informais com a D. Olívia,
esposa do José Nibra, Manel Nibra, João da Libana, Carlos “Bicho”, João Careca,
Manuel, Laguna, Milo Barros, Bidú,
Santos Coutinho, Tonó, Lano V .Boas, Chico …
( 3
- Cantinhos dos lobos do mar)
- Mês de
fevereiro –
22/01/2013
Fotos: CARLOS BARROS
Cantinho dos ”Lobos do Mar “
Manhã fatídica…
Era uma manhã serena, dia seis de dezembro de mil novecentos e
oitenta e quatro, com uma ténue névoa
afagando a superfície do mar, um
pouco agitado com um vento “roçando “ao tempestuoso
com bandos de gaivotas esventrando os ares, anunciando mau tempo.
Os barcos de pesca de
Esposende, várias motoras e traineiras, sulcavam o mar, à procura do pescado porque os “tempos eram de
miséria e fome”.
Na então vila de Esposende, tinha soado que na costa havia muito camarão e
estava a “monte” e a mensagem chegou ao
João do Fá-João Marcelino Lima de Barros-,
cuja motora estava em plena faina nas águas marítimas de Viana do Castelo onde o peixe e o marisco abundavam.
A traineira do José Paquete tinha apanhado
muito camarão na véspera e esta notícia espalhou-se aos “sete ventos”.
O João do Fá, mestre da embarcação “O mar
obedece a Jesus”, com os seus tripulantes, os irmãos Tino –Ernestino
Moreira Ferreira- e Tone –António Moreira Ferreira-, ambos de Fão, e o
“Morrosol”-Alfredo de Jesus Bernadino- estiveram no arrasto ao camarão e no regresso, a Esposende, onde o João tencionava pintar a motora, mesmo à entrada da barra,
sempre traiçoeira e mortífera, a motora ficou em seco,- na surriba- tendo poderosas vagas apanhado de lado a
embarcação, num ímpeto de força desmesurado,
atingindo a casa de leme-cabine-
que foi “arrancada” e onde se encontrava
o mestre João do Fá, que teve morte quase imediata, tendo os demais tripulantes
sido projetados ao mar e o infeliz Tone
fangueiro, debateu-se corajosamente
contra as águas furiosas desse mar encapelado, e esteve a lutar pela vida
durante muito tempo até que, fisicamente, soçobrou, afogando-se.
Os
demais tripulantes, conseguiram salvar-se, tendo sido um deles, o Alfredo “Morrosol” sido transportado na ambulância, dos Bombeiros
Voluntários de Esposende para o hospital
Valentim Ribeiro tendo os bombeiros Adélio Pezinho e o Artur Miquelino,
prestado os primeiros socorros de
reanimação.
Dizia o Adelinho aflito:
-Artur, o Alfredo está
morto! Ele está branco como a cal!---
-Espera, vamos fazer
reanimação para salvar o homem, disse desesperadamente o Artur Miquelino.
Depois de várias
massagens abdominais, o Alfredo Morrosol começou a abrir os olhos e recuperou
a consciência.
-Estou a tremer, dizia o Morrosol, tiritando de frio ao Adelinho.
-Cala-te, estás vivo meu
homem, saltou de contentamento o Artur e o Adélio Pesinho.
O Ainho -Manuel Viana Eiras-, familiar do
Tone e Tino fangueiro, era para ir nesta
motora, ficou na cama porque anteriormente tinha estado no café ”Doli,” junto aos Bombeiros antigos, até às duas da madrugada, com outros
pescadores, seus amigos, a matar a sede…
Para além do Ainho,
faziam parte da tripulação da embarcação “Mar
obedece a Jesus”, o João “Jeromes”, filho do João do Fá, o Bidú e o
Rogério “Chana” que tiveram a felicidade de não embarcarem na motora, nesse dia
um pouco tempestuoso e de maus presságios.
Esposende ficou de luto com a perda destes
dois esposendenses, com graves repercussões para a família das vítimas, já que
o João do Fá, deixou cinco filhos órfãos
e a viúva Ana Maria, mergulhada em tamanha tragédia teve que enfrentar a vida
para sustentar os seus filhos,-um rapaz e quatro raparigas- e que,
corajosamente, conseguiu, sendo agora pessoas bem sucedidos na vida mas, sempre amargurados
pela morte do seu querido pai.
O João Marcelino, pescador
experiente, muito corajoso e
aventureiro, na ânsia de lutar pela vida, ficou perpetuado no seio da classe
piscatória, era um pescador sociável,
sendo uma referência como homem de coragem e conhecedor dos meandros e traições
do mar e que, naquele malfadado dia, a
fúria do mar e a inconstante barra traíram-no numa “emboscada” inesperada e
fatídica.
Fez no dia vinte e seis de dezembro, vinte e oito anos, que aconteceu esta tragédia em que o mar ”não obedeceu a Jesus” e o Alfredo, por sinal, de Jesus, conseguiu
milagrosamente “safar-se“ retomando a vida de pescador e, mais tarde de
Trolha, onde faleceu, ao cair abaixo de um andaime quando trabalhava na
construção civil.
No dia anterior, o
Santos Coutinho, também pescador experiente, tinha deixado quatro margotas-peixes-
no Café Oliveira para o amigo Alfredo
“Morrasol” e, infelizmente, não chegaram ao seu destino.
O “Mar obedece a Jesus” foi vítima de um mar inesperado, que “cravou”
as suas ondas assassinas contra a embarcação, enlutando Esposende e a sua
classe piscatória, em especial.
Carlos Manuel de Lima
Barros
3
de dezembro de 2012
(Entrevistas com Romão
Miquelino, Santos Coutinho, Ana Maria, Tonó, “Ainho”-Manuel Eiras,- João Careca e Adélio V.Boas
As motoras/traineiras de Esposende:
Esposende, não há muito tempo, teve várias motoras e traineiras onde os
pescadores exerciam a sua atividade piscatória e ganhavam o “pão
nosso de cada dia”, tendo que enfrentar, corajosamente, as
agruras do mar e as intempéries rigorosas, perante uma barra sempre
traiçoeira e extremamente perigosa.
“CANTINHO DO PESCADOR.”:
“O beijo da vida…”
Estava uma manhã serena, com uma névoa marítima a
refrescar os corpos da tripulação da motora Filomena Antonieta, propriedade do
Mestre João Careca – João Pinto Loureiro- e esta embarcação, depois de
entrar a “toda a carga” no mar, serpenteando-se ao largo da
restinga, lançou-se à pesca de arrasto, do camarão, ao longo
da costa.
Estavamos em pleno Verão, onde o sol ainda “ressonava”…
A tripulação da Filomena Antonieta, constituída pelos
esposendenses Rodolfo “Ilhoca”-Rodolfo Eiras Afonso Neto-, que ia
destemidamente ao leme, Tone Pirata, Chico-irmão do João Careca-, “Sai Sai” –
Anselmo Saganito-, Augusto Sancho, Alfredo “Morrossol”, Milo-Emílio Lima- e o
Mestre João Careca, pescador experiente e respeitável, velho “Lobo do Mar”,
lançou as suas redes de arrasto, ao longo da costa, esperançosos numa boa
pescaria de camarão que, possivelmente, seria vendido à Teresa do
Castelo, comerciante dinâmica e simpática mas, uma mulher de “armas”, uma
“expert” a comercializar o marisco – lagosta, lavagantes, sapateiras,
“caranguejas”, camarão…-pescado nas águas marítimas, a poucas milhas da
nossa orla marítima...
A motora, em plena atividade piscatória, lá ia na sua
atividade de arraso, com as “portinholas” beijando o fundo do mar,
“recebendo no seu “regaço” o marisco e eis que o sempre brincalhão Milo,
ilusionista “de profissão”, dirigiu-se ao “Ilhoca” e pergunta-lhe:
- Vamos fazer uma aposta “Ilhoca”?
O que é que queres, já me vais lixar , “Calhalho”, disse
gaguejando o “Ilhoca”….
Olha, vou engolir aquele linguado que está no
convés !...
Queres apostar duas malgas no barrigana ou no Abílio
Coutinho, desafiou o Milo ao seu parceiro de barco.
O “Ilhoca” curioso, colocou a boina para trás, ” arregaçou “ os
olhos, deixou o gigão que tinha nas mãos e disse-lhe:
-“Nem és homem nem és nada”, se não fizeres isso, mas olha bem, as
malgas de vinho não aposto porque tu só podes é beber pirolitos ou laranjada,
respondeu, com o seu sotaque o “Ilhoca”….
O Milo pega no linguado, perante os olhares dos amigos e
mete-o pelo “garganil “ abaixo mas, desgraçadamente, o peixe não
deslizou e ficou encravado na garganta do aflito Milo.
Aí que vou morrer, gritava o Milo, já a ficar negro,
como carvão…
Vai buscar um anzol do congro, gritou o Chico ao Sancho
e ao “Sai Sai” que estavam mais perto!
O “Morrassol” e o Tone Pirata já rezavam ao Nosso Senhor
dos Aflitos e à Nossa Senhora da Saúde pela saúde do Milo, cada vez, de
rosto mais branco como a cal.
O Milo já estava a “espernear”, com falta de ar”
e, num gesto fulminante, o Chico encostou a boca à do Milo, e
com os seus poderosos dentes, crava-os no rabo do linguado e retira-o da
boca do desesperado e amarelado Milo que ficou com a boca ensanguentada porque
os seus lábios ou ”beiças”, como dizia o Sancho, foram
lixados pela rugosa pele do linguado areeiro.
Após breves minutos, já restabelecido, o Milo abraçou-se ao
Chico e, com voz trémula, disse-lhe:
- Irmão, salvaste-me a pele e já estava no “outro mundo” se não fosses tu,
meu irmãozinho!...
O Chico e o seu irmão João Careca, que assistiu muito
aflito ao “salvamento” do Milo, ficaram descansados ao ver o Milo a respirar e
aos “pinotes” de contentamento.
Maria Antonieta, depois de recolher as redes com uma boa
pescaria, regressou ao cais Norte de Esposende, atracando nas calmas águas do
Cávado, onde algumas peixeiras e a Teresa do Castelo, impondo a sua compleição
física e empurrando-as para o lado, esperavam pelo pescado.
Comprada toda a “mariscada”, a Teresa dirijia-se à loja do
Coutinho, onde o Carlinhos da Jandira, pesava todo o marisco, inclusive,
grandes lavagantes e lagostas na balança de pratos que reluziam, depois de
serem lavados, com areia e limão, pela Glorinha e pelo Carlinhos, nas horas
vagas.
Como recompensa, a Teresa oferecia um
pequeno lavagante ao Carlinhos que a sua Tia Alice cozia numa panela, sendo
logo ingerido, acompanhado com um bom traçado-vinho com gasosa- e um sumol que
o Carlinhos bebia, deixando, um “fundinho” no copo para saborear com o caldo de
feijão com “troços”.
A Maria Antonieta, comprada pelo sr. João Careca
por quarenta contos, (e com anzóis ,como afirmou…) a um guarda-fios, que se
tinha tornado pescador, acostou ao longo do paredão, sendo segura pelas fortes
“amarras” às argolas, junto às escadinhas, onde “se curavam” os tremoços da M.
Amália-famosa tremoceira- e da Tia Aninhas.
Toda a tripulação, depois de lavar todo o convés do barco e do
porão, veio para terra, para descansar por umas horas, todavia foram
“assinar o ponto”, comandados pelo Tone Pirata, Ilhoca e “Morrassol”, ao
Barrigana, outros porém, dirigiram-se à Lucas e ao Coutinho, para
provarem o saboroso vinho do Tio Firmino de Vila Cova, que deixava marca
nas malgas. Era um tintol de luxo, como dizia o Tio Rogério e o Geno nas suas
conversas na tasca/armazém do Coutinho, sentados nos sacos de feijão e de milho
…
O Pezinho, cliente assíduo, do Coutinho, bebia uns “penaltis”
valentes e a garganta nunca secava…
O José da Lucas, um “bebedor” sapiente e moderado, uma
malguinha, no máximo duas, dava-lhe para toda a tarde, e o aperitivo era falar
e defender o Benfica, acolitados pelo Rogério que só falava do Coluna que para
ele, era o melhor jogador do Benfica, dizia-me ele nas suas
“vivas conversas”.
Nesses tempos, os pescadores de Esposende no inverno,
raramente iam ao mar, que estava quase sempre “virado ou picado” e conviviam,
naturalmente, nas Tascas, onde passavam as tardes, conversando e discutindo as
suas histórias, as suas ricas vivências, um património
histórico/cultural que deveremos preservar, registando-as e
divulgando-as.
Carlos Manuel de Lima Barros
Nota:
Esta história é verídica e foi-me contada e recontada pelo Emílio Lima-
Milo-, Francisco Loureiro- -Chico-, João Pinto
Loureiro- João Careca- e teve como palco, a motora Filomena
Antonieta, no longínquo ano de 1967.








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