segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Igreja de São Romão de Neiva foi pequena para a abertura dos 40 anos da Escola de Música de Esposende

A Escola de Música de Esposende (EME) abriu no passado sábado, 17 de outubro, as comemorações do seu 40.º aniversário com um concerto na igreja do Mosteiro de São Romão de Neiva. A noite marcou também o início da nova temporada da Escola Coral de Esposende e reuniu tanta gente que a igreja se revelou pequena para todos os que quiseram partilhá-la com os alunos, professores e famílias da escola.



Antes da música, o diretor pedagógico, Carlos Pinto da Costa, recordou os fundadores António Nogueira e Macau Filipe e, nos seus nomes, todos os que há quatro décadas acreditaram que Esposende precisava de um lugar onde se aprendesse música e de um espaço de cultura ao serviço da comunidade. A equipa que dirige desde setembro de 2001 tem procurado cuidar dessa vontade e levá-la mais longe. Ao olhar para estes 25 anos, falou sobretudo das crianças e dos jovens que a escola acompanhou e viu crescer, alguns deles, hoje, professores da casa.

Os números da atualidade da EME mostram até onde chegou esse trabalho. Cerca de 600 alunos frequentam os cursos do ensino artístico especializado, os cursos livres, a Escola Coral de Esposende, com o Coro de Pequenos Cantores, o Ars Vocalis e o Sonus Aura, as oficinas de teatro e a companhia Boca de Cena. A Câmara Municipal de Esposende esteve na fundação da escola e foi a sua entidade titular durante os primeiros 15 anos. Através da parceria com a autarquia, a EME leva ainda o seu trabalho pedagógico a cerca de 1600 crianças do pré-escolar e do 1.º ciclo de todo o concelho.

O diretor pedagógico recordou o lema da escola, «As primeiras notas nunca se esquecem», e associou essa memória a quem ensina a tocar e a cantar. Deixou depois um compromisso para os anos que aí vêm: «Não sabemos tudo o que os próximos 40 anos nos trarão. Sabemos, porém, o que nos cabe fazer: continuar a cuidar desta escola e lutar, afincadamente, para que sejam criadas condições de trabalho condizentes com o projeto educativo, artístico e cultural que já desenvolvemos.»

Helena Venda Lima assinou a direção coral e a criação artística de todo o espetáculo, com Diogo Zão ao piano e Filipe Monteiro na percussão. A nova temporada tem como mote «Whānau – A alegria de cantar e criar em conjunto», a partir da palavra Maori que designa a família alargada, e essa ideia de comunidade atravessou toda a noite. O programa revisitou obras e experiências que marcaram o percurso da Escola Coral e acolheu novas criações. No centro manteve a palavra, a poesia e a relação de ambas com a música, que a Escola Coral assume como parte da sua identidade.

O Ars Vocalis abriu com o Locus Iste, o motete que Anton Bruckner escreveu em 1869 para a consagração de uma capela da nova catedral de Linz. Seguiu-se Good Night, Dear Heart, de Dan Forrest, e O Love, de Elaine Hagenberg, ambos compositores norte-americanos. Passou depois pela poesia galega de Ela non tornou máis, de Juanjo Rodal, e terminou na vitalidade de Hlohonolofatsa, da África do Sul, com arranjo de Daniel Jackson. Os jovens cantores quiseram abrir esta sequência à reflexão sobre a saúde mental, a solidão, o amor, a perda e a importância das relações humanas. Do recolhimento das primeiras obras à energia da música sul-africana, o público acompanhou cada mudança de clima com uma atenção que se desfazia em aplausos no fim de cada peça.

O Coro de Pequenos Cantores de Esposende, coro de vozes brancas, apresentou um programa que parte das raízes portuguesas para preservar a tradição, reinventá-la através da escrita coral e aproximar as novas gerações da sua herança cultural. As crianças e os jovens cantaram Senhora da Bonança e São Lourenço, com arranjos de António Capitão Ribeiro, e o Coro das Maçadeiras, com arranjo de Mário Nascimento. Partiram depois para outras geografias com o Cantate Domino de Charlotte Botha, da África do Sul, a tradição acadiana do Canadá em Vichten e o espiritual afro-americano Go Down Moses. A frescura destas vozes conquistou uma plateia que não poupou aplausos.

Foi uma noite de emoções partilhadas entre os coros e a plateia, com um público entusiasta, caloroso e participativo, que respondeu a cada obra e acompanhou os coralistas do primeiro ao último momento. Na abertura, o diretor pedagógico tinha falado das horas de trabalho, da persistência e de tudo aquilo de que estes jovens prescindem para estar num ensaio ou num concerto. Confessou também que continua a emocionar-se e a surpreender-se com os seus concertos, um resultado que atribuiu ao trabalho de Helena Venda Lima com os coros e à forma como os coralistas o levam ao palco. Esse reconhecimento estendeu-se a todos os professores da EME. Acompanham cada aluno com cuidado, num trabalho tantas vezes discreto, e dedicam-se à formação das crianças e dos jovens da escola. Dão-lhes bases para serem melhores, mais completos e com mais sentido de comunidade, o mesmo sentido de comunidade que os dois coros mostraram, ao longo dessa noite, a quem os foi ouvir a São Romão de Neiva.

Na parte final, os dois coros juntaram-se numa celebração intercultural, com Baba Yetu, de Christopher Tin, e Tshotsholoza, canção tradicional da África Austral. O encontro de tantas vozes fechou a noite com a força do canto coletivo, e o público despediu-se dos coralistas com aplausos demorados.

No programa da noite, a escola deixou o desejo de que a juventude destes 40 anos continue a inspirar muitas gerações a encontrar na arte, na música e na cultura um lugar de pertença, de descoberta e de crescimento. Desejou também que a nova temporada continue a celebrar a alegria de cantar e criar em conjunto.





Fonte: Escola de Música de Esposende
Fotografias: Jorge Ferreira