quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

“E bota o Ano Velho fora”

Logo pela manhã, a canalha já andava toda em rebuliço para organizar os grupos do “Ano Velho”. Escolhia-se o mais leve para ser o “Ano Velho”. Vestia-se com roupa velha, toda remendada; metiam-lhe um carapuço ou um sueste na cabeça, uma corcunda nas costas, por baixo do casaco, e umas botas de água. No fim, lá vinha a barba branca postiça, atada à cara com um fio. Nas mãos, o saco de pano para as esmolas. Ao ombro, a cambeia, um pau com a rede na ponta, que aquilo sem cambeia não dava muito certo.


O pequeno “Ano Velho” era sentado na carrela, levada nos ombros de quatro com a cara toda tisnada a carvão. Atrás ia o resto da miudagem, aos gritos e às gargalhadas, a bater em latas, testos de panela e no que mais aparecesse. Quanto mais barulho, melhor.
De norte a sul, as ruas ficavam cheias destes grupos, a cantar com força, como se o ano dependesse daquilo:
“E bota o Ano Velho fora,
E venha o Novo cá p’ra dentro!
Turum tum tum, turum tum tum,
Sete burros tu és um!”
(e amanhã é dia um)
Era um corrupio de grupos pelas ruas, cada qual com o seu “Ano Velho”, feito à sua maneira. Ao cair da noite, faziam-se as contas ao apuro. Uns levavam alguns trocados para casa; outros juntavam o apurado para comprar qualquer coisa para a malta, podiam ser guloseimas, mas quase sempre uma bola de futebol nova.
E assim se foi mantendo o costume de botar o “Ano Velho” fora até aos dias de hoje.
Esposende, 31.12.2023

✍🏽✍🏽 A.S. e A.R.