segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Etarismo, uma forma de discriminação normalizada

Sabe aqueles comentários que soam a brincadeira, mas que escondem um preconceito bem real? Frases como “já estás velho para isso” ou “isso é coisa de gente nova, nem vale a pena tentares”. Esse tipo de atitude tem nome: etarismo.

O etarismo é a discriminação baseada na idade. Pode atingir jovens e idosos, mas, na prática, são sobretudo as pessoas mais velhas que sofrem com ele. Manifesta-se de várias formas: na dificuldade em arranjar trabalho, na ideia de que os mais velhos já não acompanham o ritmo ou perderam capacidades, e até na forma como muitos acabam por duvidar de si próprios depois de ouvirem isso repetidas vezes.

No Brasil e em Portugal, o etarismo existe, embora se apresente de maneiras diferentes.

No Brasil, um país marcado pelo culto à juventude, a velhice é muitas vezes vista como um fardo. Ainda assim, a família costuma ter um papel importante no apoio aos idosos. Já o mercado de trabalho afasta-os cedo demais, e no lazer a exclusão também se faz sentir, com poucos espaços realmente pensados para esta faixa etária. O envelhecimento acaba por ser tratado como algo a combater, o que ajuda a explicar o sucesso da indústria da estética e dos produtos ditos “anti-idade”.

Nesse contexto, os Conselhos Municipais do Idoso e a Pastoral do Idoso, apesar de terem naturezas distintas, atuam muitas vezes em conjunto na defesa e garantia de direitos, bem como na promoção da qualidade de vida das pessoas idosas.

Em Portugal, onde o envelhecimento da população é cada vez mais evidente, o problema assume outros contornos. As oportunidades de trabalho para pessoas mais velhas são escassas, e muitos acabam isolados, sobretudo em bairros sociais, grandes centros urbanos e, com particular gravidade, nas zonas rurais. O isolamento e o abandono são questões sérias. Faltam políticas públicas eficazes que assegurem um envelhecimento digno. Em muitos casos, as famílias não têm condições para cuidar dos mais velhos, e os custos elevados e a falta de vagas nos lares acabam por limitar o acesso a esse apoio.

Ser alvo de etarismo não é apenas desagradável; pode ter consequências profundas. A exclusão social afeta diretamente a saúde mental, levando muitas pessoas à depressão e à ansiedade, alimentadas pela sensação de inutilidade ou de descarte. A falta de estímulo social e intelectual pode ainda acelerar problemas como a demência. No mercado de trabalho, o impacto é igualmente duro: perder o emprego depois dos 50 anos torna a reintegração extremamente difícil, com reflexos na estabilidade financeira, na autoestima e, em muitos casos, conduzindo à pobreza na velhice.

No Brasil, o Estatuto do Idoso protege os direitos das pessoas com mais de 60 anos, garantindo acesso à saúde, transporte gratuito, prioridade no atendimento e punições para situações de discriminação. Ainda assim, o preconceito persiste, sobretudo no mercado de trabalho e na forma como os idosos são vistos pela sociedade.

Em Portugal, o Código do Trabalho proíbe a discriminação em função da idade e o Estatuto do Maior prevê um conjunto de direitos para os cidadãos mais velhos. Contudo, a aplicação prática dessas normas continua a ser um desafio, e muitos idosos enfrentam dificuldades para fazer valer direitos que, no papel, já lhes estão garantidos.